Os actuais governantes da Região tinham antes das eleições manifestado a intenção de cortarem cerce a pouca vergonha dos milhões de euros entregues ao Jornal da Madeira quando tomassem o poder. Passado o tempo de campanha eleitoral e a consequente hora de governar a coisa já não é bem assim. Estamos em processo de reestruturação e privatização.
Os subsídios públicos ao Jornal da Madeira (JM) foram (são) um escândalo, uma ofensa aos pobres da nossa terra. Não se trataram de centenas nem milhares de euros, mas milhões retirados ao povo madeirense e que foram (são) desbaratados para alimentar salários gordos e pretensas crónicas jornalísticas para ofender imensa gente, exaltar um desgoverno regional e um partido político sem sentido nenhum no que diz respeito à Democracia e serviço ao povo. Serviu mais para alimentar a bajulocracia e a gratocracia.
Porém, mais escandalosos eram os argumentos que se aludia para justificar tais subsídios. Pluralidade de informação. Direito ao contraditório. Combate aos «comunas» do Diário de Notícias. Entre tantas outras balelas fantasmagóricas que se não fossem patéticas ao invés de nos pôr a rir ponham-nos a chorar de vergonha. A Igreja Católica da Madeira fez parte desta teia e desta loucura. Tem um suplemento chamado de «Pedras Vivas», caderno semanal que sai ao domingo e uma página diária para enfeitar a coisa. Nestas páginas generosas, dá-se conta das actividades episcopais quase em exclusivo, como se a Igreja da Madeira fosse só e apenas aquilo que o Prelado realiza.
É certo que a Igreja da Madeira precisa de um espaço para publicitar e divulgar as suas actividades. Algo mais simples, mais barato, mais próximo das comunidades religiosas (Paróquias) e mais liberto de qualquer entidade política.
Alguns poderão acusar-me de já ter participado e colaborado nesse dito caderno religioso do JM, é verdade, colaborei durante 10 anos. Foram os meus primeiros anos de vida sacerdotal. Foi uma aprendizagem. Uma escola. Mas, porque não sou ingénuo, chegado o dia em que a censura aos meus textos se fez sentir, desisti imediatamente. Não podia colaborar mais com uma realidade que violava os meus princípios e, especialmente, a liberdade de expressão, valor essencial dos nossos tempos.
E saliente ainda mais o seguinte a titulo de declaração de interesse, para evitar ainda mais maus pensamentos e acusações malévolas. Fui colaborador do Jornal da Madeira durante 10 anos, recebia pouco mais de 30 contos a recibo verde, uma grande parte ia para o imposto, no fim não sobrava muito. O regime jardinista fez correr a ideia que eu desejava ser director do Jornal da Madeira. Nunca alimentei essa ideia. Serviu bem a convivência naquele lugar nos tempos do Cónego Tomé Velosa como director, que o padre que viesse a seguir para aquele antro de luta partidária e de loucura pelos cifrões seria carne para canhão. Felizmente, os interesses mundanos desviaram-se para outras paragens.
Hoje, tendo em conta todas as dificuldades que o mundo atravessa e, em particular, a nossa região, a Igreja devia distanciar-se daquele sorvedouro de dinheiros públicos que tanta falta faz noutros domínios mais prementes da população da Madeira.
Acho quase indecente que a Igreja Católica da Madeira faça sombra moral de forma tão pacífica ao que se passava com o JM e o Governo Regional da Madeira. Era preciso demarcar-se e corajosamente assumir que não pactuávamos com um conluio injusto, que violava vários princípios.
Então, tivemos uma Igreja que se entreteve com uma sobrecarga de actividades puramente religiosas e que viveu de mão estendida perante o Governo da Madeira, esperando pelos subsídios para construir novas igrejas, por isso, não lhe ficava muita margem de manobra, restava-lhe o silêncio face ao JM e contentar-se com as migalhas que daí advinham e ficar bem quietinha para que não lhe fossem cortados os «queridinhos» subsídios e o chorudo produto do arrendamento do edifício sede do Jornal da Madeira. É assim, e sempre foi, quem tem o dinheiro manda. Pois bem, a Igreja Católica enredou-se na teia que ajudou a criar.
O JM ofendeu frequentemente muita gente sem que as pessoas a seguir tivessem direito a resposta. Passou-se comigo e com vários amigos meus. Os milhões que este órgão moeu e vai continuar a moer por ano são uma ofensa aos pobres da Madeira. Disto devemos desejar distância. Por isso, com que autoridade a Igreja da Madeira, vai pedindo colaboração aos fiéis para darem dinheiro para ajudar os pobres, quando ao lado legitima uma forma tão gastadora de dinheiros públicos que podiam ser canalizados para a ajuda solidária ou criação de emprego? – Não se compreende e à luz do Evangelho está totalmente inadequado.
Ah, pois, e os trabalhadores? – Dizermos, não tiveram muita culpa… Poucos foram os que não vergaram, foram instrumentalizados e ainda são para justificar a continuação dos chorudos subsídios, porque têm família. É verdade sim senhor… Mas, lamento que o mesmo argumento não tenha servido para tantas outras empresas que foram fechando e tornadas insolventes sem dó nem piedade nenhuma perante os trabalhadores.
Outro argumento. E a pluralidade de informação. Também é verdadeiro e devemos lutar para que exista pluralidade de informação e de comunicação, mas não desta forma nem muito menos que seja uma pluralidade fabricada em duas faces a partir da mesma moeda.
O que constatamos e lamentamos é que na Madeira o princípio evangélico «Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus!» (cf. Mt, 22, 15-22; MC, 12, 13- 17), saiu muito violentado e poucos ou quase ninguém se importou nada com isso.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





