“O Santo da Serra não é lugar para viver”: declaração sobre golfe acende polémica em Santa Cruz


AF!

A afirmação de Miguel de Sousa de que o Santo da Serra “se calhar nem é lugar para viver” provocou forte reação de Sílvia Sousa Silva, deputada do PS na Assembleia Legislativa Regional da Madeira, que denunciou uma desvalorização dos residentes da freguesia no debate sobre o investimento público no golfe. A troca ocorreu durante uma sessão do “Parlamento na Comunidade”, em Santa Cruz.

O que está em causa

Sílvia Sousa Silva questionou as prioridades do Governo Regional na aplicação de dinheiro público, usando o campo de golfe do Santo da Serra — o mais antigo da Madeira — como exemplo. A deputada sustentou que, apesar do equipamento, a freguesia apresenta despovoamento e envelhecimento populacional, contrariando a ideia de que o golfe é um motor de fixação de jovens e de desenvolvimento local.

Citando os Censos de 2021, a socialista referiu que o Santo da Serra perdeu cerca de 12% da população em duas décadas e tem uma relação muito elevada entre idosos e jovens, com 270 idosos por cada 100 jovens. Para a deputada, estes indicadores mostram que a riqueza anunciada em torno do golfe não se traduziu em benefícios visíveis para a comunidade.

A resposta que gerou controvérsia

Na plateia, Miguel de Sousa — antigo vice-presidente do Governo Regional e empresário ligado ao golfe — rejeitou a crítica, considerando injusto atribuir ao golfe problemas de despovoamento. Segundo o relato publicado pela deputada, lamentou que alguém “que nunca foi Governo, que nunca foi Câmara (…) nunca foi nada” viesse dizer que as culpas são do golfe.

Mas foi a sua observação sobre a localização do campo que despoletou a polémica. Miguel de Sousa terá dito que foi “uma estupidez” construir um campo de golfe no Santo da Serra, acrescentando que o equipamento não serve para sustentar as famílias locais porque a freguesia “se calhar nem é lugar para viver”.

Sílvia Sousa Silva respondeu com ironia: se o Santo da Serra “não presta para viver”, perguntou se os moradores — que aí criaram filhos e viveram durante décadas — também mereceriam “umas casinhas novas, pagas pelo Governo, onde faz mais sol”.

Golfe como produto turístico

A controvérsia insere-se num debate mais amplo sobre o papel do golfe na economia madeirense. Em maio, durante jornadas parlamentares sobre “Golfe e Sustentabilidade”, Miguel de Sousa já tinha defendido que um campo de golfe é “um produto turístico e não tem nada de social”, sustentando que não existe para servir prioritariamente os madeirenses.

Na mesma ocasião, o antigo governante classificou o Santo da Serra, o Palheiro Golfe e o futuro campo da Ponta do Pargo como instalados “no local errado”, por não reunirem, na sua avaliação, as melhores condições naturais para a modalidade.

Governo quer expandir o campo

O Governo Regional mantém o golfe como parte da estratégia de afirmação da Madeira como destino turístico. O presidente do Executivo, Miguel Albuquerque, anunciou a intenção de acrescentar nove buracos ao campo do Santo da Serra, transformando-o num complexo com dois campos de 18 buracos e recorrendo a fundos europeus para o projeto.

O campo, desenhado por Robert Trent Jones Senior e com 27 buracos, é apresentado pelo clube como uma infraestrutura de nível internacional e tem história que remonta a 1937.

A questão política

Para Sílvia Sousa Silva, o debate não é contra o golfe em si, mas contra o uso de dinheiro público num setor que, defende, deveria ser financiado pela iniciativa privada. A deputada propõe que os recursos regionais sejam canalizados para habitação acessível, serviços de proximidade, emprego qualificado e revitalização da agricultura, dos mercados locais e do artesanato.

A polémica deixa, assim, uma pergunta central sobre a mesa: o investimento público no golfe gera desenvolvimento mensurável nas comunidades onde os campos se inserem — emprego, população e comércio — ou é sobretudo uma aposta turística cujos ganhos não chegam aos residentes?


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.