Falta atum e clientes: lota critica sociedade de antigo secretário na IlhaPeixe

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José Pestana denuncia os interesses instalados na comercialização do pescado. Fotos: Rosário Martins

“O atum que se vende agora na lota está ao dobro do preço do ano passado. O pescado é fraco e fica quase todo nas mãos das grandes empresas que o vendem ao preço que querem, IlhaPeixe e Friatum. Um dos antigos secretários regionais deste setor é sócio da IlhaPeixe, mas quem dá a cara é sempre outro. Como é que se pode viver? Para a lota vem o que sobra. O peixe deveria passar todo pela lota e quem quisesse comprar, comprava. Ganhava o pescador, o comerciante e o povo comprava mais barato”.

O retrato é feito ao Funchal Notícias, sem meias palavras, pelo vendedor José Pestana, ao mesmo tempo que aponta para a placa dos preços do atum à posta a ultrapassar os 13 euros/quilo. Hoje, sexta feira, entre as 8 e as 9 horas, dia de tradicional afluência à lota do Mercado dos Lavradores. Mas contam-se pelos dedos os clientes. São mais vendedores a dar movimento ao amplo espaço do que consumidores. Em jeito de ironia, um deles atira: “Isto daqui a pouco enche de turismo. Mas sabe o que eles fazem? Põem-se lá em cima de varanda a ver a gente de braços cruzados e não levam nada. Compram com os olhos”.

Há décadas que estes vendedores levantam-se pela aurora para deixar Câmara de Lobos em direção à lota. Fim de semana era lota lotada na certa. O peixe abundava. As restrições eram menores. José Pestana conta que o problema veio depois com – pede desculpa pelo calão – “os “mamões” que se aproveitam do trabalho do pescador e do vendedor”. Depois vieram os “eucaliptos”. Qual quê? “A menina não sabe o que são os eucaliptos? São os supermercados. Tudo o que anda à volta deles, seca e morre. Na lota também. Vendem por atacado, a baixo preço, arranjam o pescado, como é que se pode fazer frente a essa malta?”

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Um dos conhecidos irmãos Pedro tem atum mas a freguesia tarda em aparecer.

Em época alta do pescado do atum, e com a escassez dele e da freguesia, abundam, em contrapartida, os queixumes dos vendedores. “Um só come tudo, os grandes. O pescador, o vendedor, o consumidor estão tramados. O atum devia passar primeiro pela luta, como antigamente. Quem quisesse vinha cá comprar. Depois, para que só uns ganhassem muito, fizeram leis que, a pretexto da qualidade e da higiene e de outras cantigas, permitem aos grandes levar o peixe para as suas fábricas e o resto vem para aqui.”. Miguel Pestana não tem medo das palavras porque conhece o setor por dentro. Venham pedir-lhe explicações!, refere de forma desabrida. “Isto aqui há muito calhau com lapa. Como se compreende que um secretário regional que já passou pelo governo seja sócio de uma dessas fábricas, quando ele mandava no setor? Depois, claro, aparecem outros sócios a dar a cara e eles lá arranjam forma de se encapotar…”

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O custo do atum à posta escalda. o ano passado estava a metade.

Entretanto, lá aparece um cliente que vai pedindo uns bifes de atum bem aviados. Na banca de um dos históricos irmãos Pedro, Luís Gonçalves, do alto dos seus 65 anos e 55 de lota, lamenta a “safra fraca de atum”. O ano passado foi melhor e o atum vendeu-se ate´novembro. O preço chegou a estar a 7 euros. Nesta banca, atum à posta custa 11,5 euros. O maior problema: “A falta de freguesia. Além disso, vem pouco atum para a lota. As compras são feitas às empresas IlhaPeixe e Friatum.”

Mais adiante, Jalma observa com evidente ironia, o deambular da malta. Vende espada, chicharros, sardinhas… quando aparecem os clientes. “Não há dinheiro. Está tudo dito! As pessoas passam, olham, o coração puxa para comprar, mas falta o dinheirinho no bolso”. Figura bem conhecida da lota, Jalma não está para jogar palavreado fora e vai ao ponto. Tem uma lista de reclamações para tratar, ligeiramente diferentes dos seus colegas. Não quer grupos para chegar a quem de direito. Avisa que vai marcar uma reunião “com o Cafôfo”. Tira o saco da algibeira e com ele sai um monte de papelada com a origem Câmara Municipal do Funchal. No fundo, as depesas que tem que pagar à Câmara Municipal do Funchal e às Finanças para estar ali a vender. Só de banca, paga mais de 140 euros à autarquia. Mas não só: as finanças levam outra parte. A juntar a tudo isto estão as despesas pessoais: transporte de Câmara de Lobos para o Funchal, compra do pescado… “

2015-05-08 08.53.01Ontem, conta Jalma, vendeu 70 e poucos euros de peixe. “Agora junte as despesas e diga-me como se pode ter lucro? Sou reformado, mas o que recebo não dá para a vida. Fui combatente no Ultramar. Mas hoje, ninguém olha para nós, só para quem estuda. Mas a nossa cabeça é um computador. E quem olha pelos que sofrem?”.

O Funchal Notícias sabe que o descontentamento e apreensão grassa junto dos pescadores. A falta de pescado, na chamada época alta do atum, como esta, deixa todos preocupados. Mesmos os pescadores madeirenses que arriscaram a sorte nos Açores têm sido recebidos com mau tempo contínuo, águas geladas e poucas perspetivas de ganhar a vida. É bem verdade que ainda estamos em maio e o pescador habituou-se a ver a sorte mudar nos idos de verão. Mas a inquietação começa a crescer porque ninguém paga contas na farmácia e no supermercado com a esperança.

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A lota é abastecida diariamente com espada preta e ruama.

Da parte das empresas que compram a matéria prima ao pescador para a comercializar, a versão é outra: se não fossem estas, o peixe não teria o escoamento que tem e os armadores poderiam ter sérios prejuízos. Não fazem as leis, mas jogam com o argumento de que trabalham com as regras de qualidade e de certificação inerentes ao setor, o que dá garantias de segurança no consumo do pescado. Antigamente, as coisas processavam-se com mais amadorismo e menor exigência mas as diretivas europeias determinam hoje outros cuidados.

O Funchal Notícias tentou registar as posições das administrações IlhaPeixe e Friatum mas não obtivermos qualquer resposta, uma vez que os responsáveis se encontravam sempre fora das empresas.

Apesar das nuvens cinzentas, o pescador é sempre um homem de fé. No Caniçal, principal ponto de descarga do peixe, a esperança morre sempre por último. Não é a altura de falar, porque a safra está em curso e tudo pode mudar.