
Nelson Veríssimo
A freguesia da Ilha, do concelho de Santana, foi instituída pelo Decreto Legislativo Regional n.º 11/89/M, publicado no Diário da República de 15 de abril de 1989. Foram então definidos os seguintes limites: a norte – Ribeira de São Jorge até à foz da Ribeira da Furna; a nascente – limite oeste da freguesia de Santana entre a foz da Ribeira da Furna e a Achada do Teixeira; a sul – limite sul da freguesia de São Jorge até ao marco de concelho, confluência dos concelhos de São Vicente, Santana e Câmara de Lobos; a poente – Ribeira Grande e inflexão da sua nascente para o marco de confluência dos três concelhos já mencionados.

O topónimo deriva da utilização, em sentido figurado, do substantivo ‘Ilha’ para designar um território delimitado por ribeiras. Está documentado desde os finais do século XVII, como lugar de São Jorge. Com propriedade, Fulgêncio de Andrade (1889-1970), que foi vigário dessa freguesia, escreveu: «Tem-se realmente a impressão de se estar numa Ilha separada pelas ravinas abruptas das duas caudalosas ribeiras que, no inverno, nas horas de cheia, separam aquela população do resto do mundo…» (Jornal da Madeira, 19-11-1961).
Por meados do século XVI, estas terras integravam o morgadio instituído por Jorge Pinto. A extração de madeiras, criação de gado, cultivo de cereais, hortícolas, frutícolas e vinha possibilitaram a sobrevivência dos moradores desta localidade, ao longo de séculos. A cultura da batata (semilha) foi introduzida no início do século XIX e a da cana-de-açúcar ocorreu também na mesma centúria, junto ao leito das ribeiras. Em 1847, o morgado Laureano Francisco da Câmara Falcão (1804-1868) trouxe sementes, alfaias agrícolas e lavradores da ilha de São Miguel, do arquipélago dos Açores, para ensinarem o cultivo do milho no morgadio da Ilha. A complementar a economia doméstica, é de salientar a cultura do linho e a tecelagem.

Em 1 de janeiro de 1961, a paróquia da Ilha iniciou a sua atividade. Foi criada pelo Decreto sobre a atualização das paróquias, de 24 de novembro de 1960, do bispo D. Frei David de Sousa.
A paróquia tem como padroeira Nossa Senhora do Rosário, por ali ter existido uma ermida com a mesma invocação, fundada pelo padre Matias Jorge Jardim, nos finais do século XVIII. Estava já aberta ao culto em 1793, pois, no termo de óbito de Manuel Marques Teixeira, datado de 22 de março desse ano, foi averbada a sua derradeira vontade de que rezassem, pela sua alma, duas missas no altar da ermida de Nossa Senhora do Rosário. Nos dias de hoje, o ‘Sítio da Ermida’ é memória toponímica da antiga capela, da qual sobrou a escultura da padroeira, guardada durante muitos anos na Igreja de São Jorge e transferida em procissão para a nova igreja, onde atualmente se encontra.

A igreja da Ilha foi solenemente inaugurada e sagrada no dia 7 de junho de 1964, com a presença de diversas autoridades, políticos e grande afluência de povo de toda a Madeira. A Ilha tinha então 720 paroquianos. Era a primeira igreja das novas paróquias, instituídas por D. David de Sousa. A construção deste templo deveu-se ao empenho do então vigário de São Jorge, padre Francisco Geraldo de Sousa (1928-2002), aos doadores de 1000 m2 de terreno, Francisco Augusto Marques, Augusto Marques da Trindade e Manuel Marques da Trindade, ex-presidente da Câmara Municipal de Santana, ao trabalho voluntário dos paroquianos, que foram à serra buscar madeiras e à foz da ribeira carregar areia e cascalho, e à generosidade de sacerdotes e emigrantes que muito contribuíram para a sua edificação.
O terreno onde foi ereto o novo templo bem com a primeira pedra foram benzidos em 19 de novembro de 1961. Nem três anos tinham passado, já a Igreja da Ilha estava concluída, apesar de ser difícil transportar materiais de construção para o sítio do Granel. O automóvel apenas chegava à Banda do Sol. Daqui para o Granel, a subida fazia-se a pé. Há quem ainda se recorde das dificuldades no transporte da pedra única da mesa do altar em mármore, com 1340 kg.

