Amigos do Parque Ecológico contra pastoreio nas serras da Madeira

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Ácima: área do Poço da Neve (entre os 1600 e os 1700 metros de altitude) em setembro de 1995, quando começou o processo de retirada do gado do Parque Ecológico do Funchal.

A Associação dos Amigos do Parque Ecológico do Funchal emitiu um comunicado pronunciando-se de forma totalmente contrária à reintrodução do pastoreio nas serras da Madeira, nomeadamente na cordilheira central e no Paul da Serra. No comunicado, assinado pelo presidente da Associação, o conhecido ecologista e geógrafo Raimundo Quintal, a Associação diz apenas admitir a possibilidade de pastoreio ordenado nas zonas onde habitualmente começam os fogos florestais, na zona de transição entre as habitações e as matas de pinheiros bravos, acácias e eucaliptos.

Esta posição da organização não-governamental para o ambiente (ONGA) e instituição de utilidade pública que ao longo de anos tem contribuído, através do trabalho dos seus voluntários, para a recuperação do coberto florestal nas zonas mais altas da Madeira, as serras anteriormente escalvadas, surge na sequência de movimentações de ‘pastores’ que foram abordar os partidos com assento na Assembleia Legislativa Regional, na tentativa de os sensibilizar para os seus interesses.

A missiva dos Amigos do Parque Ecológico argumenta contra a ideia recorrente de que o gado contribui para evitar incêndios na serra demonstrando que alguns dos piores incêndios da história da Madeira aconteceram quando a montanhas madeirenses estavam infestadas de gado.

Relembrando todo o processo de retirada do gado das serras da Madeira, Raimundo Quintal, em nome da AAPEF, constata: “Aproveitando a existência dum novo governo regional e a proximidade de eleições legislativas nacionais voltaram os convívios de “pastores” com políticos à míngua de votos, com o objetivo de propagandear as “virtudes” do pastoreio nas serras da Madeira”.

Para Raimundo Quintal, trata-se antes de “donos de ovelhas e cabras (conceito diferente de pastores) responsáveis pelo processo de desertificação que alastrou pelas serras de Santo António, São Roque e Pico do Areeiro”. Mas a AAPEF pretende evitar que “a mentira do pastoreio amigo da flora indígena volte a mascarar-se de verdade”.

Relembra que em tempos foi celebrado um protocolo com a Cooperativa de Criadores de Gado do Monte, para a apascentação de 250 ovelhas de forma ordenada, as quais ficavam a cargo de um homem contratado pela respectiva cooperativa, o que prova que não se tratava de verdadeiros pastores. Mas, passados sete anos, a Cooperativa abandonou as intenções de pastoreio e devolveu o terreno à CMF.

Hoje, denuncia, a Secretaria Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais paga 120 mil euros por ano para que um grupo de criadores possa manter cerca de 600 cabeças de gado no Chão das Feiteiras, nas proximidades do Poiso. Localidade que está escalvada, e que força o gado em busca de erva para comer a subir a cotas superiores e inclusive a mastigar as plantas que os Amigos do Parque Ecológico têm plantado, numa tentativa de dar novo alento à flora índigena.

Para Raimundo Quintal e para os restantes membros da associação, este tipo de pastoreio sustentado por fundos públicos e que não se dirige à sobrevivência concreta dos criadores não faz sentido, pelo que fazem um voto de se manterem na linha da frente contra o regresso do pastoreio ao Maçiço Montanhoso Central da ilha da Madeira, e bem assim ao Paul da Serra/Fanal.

Alertam também as entidades competentes do Governo e os partidos políticos para não se deixarem enganar.

Foi o CDS-PP/Madeira que, antes da últimas eleições legislativas regionais, mais se acercou dos supostos criadores de gado. O seu líder, José Manuel Rodrigues, chegou a reunir com os apologistas do gado nas serras e a participar em encontros em zonas serranas, onde se lhes dirigiu mostrando o seu apoio ao apascentar de ovelhas e cabras em áreas montanhosas, prometendo-lhes o apoio do seu partido.

Também o PTP de José Manuel Coelho tem mantido uma postura favorável aos criadores de gado.

A carta pública divulgada pela AAPEF pode ser lida na íntegra através do link https://www.scribd.com/doc/270301727/Pastoreio-nas-Serras-da-Madeira