Árvore abatida na igreja de Nossa Senhora do Rosário permanece há semanas no local

Rui Marote

Os restos lenhosos de uma árvore abatida junto à igreja de Nossa Senhora do Rosário, em São Martinho – uma canforeira – permanecem no local já muitos dias depois de a mesma ter sido abatida. O abate não agradou a todos e gerou alguma polémica e contestação nas redes sociais. Tanto que, pela mesma via, o cónego Manuel Martins resolveu responder, a 9 de Agosto, considerando as acusações “falsas e injustas” e afirmando que o abate não aconteceu por capricho, mas porque a árvore apresentava “perigo real de queda”.

A árvore, alegou o cónego, na sua página na rede social Facebook, estava gravemente doente e em risco real de queda, colocando em perigo os alunos e docentes da EB1 de São Martinho e os transeuntes, e “ainda o património edificado como a igreja do Rosário e a própria escola”.

Assim, o abate da árvore foi autorizado pelo IFCN-Instituto das Florestas e Conservação da Natureza da Madeira, após “parecer técnico fundamentado”.

A questão que o FN aborda neste artigo não é sequer a legitimidade ou não do abate da árvore, mas o facto de, passados todos estes dias sobre o referido abate, ainda não terem sido retirados os “restos mortais” da canforeira.

Nesta altura de forte calor, não se compreende como resíduos que facilmente podem ser postos em ignição caso alguém atire uma beata de cigarro ou um fósforo, permanecem junto à igreja velha de São Martinho, ameaçando portanto o património, já não com a sua potencial queda, mas como eventual propagador de incêndio. Com as temperaturas climatéricas muito quentes e se o material persistir no local, torna-se o mesmo propício a um “magusto” antecipado à festa de São Martinho.

Fica aqui portanto este alerta.

Os terrenos da freguesia de São Martinho foram separados dos da freguesia de São Pedro em finais do século XVI, aquando da segunda instalação dessa última freguesia. Aqui funcionava uma pequena capela construída por um tal Afonso Anes, em homenagem a São Martinho.

A igreja foi sucessivamente ampliada e foi quase reconstruída de raiz em 1735. No final do século XIX levantou-se um grande templo, cuja primeira pedra foi lançada a 8 de Julho de 1883, mas os trabalhos só arrancariam no século XX, o que fez com que a Igreja tivesse apenas a sua sagração a 24 de Junho de 1918. A partir de 1940, com a transferência do cemitério central da área das Angústias para os terrenos anexos à velha igreja, esta passou a capela funerária.

A 12 de Dezembro de 2018 o nosso colaborador, o historiador Nelson Veríssimo,  num artigo de opinião intitulado “Descanso”, referia-se a uma lenda que originou a mudança desta Velha Igreja de São Martinho para Igreja do Rosário. Do artigo reproduzimos uns parágrafos: “Em frente da Igreja Velha de São Martinho havia um descanso num muro ocre, de superfície rugosa. Aqui aconteceu uma cena miraculosa, segundo minha tia Matilde (a Matildinha), que nasceu e, por muitos anos, morou neste sítio. Contou-me que dois carregadores, que levavam para o Estreito, uma caixa de madeira com uma escultura de Nossa Senhora, pousaram, ao fim da tarde, o volume no descanso e dirigiram-se, de imediato, para a taberna.

Quando pretenderam retomar o percurso, a caixa pesava tanto que nenhum conseguiu levantá-la. Decidiram então ali pernoitar, mas logo um se lembrou de tentar colocar a carga em segurança, no interior da Igreja de São Martinho. Com este propósito, deitaram mãos à caixa e, para sua surpresa, conseguiram com facilidade deslocá-la, pois tinha o peso normal.

 

No outro dia, aprontaram-se, bem cedo, para se porem a caminho. Mas, quando um deles experimentou colocar a caixa sobre os ombros, não conseguiu levantá-la, devido ao peso excessivo. Várias tentativas foram feitas, mas sempre sem sucesso. A caixa parecia grudada no pavimento da Igreja. Interpretando esta situação como sinal divino anunciador de que a escultura de Maria pretendia ficar naquele templo, logo os dois homens deixaram ali a encomenda que transportavam, tendo um deles dito, com satisfação, que a falta de força, no dia anterior, para transportar caixa tão pesada, não fora dos muitos copos de vinho que havia tomado. Convicto, afirmava que o ocorrido tinha a mão de Deus (…)”.

“Verificou-se depois que, no interior da caixa, estava uma estátua de roca, daquelas que são vestidas com trajes de tecido, para serem colocadas nos altares ou saírem nas procissões, de modo que a carga era leve”.

 


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