João Soares defende uma “melhor distribuição de riqueza” na RAM

João Soares considerou hoje que, apesar dos indicadores económicos, há um problema de distribuição de riqueza na Região, situação que urge corrigir. O histórico socialista, que foi um dos oradores convidados da iniciativa ‘Conversas de Abril: 50 Anos de Autonomia’, promovida pela concelhia do Funchal do Partido Socialista, adiantou que houve uma mudança muito positiva com a criação do quadro da Autonomia regional, apontando que o PIB atinge um valor elevado, mas “há um problema de distribuição de riqueza, para acabar com as manchas de pobreza muito sérias que existem, inclusivamente na zona do Funchal”.

O ex-deputado do PS à Assembleia da República e antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa adiantou que há dificuldades muito sérias que têm a ver com a pobreza, com as questões sociais e com a droga, alertando que estes problemas têm de ser enfrentados, porque há meios para tal.

“O que tem faltado muitas vezes nos plano nacional, local e regional é vontade política de resolver os problemas e dos enfrentar”, disse, à margem do debate moderado pela presidente da estrutura concelhia, Isabel Garcês. João Soares afirmou que os meios não têm faltado, sobretudo desde a adesão à União Europeia, mas expressou a sua preocupação sobre se iremos “usar bem, como devemos, os recursos do PRR”, os quais, no seu entender, nalguns casos estão mal distribuídos.

Por outro lado, o orador referiu-se também ao centralismo que ainda se verifica ao nível do País, apesar de já se terem passado 50 anos desde a consagração das Autonomias.

João Soares enalteceu ainda o sentido reivindicativo dos madeirenses, lembrando a Revolta da Madeira de 1931, que o Governo Regional desvalorizou. Como afirmou, esta foi a maior revolta contra a ditadura em Portugal. “Nos 48 anos de ditadura, houve muitas revoltas, mas nenhuma durou tanto tempo como a da Madeira, que foi de 4 de abril a 2 de maio de 1931”, disse, acrescentando que, hoje, as revoltas que se impõem são diferentes.

O socialista aproveitou ainda para manifestar a sua preocupação em relação à situação “profundamente complicada” que se vive no plano internacional, criticando fortemente a invasão da Ucrânia e a guerra no Médio Oriente, que considerou “absolutamente inaceitável”.

Autonomia é “marca do PS” e não está esgotada

Duarte Caldeira, histórico socialista e um dos fundadores do PS-Madeira, foi outro dos oradores convidados, dizendo que a Autonomia foi uma marca do PS, que o PSD tentou absorver. O actual presidente honorário do PS-M lembrou que, quando surgiram os primeiros projectos para a Constituição, o PS foi o único que apresentou um projecto dedicado à Autonomia, sendo que o PSD regional “nada tinha de autonomista”.

O antigo deputado e líder parlamentar socialista referiu que, com o processo autonómico, houve uma “transferência de poderes de São Bento para a Quinta Vigia”, sendo que muitos poderes não chegaram ao povo. “Não houve descentralização, nomeadamente com as câmaras e as juntas de freguesia. Houve uma opressão por parte do partido da maioria”, acusou.

Duarte Caldeira realçou que a Autonomia é um processo que está sempre em marcha e que a mesma não está esgotada, havendo ainda “muita coisa que a própria legislação permite fazer”. A título de exemplo, apontou que a Zona Franca poderia ser estendida a toda a Região e reforçou a necessidade de dar mais autonomia às câmaras e às juntas de freguesia, “para não acontecer o que acontece atualmente e aconteceu no passado, de serem apoiadas apenas as câmaras e as juntas de freguesia ligadas ao partido da maioria”. “Se houver regras definidas, todos vão comer por igual. É preciso descentralizar, não ganhar autonomia para centralizar, mas para continuar a descentralização em relação ao todo nacional”, sublinhou.

Célia Pessegueiro defende descentralização na Madeira

Por seu turno, nesta altura em que se assinalam os 50 anos da Autonomia e os 52 anos do 25 de Abril de 1974, a presidente do PS-Madeira apontou a necessidade de promover, de facto, uma descentralização de poderes para o poder local na Região e de garantir o respeito pela liberdade e pelo pluralismo, “para que se ouçam lá fora opiniões diferentes e para que se faça política séria, falando verdade e havendo oportunidade para um escrutínio sério de tudo aquilo que se diz”.

Célia Pessegueiro aproveitou também para endereçar críticas àquela que tem sido a postura do Governo Regional no tocante à mobilidade, lamentando que, para o presidente do Governo, a prioridade sejam os turistas, e não os madeirenses. Como salientou, foi o PS, por via da sua actuação na Assembleia da República, que travou medidas que seriam lesivas dos interesses dos madeirenses.

A líder socialista realçou ainda o carácter revolucionário e reivindicativo que os madeirenses tiveram, lamentando o tenham vindo a perder devido a “um controlo, um esmagamento e um silenciamento” que foi sendo feito pelo partido no poder à sociedade civil.

Célia Pessegueiro evidenciou também o papel do PS na consagração das Autonomias, no âmbito da Constituição de 1976, e no processo que conduziu às primeiras eleições regionais livres e às eleições autárquicas.

Disse ainda esperar que estes 50 Anos da Autonomia sejam o ponto de partida para uma reflexão e para a “volta” que é necessária para mudar a Região.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.