Portugal antes e depois do CR7
Afinal, toda a gente me diz — e eu não sabia? — que foi o CR7 que pôs Portugal no mapa, que deu a conhecer ao mundo este nosso pequeno país.
Então e D. Afonso Henriques?
O homem fundou o reino, enfrentou a mãe, combateu castelhanos e passou a vida a tentar garantir que Portugal não desaparecia do mapa. Não tinha chuteiras personalizadas, contrato publicitário nem uma estátua no aeroporto. Ainda assim, conseguiu uma proeza razoável: criar um país.
E D. Dinis?
Plantou o pinhal de Leiria, protegeu a agricultura, fundou a Universidade de Coimbra e organizou o reino. Não marcou muitos golos, é certo, mas deixou infraestruturas. Uma espécie de médio defensivo da administração pública, só que com resultados mais duradouros.
Depois veio D. João I, acompanhado por Nuno Álvares Pereira, que derrotou os castelhanos em Aljubarrota. Nuno Álvares Pereira era estratega, comandante e herói nacional. Não consta que tivesse empresário, cláusula de rescisão ou uma marca de perfumes.
D. João II também merece uma palavra. Consolidou o poder, preparou a expansão marítima e percebeu que Portugal podia ser pequeno no território e enorme na ambição. Chamavam-lhe “o Príncipe Perfeito”. Hoje talvez fosse acusado de centralizador, autoritário e pouco dado a entrevistas.
E depois chegaram os navegadores.
Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador em 1434, quando todos acreditavam que para além daquele ponto existiam monstros, abismos e outras ameaças suficientemente assustadoras para justificar uma mudança de carreira. Não havia GPS, VAR, fisioterapeutas nem aviões privados. Havia coragem, medo e barcos de madeira.
Infante D. Henrique organizou o projeto dos Descobrimentos, embora não tenha passado a vida a navegar como muitos imaginam. D. João II preparou as rotas. Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança. Vasco da Gama chegou à Índia. Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil — por acidente, desvio ou estratégia, conforme a versão que mais convier à ocasião.
Fernão de Magalhães iniciou a primeira viagem de circum-navegação. Morreu nas Filipinas, mas a expedição continuou e terminou com Sebastián Elcano. Ainda assim, não se pode dizer que tenha feito uma má época.
E havia ainda Afonso de Albuquerque, que construiu uma poderosa rede de fortalezas no Oriente e ajudou a afirmar a presença portuguesa na Ásia. Não tinha velocidade, resistência nem capacidade de remate, mas sabia conquistar cidades — que é uma forma bastante antiga de marcar território.
Depois veio Camões.
Zarolho, pobre, sem contratos milionários e provavelmente sem saber o que era um patrocínio, escreveu Os Lusíadas, o nosso grande poema épico. Cantou a viagem de Vasco da Gama e a história de Portugal numa obra que continua a ser estudada séculos depois. Ao lado do rapaz da Madeira, dizem alguns, parece quase um desconhecido.
E Fernão Mendes Pinto? Viajou pelo Oriente, viveu aventuras extraordinárias e escreveu a Peregrinação. Passou por guerras, naufrágios, prisões e perigos vários. Não sabemos se tudo aconteceu exatamente como contou, mas pelo menos não precisou de publicar um livro chamado “A Minha Verdade”.
Na ciência, Portugal também não esteve propriamente parado.
Pedro Nunes foi um matemático e cosmógrafo de enorme importância. Garcia de Orta estudou a medicina e a botânica do Oriente. D. João de Castro destacou-se como navegador, cartógrafo e vice-rei da Índia. Egas Moniz recebeu o Nobel da Fisiologia ou Medicina em 1949.
Ricardo Jorge deu um contributo decisivo para a saúde pública. Abel Salazar foi médico, investigador e artista. António Damásio tornou-se uma referência mundial nas neurociências. Não precisaram de levantar uma taça para provar que Portugal também sabia pensar.
Na literatura, tivemos Eça de Queirós, que desmontou a sociedade portuguesa com uma ironia que ainda hoje dói. Tivemos Camilo Castelo Branco, que escreveu amores impossíveis, tragédias e escândalos com uma produtividade que faria qualquer redator moderno pedir baixa médica.
Tivemos Fernando Pessoa, que conseguiu ser vários escritores numa só pessoa. Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares formaram uma verdadeira seleção literária — embora nenhum deles pareça ter grande vocação para o balneário.
