Uma conversa sentida

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Pertenço a um grupo alargado de portugueses que acham, preocupados, que, se no próximo dia 4 de Outubro tiverem a desdita de, pela noite, serem forçados pela realidade, eventual mas possível, a reconhecer que uma tal coligação de direita e neoliberal, de designação PAF – leia-se: PSD/CDS – ganhou as eleições legislativas nacionais, então, sem recuo, estão a retomar um penoso caminho de mais uma legislatura que, no essencial, será, por tudo o que se tem visto, ouvido e lido, igual, ou pior, à que ora termina, arrastando consigo um longo cortejo de dramas pessoais, familiares económicos e profissionais cuja amplitude, dimensão, profundidade e consequências já se conhecem e a que a ideologia que lhes está subjacente não permite pôr termo sem que esteja concluído o processo de destruição da relação do Estado com os cidadãos, minando a confiança destes últimos, e garantindo os privilégios dos que, contra a maioria, dela se serve para os fixar, aos privilégios, os consolidar e os manter.

Vem esta breve reflexão a propósito do que tem sido público em matéria de sondagens que, como outras, e sempre, visam, soi disant cientificamente, tentar antecipar aquela que será a vontade dos cidadãos no momento em que forem chamados a manifestá-la nos locais adequados ao efeito. Segundo as ditas, haverá um “empate técnico” entre o PS, o maior partido da oposição, e a coligação referida; dado que a margem de erro, segundo as fichas técnicas respectivas, é percentualmente inferior à diferença entre aquelas duas forças concorrentes, diz quem sabe, que a imprevisibilidade quanto ao vencedor é grande – total – e, portanto, os mesmos que, indecorosa e malvadamente, geriram os nossos destinos ao longo dos últimos quatro anos, podem ser os mesmos que, quais algozes, sejam os escolhidos para, mantendo, ou agravando mesmo a austeridade, infernizarem a nossa existência, ainda, durante outros tantos.

E, partindo do princípio que tal é viável, ao nosso espírito confluem perguntas em catadupa a que se torna quase impossível dar uma resposta racional, inteligente, lógica, plausível.

Que significado poderá assumir uma renovada votação maioritária nessa solução, face à certeza, nada auspiciosa, do que ela nos propiciará neste futuro próximo que gostaríamos fosse o da esperança, o da mobilização, o da harmonia, o do reencontro com nós próprios e com as nossas vidas?

Foi assim, com este sentido e alcance, – as palavras não são, obviamente, as mesmas -, que a questão me foi posta, com natural perplexidade, durante uma conversa, em ambiente familiar, sobre a vida de todos nós e sobre as dependências que a condicionam.

Exercitei, naturalmente, os argumentos que me pareciam mais prudentes e mais sensatos, tentando descortinar as razões de tão insólita escolha. Se uma parte significativa dos portugueses persiste na escolha dessa coligação, em sede de eleições com a importância das que se avizinham, isso só pode corresponder ao reconhecimento e aceitação de tudo o que foi feito até agora; ou seja, uma parte não desprezível dos nossos concidadãos terá gostado da ameaça de ficar sem os subsídios de férias e de Natal – o que só não aconteceu porque o Tribunal Constitucional não permitiu; terá visto com bons olhos os cortes nas pensões e nas reformas; entende como normal o aumento brutal de impostos; considera aceitáveis os cortes salariais na função pública; não se preocupa com os despedimentos que nela ocorreram; compreende as razões aduzidas para desvalorizar e tentar desqualificar o SNS; partilha com o governo a ideia de que a escola pública é para os pobres e a privada, financiada com o dinheiro dos seus impostos, deve ser a privilegiada; vê as taxas de desemprego como uma inevitabilidade face às exigências do desenvolvimento; aplaude a drástica redução dos apoios sociais que, existindo, permitiam mitigar as situações de pobreza e, mesmo, de miséria; colabora na tentativa, cada vez mais séria de, por parte dos mesmos, reduzir as obrigações do Estado com a segurança social a mínimos indecorosos e privatizando-a, como tem sido publicamente defendido; acha, também, inevitável, a revisão dos critérios sobre o subsídio de desemprego que deixa marcas profundas na vida de muitos milhares de famílias no nosso País; sublinha com agrado a sanha privatizadora e, provavelmente, dando-se ares de modernidade, reitera a ideia de que o Estado gere mal e, logo, deve vender; está rendido à ausência de política externa e às atitudes de reverência e subserviência de Portugal face à comunidade das Nações; é-lhe indiferente que as FA’s portuguesas tenham sido arrogantemente mal tratadas e desrespeitadas, e estas, entre outras, devem ser as razões da insistência, da teimosia, de tão perigosa persistência.

Tudo feito em nome de grandes objectivos a cumprir, impostos pela troika, – que eles tanto quiseram a condicionar as nossas existências -, e que, contas feitas, não foram cumpridos salvo no que ao regresso aos mercados diz respeito e, por acaso, pasme-se, graças ao BCE (Banco Central Europeu) e não, como se pretende fazer crer, graças à competência de quem parece não a ter.

A conversa, que não faria sentido aqui reproduzir na totalidade, continuou, mais tempo, no calor de um serão sem tempo vigiado.

À laia de despedida, com incredulidade, alguém perguntou se se acharia que isso podia mesmo, acontecer.

Que se poderia dizer…

Também insondáveis, são os desígnios dos eleitores.

 


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