Golfe no Santo da Serra: riqueza anunciada, população em declínio

AF!

A deputada do PS na Assembleia Legislativa da Madeira, Sílvia Sousa Silva, criticou esta semana a aposta do Governo Regional no golfe, sustentando que o Santo da Serra — onde funciona o primeiro campo de golfe da ilha — não recebeu os benefícios económicos e demográficos que o Executivo associa a este tipo de investimento. A intervenção foi feita durante uma sessão do “Parlamento na Comunidade”, em Santa Cruz.

Segundo a deputada, o Governo Regional tem investido “mais de 100 milhões de euros” do erário público no golfe, seja através de gestão direta, seja por via de concessões a privados. Para Sílvia Silva, a questão central não é apenas o montante despendido, mas a ausência de resultados visíveis nas freguesias onde os campos se inserem.

“A verdade é que a riqueza do golfe, anunciada para a população da Ponta do Pargo e do Faial, nunca aconteceu no Santo da Serra”, afirmou a socialista, questionando se o modelo está realmente a fixar jovens e a sustentar o tecido económico local.

Indicadores demográficos em causa

A deputada apoiou a crítica nos Censos 2021, alegando que o Santo da Serra perdeu cerca de 12% da população nas últimas duas décadas e apresenta um forte envelhecimento, com 270 idosos por cada 100 jovens — valor muito acima da média regional. Os dados oficiais confirmam que a Madeira perdeu 6,4% de população entre 2011 e 2021 e que, na Região, existiam 157 idosos por cada 100 jovens em 2021; a DREM identificou ainda o Santo da Serra entre as freguesias com quebras populacionais de dois dígitos.

Para a deputada, estes números contradizem a narrativa de que o golfe funciona como alavanca de desenvolvimento rural. Segundo a sua leitura, a freguesia continua deserta durante a semana, com o comércio em dificuldades, e só ganha dinamismo ao domingo através do mercado, da agricultura e das atividades tradicionais.

Governo defende expansão

A crítica surge num momento em que o Governo Regional mantém o golfe como parte da estratégia de afirmação da Madeira como destino turístico. O presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, anunciou a intenção de aumentar o campo do Santo da Serra com mais nove buracos, o que colocaria a infraestrutura com dois campos de 18 buracos, além de prever o recurso a fundos europeus para o projeto.

O Executivo tem também destacado investimentos tecnológicos no campo, como um sistema de rega que aproveita água da chuva e foi desenvolvido por uma empresa madeirense.

PS exige retorno público

Esta não é a primeira vez que Sílvia Silva questiona a aplicação de fundos públicos em infraestruturas ligadas ao golfe. Em agosto, o grupo parlamentar socialista pediu esclarecimentos sobre uma obra de 2,93 milhões de euros na lagoa do Palheiro Ferreiro, associada ao Palheiro Golfe, exigindo saber qual o benefício efetivo para a população e para a agricultura.

Na sua proposta, a deputada defende que o golfe deve ser financiado pela iniciativa privada e que o dinheiro público deve ser canalizado para habitação acessível, serviços de proximidade, emprego qualificado e revitalização de setores como a agricultura, os mercados locais, o artesanato e outras atividades identitárias da Região.

O debate coloca, assim, uma questão prática ao Governo Regional: até que ponto o investimento no golfe gera desenvolvimento local mensurável — emprego, fixação de população e dinamização do comércio — ou se trata sobretudo de uma aposta turística cujos ganhos não chegam às comunidades circundantes.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.