Findou 2025! Começou 2026! Recomeçar é próprio da experiência de transição entre anos. O calendário, o relógio e a medição do tempo são invenções úteis que permitem datar para falar, na área da História, mas também na da Linguística. A marcação do tempo não é igual para todas as civilizações e sabemos que há diferentes calendários. No entanto, a ideia de passado/ presente/ futuro parece ser tão comum como a de “manhã”/ “tarde”/ “noite”, embora possa haver variações. Por exemplo, em português, acontece com “madrugada”, se bem que os verbos “amanhecer”/ “entardecer”/ “anoitecer” retomem a divisão em três partes, num dia com 24 horas. Isto é do plano da cronologia e não propriamente do tempo linguístico ou do gramatical, em que os tempos verbais são os elementos a considerar. Contudo, o verbo “madrugar” aponta para a intervenção humana porque são as pessoas que madrugam, mas não são elas quem “amanhece”, “entardece” ou “anoitece”. Portanto, pensar o tempo é concentrar a atenção linguística em palavras às quais, por norma, não se costuma dar grande relevo e ao modo como, linguisticamente, funcionam.
As formulações “hoje”, “hoje em dia”, “nos dias de hoje”, “há dias”, e poder-se-ia continuar com os elementos temporais, advérbios ou locuções adverbiais, que marcam, linguisticamente, as referências ao chamado “tempo cronológico” e que, por exemplo, respondem à pergunta iniciada com o interrogativo “Quando?”, remetem para momentos no eixo temporal. Na enunciação, o deíctico “agora” assinala o momento da fala e, a partir dele, situam-se todos os outros momentos discursivos (“há instantes”, “ontem”, “anteontem”, “logo”, “mais logo”, “depois”, “amanhã”, “depois de amanhã”, “daqui a uma semana”, etc.). Esta última expressão combina “de” + “aqui” – marcação de lugar – com uma indicação temporal – “uma semana” – e faz pensar em “neste espaço de tempo”, que é uma sequência considerada inapropriada porque, curiosamente, funde o espaço e o tempo, duas dimensões que nada têm a ver uma com a outra, embora o tempo e o lugar se cruzem constantemente, já que o ser humano ocupa o espaço num determinado tempo ou vice-versa. Pensando um pouco, “lugar” e “espaço” não são sinónimos, apesar de se usarem como tal. Relativamente às duas dimensões circunstanciais (a espacial e a temporal), não será por acaso que, nas notícias, o primeiro parágrafo – chamado “lead” – responde às perguntas fundamentais: Quem? O quê? Quando? Onde? No fundo, o espaço e o tempo identificam as circunstâncias do ser humano. Serão como duas faces de uma mesma moeda e, embora se possam distinguir, parecem indissociáveis.
Vem isto a propósito de “aquintrodia”, que vai tendo a classificação de “palavra” e de “regionalismo madeirense”. Segundo J. M. Soares de Barcelos no DICIONÁRIO DE FALARES DO ARQUIPÉLAGO DA MADEIRA, DRC, Funchal 2014, será “acontrodia exp. há pouco tempo (corrupt. de aqui há outro dia): — Acontrodia passei por ele e nã o conheci! Var.: aquintrodia, aquemtrodia. AMS regista a forma acontordeia: Acontordeia, de tardichinha (de tardinha), apanhei-o a despejar-me o poço.50 [Nota de rodapé 50: António Marques da Silva — Linguagem Popular da Madeira.]”. Para Abel Marques Caldeira em FALARES DA ILHA: DICIONÁRIO DA LINGUAGEM POPULAR MADEIRENSE, EEF, Funchal, 1993, será “Aqui untro dia, O mesmo que há tempos” e, apenas para citar mais um vocabulário madeirense, observa-se que não ocorre no levantamento do P.e Fernando Augusto da Silva, publicado como VOCABULÁRIO MADEIRENSE, Junta Geral do Funchal, Funchal, 1950. A questão que me interessa é saber se é uma palavra ou se corresponde a mais do que uma. Antes de qualquer outro assunto, quando se fala em “palavra”, isso a que corresponde? Entre outras possibilidades, uma “palavra” corresponde, no plano da escrita, a uma “mancha gráfica”. Por isso, ao escrevermos textos, podemos contar as palavras. Ora, se há ponto em que concorde com Soares de Barcelos, é este, já que, na origem, e como o atesta Marques Caldeira, é uma expressão (“exp.”), ou seja, duas ou mais palavras. O problema parece estar no tentar passar para o registo escrito formas de falar, articulações voláteis, divergentes-convergentes. Por isso, não há consenso para a grafia. São, assim, apresentadas várias formas, que é o mesmo que dizer “variantes” (“var.”), que fundem o que resultou das várias palavras que compunham a expressão. Como as realizações fonéticas individuais divergem, apesar de o elemento linguístico ser, à partida, o mesmo, têm todas de convergir para a mesma unidade linguística.
Do meu ponto de vista, a expressão, se equivale semanticamente a “há pouco tempo”, sendo uma corruptela (“corrupt.”), não remete para “aqui há outro dia”. Corresponde, quanto a mim, a “aqui no outro dia” (fórmula temporal com referência espacial). Parece-me que não é o verbo “haver” que figura na expressão. Julgo que está a preposição “em” + o artigo definido (“no”), o que justifica a nasalidade audível nas pronúncias individuais que são facultadas como variantes, na definição citada supra. Há, no entanto, algumas expressões ou locuções adverbiais em português com “haver”. Inscrevem-se no conjunto de expressões adverbiais como “aqui há dias”, “aqui há meses”, “aqui atrás” (cf. Marques Caldeira: “aqui atrasado”). Por conseguinte, e para responder à pergunta colocada, o dito “regionalismo madeirense «aquintrodia»” não é uma palavra porque é uma expressão, mesmo se foi adulterada e é uma corruptela. É o que explica as muitas variantes que se vão ouvindo. Uma (a que se coloca no título deste texto) pode tender a predominar, mas, para o comprovar, seriam necessários estudos quantitativos, a fim de atestar a frequência dos usos linguísticos. Apesar de tudo, e em suma, uma coisa é o modo como articulamos as palavras (o que remete para a Fonética); outra é como as escrevemos (o que reenvia para a Ortografia). Neste caso, “aqui no outro dia” faz confluir a referência espacial (“aqui em” – o lugar em que está quem fala, no momento da enunciação), com a temporal (“o outro dia” – assinala um tempo pouco preciso, anterior ao momento da enunciação, e não se sabe, concretamente, em que dia foi, embora se saiba que foi, cronologicamente, um passado relativamente recente, isto é, há alguns dias, e não muitos. Na expressão, o que me parece ser especificamente madeirense é combinar “aqui” e “no outro”. Isto faz-me pensar que a preposição “em”, que, na essência, marca o lugar, também assinala o tempo, o que parece estar a desaparecer em português, nos usos quotidianos, que sublinham a variação linguística. Ouvem-se e lêem-se casos como “Este ano, vou recomeçar, mudando de vida.” em vez de “Neste ano, vou recomeçar, mudando de vida.”, sendo a diferença entre ambos a preposição “em”. Isto dá que pensar, não dá? Fico, agora, por aqui, mas voltarei. Como se costuma dizer: Ano novo, vida nova!
Nota: Maria Helena Rebelo, Directora do Mestrado em Estudos Regionais e Locais, na UMa.
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