Sinagoga do Funchal desconhecida e esquecida

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Fotos Rui Marote

Na Rua do Carmo, n.º 33 A, no Funchal, resiste ao tempo a Velha Sinagoga do Funchal.

Não fora a Estrela de David (Magen David) que encima uma das janelas e poucas referências se teriam de que aquele imóvel tem história.

Mas a maioria dos madeirenses desconhece-a.

A esquecida Sinagoga do Funchal até teve, tudo indica, o mesmo projectista da sinagoga de Lisboa, dados os traços arquitectónicos quase decalcados.

Em Junho de 2014, surgiu a ideia do Funchal classificar a sinagoga e o cemitério judaico a que o Funchal Notícias já se referiu.

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Da sinagoga, cujo interior não nos foi possível visitar, resta contemplarmos a fachada, bonita, num imóvel cujo rés-do-chão é ocupado por um café e onde já existiu uma lavandaria, hoje loja de decoração.

Trata-se de uma réplica, em pequeno, da sinagoga de Lisboa.

Terá sido construída de raiz, com fachada para a rua, e uma Magen David incrustada numa das janelas, o que indica que terá sido edificada depois da implantação da República.

Mas a idade da construção é desconhecida uma vez que não há registos relativos à construção da Sinagoga do Funchal.

Siangoga3A 31 de Março de 2013, o falecido jornalista do Público, Tolentino Nóbrega escreveu sobre este património, a propósito de um Seder de Pessach (jantar cerimonial judaico, no caso pascal, em que se recorda a história do Êxodo e a libertação do povo de Israel) que, dirigido pelo cantor litúrgico, Marvin, teria congregado na Madeira 20 judeus B’nei Anussim (B’nei Anussim em hebraico significa literalmente “filhos dos forçados” [filhos dos marranos], termo que designa os descendentes dos judeus que na época da Inquisição foram obrigados a se converter ao cristianismo sob pena de morte cruel).

Na maior parte do tempo, as portas da Sinagoga do Funchal, acesso oa piso superior, estão fechadas. Mas tudo indica que no seu interior não há pu há poucos vestígios do outrora lugar de culto.

O imóvel, apesar de bonito, não faz parte dos roteiros turísticos. Não está (ainda) classificado apesar dos traços característicos da fachada principal e que denunciam ter sido projectada por Ventura Terra, o arquitecto da Sinagoga de Lisboa e autor do plano de urbanização e modernização da cidade de Funchal, no primeiro quartel do século XX.

Sinagoga4O imóvel é actualmente de propriedade privada.

Ao lado existe uma pastelaria, café, cujo nome é “Estrela do Carmo”. Diz-se que por referência à estrela de David da janela do prédio.

Não havendo referências certas tudo indicada que o período de construção desta sinagoga se situe entre 1912 e 1914.

O que coincide com a passagem do arquitecto Miguel Ventura Terra pela Madeira. É que, alguns anos depois, foi inaugurado a Sinagoga Judaica de Lisboa, de alçado muito semelhante à do Funchal.

Sinagoga5A única diferença é esta: enquanto a Sinagoga Shaaré Tikva (“Portões da Esperança” em hebraico), situada na Rua Alexandre Herculano, em Lisboa, foi construída num pátio amuralhado -porque na época a lei estabelecia que os templos não católicos não poderiam ter a sua fachada para a rua- a sinagoga do Funchal, construída já depois da implantação da I República, tem a fachada principal para a via pública, Rua do Carmo.

Além das paredes mestras originais, a fachada é o que resta do antigo templo judaico, cujo interior sofreu alterações, nomeadamente a adaptação do rés-do-chão ao comércio e os pisos superiores a moradias, com licença de habitabilidade emitida pela Câmara do Funchal em 1951.

Mas, escreveu Tolentino Nóbrega, “a construção da sinagoga, contígua ao antigo Reid”s Carmo Hotel, onde foi o Grémio dos Industriais de Bordados da Madeira e mais tarde o Cine Jardim, decorreu no início da segunda década do século passado”.

Embora não conste da lista de obras emblemáticas de Ventura Terra (1866-1919), a existência da sinagoga do Funchal, na Rua do Carmo é vagamente referenciada por membros da comunidade judaica no estrangeiro.

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