Tivemos Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen e Agustina Bessa-Luís. Tivemos José Saramago, que foi serralheiro mecânico, começou a publicar a sério relativamente tarde e ganhou o Nobel da Literatura aos 75 anos. Não precisou de dizer que era o melhor escritor do mundo. Deixou os leitores chegar a essa conclusão.
Na pintura, Paula Rego conquistou reconhecimento internacional com uma obra poderosa e inquietante. Amadeo de Souza-Cardoso levou a modernidade portuguesa para o panorama artístico europeu. Almada Negreiros foi pintor, escritor, desenhador e uma das grandes figuras do modernismo português.
Columbano Bordalo Pinheiro retratou a sociedade do seu tempo. Rafael Bordalo Pinheiro criou o Zé Povinho, personagem que continua a olhar para a política portuguesa com a mesma expressão de quem acabou de receber a conta da luz.
Coitados, todos eles, ao lado do CR7.
Na arquitetura, Raul Lino valorizou a identidade portuguesa. Fernando Távora foi um dos fundadores da chamada Escola do Porto. Siza Vieira ganhou o Prémio Pritzker em 1992. Eduardo Souto de Moura recebeu-o em 2011.
Dois portugueses fizeram o mundo olhar para Portugal através das linhas, da luz, dos espaços e dos materiais. Não tiveram de gritar “Siuuu!”, embora algumas das suas obras provoquem mais admiração do que muitos golos.
Na música, tivemos Carlos Seixas, um compositor brilhante do século XVIII. Tivemos Vianna da Motta, grande pianista e compositor. Tivemos Amália Rodrigues, que levou o fado aos grandes palcos internacionais e fez o mundo inteiro ouvir a saudade em português.
Tivemos Carlos Paredes, que transformou a guitarra portuguesa num instrumento universal. Tivemos José Afonso, que cantou contra a ditadura e cuja voz ficou ligada à Revolução de Abril. Tivemos Maria João Pires, que percorreu as maiores salas de concerto do mundo sem precisar de marcar um único golo.
E tivemos Aristides de Sousa Mendes, que salvou milhares de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial, desobedecendo a ordens injustas e arriscando a própria vida. Não ganhou uma Bola de Ouro, mas ganhou algo talvez mais difícil: a dignidade de fazer o que estava certo quando era mais seguro fazer o contrário.
Tivemos Humberto Delgado, que enfrentou a ditadura. Tivemos Salgueiro Maia, que entrou em Lisboa no dia 25 de Abril com coragem, serenidade e uma coluna de blindados. Não consta que tenha celebrado a vitória com uma dança coreografada.
Tivemos Amílcar Cabral, pensador e líder anticolonial, uma das figuras políticas mais importantes do século XX. Tivemos Maria de Lourdes Pintasilgo, engenheira, política e primeira mulher a chefiar um governo em Portugal. Tivemos Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher a votar em Portugal. E tivemos tantas outras mulheres e homens que ajudaram a transformar o país, muitas vezes sem receberem o reconhecimento que mereciam.
No cinema, Manoel de Oliveira filmou durante décadas e recebeu a Palma de Ouro honorária em Cannes, em 2008. Paulo Rocha, João César Monteiro, Fernando Lopes, Teresa Villaverde e António-Pedro Vasconcelos também deixaram marcas importantes na cinematografia portuguesa.
No desporto, antes do CR7, tivemos Eusébio, que foi muito mais do que um jogador: foi um símbolo nacional e uma das maiores figuras do futebol mundial. Tivemos Rosa Mota, campeã olímpica e mundial. Carlos Lopes, campeão olímpico. Fernanda Ribeiro, campeã olímpica. Joaquim Agostinho, uma lenda do ciclismo. Telma Monteiro, Nelson Évora e tantos outros atletas que levaram a bandeira portuguesa ao pódio quando ainda não havia milhões de seguidores para os acompanhar.
Mas, sim, foi o CR7 que pôs Portugal no mapa.
Antes dele, Portugal já tinha fundado um reino, atravessado oceanos, dobrado cabos, chegado à Índia, descoberto o Brasil, escrito poemas épicos, revolucionado a ciência, criado música, pintado obras reconhecidas no mundo inteiro, transformado a arquitetura, enfrentado ditaduras e produzido atletas extraordinários.
O CR7 tornou Portugal mais visível, sem dúvida. E merece o seu lugar na história.
Mas convém não confundir visibilidade com origem.
Portugal já estava no mapa há muito tempo.
Só que os outros portugueses não tinham chuteiras douradas, milhões de seguidores, uma marca de roupa interior nem uma celebração acabada em “Siuuu!”.
E, sobretudo, muitos deles fizeram história sem sequer saber jogar à bola.
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