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Há peças que envelhecem e outras que permanecem atuais porque continuam a falar de nós. “O Inspetor Geral”, de Nikolai Gógol, é uma dessas obras. Escrita no século XIX, esta comédia satírica chega agora ao palco pela mão da OFITE – Oficina de Teatro do Estreito, assinalando simbolicamente os dez anos de atividade da companhia.
Uma década de teatro é muito mais do que uma data no calendário. São ensaios, noites longas, cenários, figurinos, nervos, gargalhadas e aplausos, mas, acima de tudo, a persistência de acreditar que vale a pena subir ao palco. Num tempo em que tantas iniciativas culturais lutam pela sobrevivência, chegar aos dez anos é uma verdadeira declaração de resistência.
Na história de Gógol, uma pequena cidade russa entra em alvoroço perante a notícia da chegada de um inspetor do governo. De repente, aqueles que deveriam zelar pelo bom funcionamento da cidade preocupam-se em esconder erros, disfarçar abusos e aparentar virtudes que não possuem. O medo de serem avaliados revela o que realmente são.
É aqui que uma peça escrita há quase duzentos anos deixa de ser apenas uma comédia russa e se transforma num espelho. Um espelho que podemos colocar diante das instituições, da política, das organizações e, se tivermos coragem, diante de nós próprios.
Afinal, os grandes autores satíricos não desaparecem porque não escrevem apenas sobre o seu tempo. Escrevem sobre aquilo que resiste à passagem dos anos: a tentação de esconder os erros em vez de os corrigir, a confusão entre poder e impunidade e a preocupação com as aparências, tantas vezes superior à vontade de fazer bem.
Também os dez anos da OFITE merecem ser vistos para além da celebração. Uma companhia de teatro não se constrói com discursos sobre cultura, mas com trabalho, compromisso e capacidade de reunir pessoas em torno de uma ideia e transformá-la num espetáculo. Ao longo desta década, a OFITE tem levado atores ao palco e espectadores à plateia, criado encontros e dado vida a histórias, mantendo vivo um dos espaços mais importantes da cultura: o da proximidade entre o teatro e a comunidade.
Num território como o nosso, manter um projeto teatral durante dez anos é também contribuir para a construção de uma memória coletiva. Quando as luzes se apagam, o espetáculo termina, mas alguma coisa fica, desde uma personagem, uma frase, uma gargalhada ou uma emoção. Fica a descoberta de alguém que passou a gostar de teatro, a coragem de quem subiu pela primeira vez ao palco ou o pensamento de um espectador que saiu da sala a olhar o mundo de outra maneira.
É assim que a cultura se constrói. Não apenas através dos grandes acontecimentos, mas também pela persistência de pequenos projetos que, ao longo do tempo, se tornam parte do património de uma comunidade.
A OFITE celebra dez anos de teatro, de palco, de encontros e de histórias com uma peça que nos pergunta quem somos quando sentimos que alguém nos está a avaliar. Porque, de uma maneira ou de outra, todos vivemos à espera de um inspetor. Alguém que julgue o nosso trabalho, as nossas escolhas, as nossas instituições ou a nossa terra.
Talvez seja, por isso, uma boa ocasião para irmos ao teatro. E, enquanto rimos com Gógol, vale a pena olhar de soslaio para nós próprios. Só por precaução. Nunca se sabe se o inspetor já chegou.
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