Brasão único é motivo de interesse na fortaleza de São Lourenço

Rui Marote

A Fortaleza de São Lourenço, no Funchal, para além dos seus aspectos mais conhecidos, tem alguns pormenores interessantes, que a maior parte da população desconhece.

Foi a 4 de Junho de 1993 que um brasão voltou ao seu lugar, no velho baluarte de São Lourenço, levantado por volta de 1610-12, outrora denominado “Baluarte do Castanheiro”, devido a uma árvore dessa espécie ali existente no séc. XIX, o qual foi amputado em 1915, aquando  da abertura da Avenida Arriaga. O baluarte foi cortado entre 1915 e 1916 para ampliação do então Passeio Público, hoje Avenida Arriaga, único melhoramento executado do mítico plano de Ventura Terra, de 1915, encomendado pelo visconde da Ribeira Brava, assassinado anos depois.

O baluarte é encimado por uma guarita recentemente recuperada. E nessa guarita há um brasão. A maioria dos que circulam na placa central desconhece o seu interesse histórico. Passa-lhes despercebida a jóia única que é este brasão que encimava o velho baluarte de São Lourenço, que deu o seu nome a toda a Fortaleza. Um brasão de armas inédito.

Está envolvido em polémica, por apresentar as Armas Nacionais sobre o colar da ordem do Tosão de Ouro e a coroa dita imperial, geralmente usada por Carlos V e pelo seu filho Filipe II de Castela, o que não se conhece em Portugal, pois os Filipes utilizaram sempre as armas nacionais portuguesas nas obras que fizeram no nosso país.

Dada a sua antiguidade, apresenta o brasão propriamente dito em cantaria do Porto Santo, em princípio recolocado sobre o conjunto de cantaria rija regional, o que tornou o seu manuseamento delicado para dizer perigoso. Todo o suporte é inteiro, ou seja, a coroa não é separável do escudo, o que geralmente acontece. Pesa entre 600 a 800 kg.

É também, na opinião de alguns, a coroa imperial dos Habsburgos, exemplo que só se encontra no Sultanato de Oman, numa boca-de-fogo fundida, muito provavelmente  em Goa, por volta de 1582. As armas foram esculpidas sobre uma mó de moinho adquirida em 1612 pelo mestre de obras reais Jerónimo Jorge (c. 1560-1618).

Recolocá-lo no seu lugar de origem levou dois meses e apresentou problemas, pois as paredes não ofereciam segurança a 10 metros acima do solo. O trabalho foi coordenado pelo sargento-mor José Lemos Silva.

As armas de Portugal, usadas então pelos Braganças, em cantaria do Porto Santo, assentam sobre as de Castela, mantendo-se o envolvimento pelo colar do Tosão de Ouro e encimadas pela coroa imperial de Castela. Acontece que os Filipes nunca usaram em Portugal as suas armas de Castela, mas sim as de Portugal, plenas, como reis de Portugal que então eram, pelo que teria sido um exemplar único e totalmente fora do costume da época.

A justaposição das armas de Portugal ao conjunto, por certo efectuada por 1640 ou 1641, ainda torna o brasão mais inédito. A nossa história está portanto “pendurada” numa parede, desconhecida, sem qualquer divulgação para o povo desta Ilha e turistas que nos visitam. Não existe, para que os visitam o palácio, um panfleto, um catálogo chamando a atenção para esta “jóia” esquecida.

Agradecemos todos estes esclarecimentos ao coronel Rui Carita, que nos ajudou na elaboração deste texto. Um bem-haja.


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