A pavimentação e correção da Estrada Municipal da Ilha, no troço compreendido entre os sítios da Ermida e do Granel, foi inaugurada em 2 de dezembro de 1985. Era, para a população, um anseio com mais de dez anos. Em 1979, tinha chegado a energia elétrica e, em 26 de novembro de 1982, um Centro de Saúde. Quebrava-se, progressivamente, o isolamento da Ilha.
Entre julho e novembro de 1934, o sítio da Moitadinha da Achada do Marques foi amplamente citado na imprensa e recebeu numerosos visitantes. Duas meninas, Maria Gomes e Maria da Conceição, com 9 e 11 anos, respetivamente, afirmaram ter visto a Virgem Maria, sendo a primeira vez em 12 de julho.
O periódico ‘O Jornal’, afeto à diocese do Funchal, em 27 de julho de 1934, preveniu os católicos madeirenses «que não lhes é lícito prestar fé a tais aparições sem que a autoridade da Igreja se pronuncie a esse respeito.» Contudo, a curiosidade popular e o fanatismo religioso conduziam à Achada do Marques numerosas pessoas em cada dia 13.

Para 13 de novembro, foi anunciado um milagre que provaria a presença da Virgem Maria a todos os que ali se deslocassem: uma nuvem vermelha passaria sobre a cabeça dos peregrinos. Milhares de crentes e curiosos, por terra e por mar, deslocaram-se àquele remoto lugarejo do concelho de Santana. Minha avó, com 59 anos de idade, e meu pai, com 19, estiveram lá. Nada de sobrenatural viram, nada aconteceu! Na primeira página do ‘Diário de Notícias’ do dia seguinte, podia ler-se: «Em Santana estiveram ontem cerca de 50 000 pessoas na Achada do Marques, mas nenhum milagre se operou.» Sugestionadas pelas visões de Lúcia, Jacinta e Francisco na Cova da Iria, as meninas de Santana caíram no descrédito. Uma morreu no puerpério, com 25 anos, a outra emigrou para o Brasil.
Na edição de 17 de novembro de 1934, ’O Jornal’ critica severamente o que denomina «caso de Santana»:
«Devemos duma boa vez para sempre declarar categoricamente que se trata dum puro e grosso engano, embora porventura inconsciente das supostas videntes.
Nem a religião, nem a piedade, nem a devoção a Maria Santíssima têm nada que ver com tais processos de propaganda que poderiam ter começado de boa-fé, mas que agora se vão convertendo numa grosseira especulação.»
José Agostinho de Freitas, vigário de São Jorge por essa altura, afirmou que «o assunto não passou de um caso de histeria das crianças envolvidas. Talvez sugestão inspirada no caso de Fátima. E logo a situação foi aproveitada por determinado indivíduo com olhos abertos para o negócio. Alimentava a ideia aos fanáticos e guardava ele os presentes levados pelos peregrinos de toda a ilha.» (Diário de Notícias, Funchal, 28-03-1986).
Hoje a Achada do Marques é um sítio do Parque Natural da Madeira, classificado como área de Paisagem Protegida e conhecido pela beleza da Natureza, vivências tradicionais e a cultura de limoeiros. A propósito, refira-se que a Casa do Povo local realiza anualmente a Exposição Regional do Limão, em abril, evento assinalado do calendário festivo da Ilha, no qual também constam o ‘Dia do Emigrante’ e a ‘Semana Cultural’.
Cerca de dois terços do território desta freguesia estão cobertos pela Floresta Laurissilva, classificada como património natural pela UNESCO, que domina sobretudo as áreas mais altas e declivosas.
Nos ‘Censos de 2021’, a Ilha apresentava 189 habitantes, isto é 39,4% do número de residentes em 1991. Nos últimos 10 anos, esta freguesia perdeu 25,9% da sua população, constituindo a segunda maior quebra da Madeira. Pelo Recenseamento Eleitoral de 15-06-2025, estavam inscritos 205 eleitores, todos cidadãos nacionais.
Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de verde, uma roca e fuso de prata, passados em aspa, ladeados de duas espigas de trigo de ouro postas em pala; em chefe, uma coroa mariana de ouro. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco com a legenda a negro, em maiúsculas: “ILHA – SANTANA”. (Diário da República, n.º 125, 3.ª Série, Parte A, 30-05-1995).

A representação heráldica alude à devoção mariana, em particular Nossa Senhora do Rosário, à cultura do trigo e à tecelagem.
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