Entrevista FN: Padre Manuel Ornelas renova Paróquia do Socorro e assegura “Cristo continua a mover multidões!”

Pároco Manuel Ornelas.

A entrada do Padre Manuel Ornelas como pároco de Santa Maria Maior mudou a história pastoral desta comunidade. O sacerdote confrontou-se com o oceano da Barreirinha diante dos seus olhos mas também com um oceano de problemas na paróquia a clamar por soluções. Meteu mãos à obra, envolveu a comunidade, fez do Evangelho a bússola da sua praxis e de toda a espiritualidade e, passado quase um ano, é caso para dizer que a paróquia está insuflada de novo e ardente vigor espiritual. Abriu ao culto a esquecida e fechada Capela do Corpo Santo, celebrou o padroeiro da cidade São Tiago Menor com novenário e, neste fim de semana, de 3 a 5 de agosto, será dado mais um passo inédito, a celebração da padroeira da paróquia, Santa Maria Maior e de São Pedro Gonçalves Telmo /patrono da Capela do Corpo Santo e dos pescadores). Por ocasião desta nova festa, o FN solicitou uma entrevista ao padre Manuel Ornelas, um ponto de partida para uma viagem pelas questões centrais da comunidade paroquial e dos grandes temas que também desafiam a Igreja no século XXI.

Funchal Notícias: nos tempos de hoje, como define a missão de um sacerdote/pároco?

Padre Manuel Ornelas: O nosso mundo tonou-se uma aldeia global. Ser sacerdote/pároco, especificamente em Santa Maria Maior,  é ser pároco dessa aldeia global. É fantástico. Acresce o facto de que hoje, nós, padres, não temos mãos a medir, não temos tempo e as exigências são muitas. Noto que o padre é o sinal de Deus no meio do seu povo.

FN: Está a completar um ano à frente da Paróquia de Santa Maria Maior. Qual o balanço? É pública a dinâmica renovadora e ativa que imprimiu a esta comunidade. Qual tem sido o objetivo e a recetividade?

Padre Manuel Ornelas: Sim. Quase um ano. Nunca esquecerei a maneira como foi preparada a minha receção. Como estou grato por isso. Logo no primeiro dia, olhei para os meus sapatos a ver se tinha os pés no chão. O balanço só Deus sabe. Dizem que as pessoas comentam, com sinceridade, não sei o que dizem. A dinâmica é a que penso qualquer sacerdote imprime nas suas comunidades. Esta está a acordar depois de um grande pesadelo. Meu Deus e que pesadelo! O meu objetivo é o mesmo que anunciei no dia da minha entrada na paróquia e que tive de repetir a algumas pessoas: quero que saibam que têm um sacerdote no meio deles e que vem para lhes falar de um Deus que os ama. As pessoas ainda procuram encontrar na igreja e no sacerdote um sorriso e uma palavra de Deus.

FN: A festa em honra de Santa Maria Maior em agosto é mais uma nova dinâmica pastoral. Porquê esta solenidade e o que o move nesta homenagem a Maria?

Padre Manuel Ornelas: Sim, a Festa de São Pedro Gonçalves Telmo e Santa Maria Maior é um impulso espiritual para esta comunidade. Perde-se no tempo o dia em que se celebrou São Pedro Gonçalves Telmo, patrono da Capela do Corpo Santo. Com pena. Dizia uma senhora tão cheia de ternura: como posso ajudar para a festa do nosso Santinho? Afinal, além do nome São Pedro Telmo, Corpo Santo também é o nosso Santinho. Quanta doçura e fofura. Santa Maria Maior! É o nome da paróquia, e da freguesia. Digam-me, como, como não assinalar esta data? Celebro, porque ao ser nomeado para esta paróquia, em 2024, no dia 4 e 5 de agosto, dia 5 é dia da festa litúrgica de Santa Maria Maior, ao passar diversas vezes e diferentes horas do dia, reparei que a igreja estava sempre fechada. Porquê? Este ano vamos abrir a igreja, vamos fazer festa à Mãe, de certeza que seremos abençoados pelo Filho e fortalecidos pelo Espírito Santo. Celebrar Nossa Senhora é sempre motivo de uma alegria maior. E neste caso vai encher o coração de todo este povo.

FN: Quais têm sido os principais espinhos da sua missão?

Padre Manuel Ornelas: Hahaha… Esta paróquia não tem espinhos. O nosso povo é um povo bom, simples e humilde. Cada irmão e irmã desta comunidade que vou encontrando são de uma grandeza de alma que vale a pena ver, contemplar e quase abraçar. É um povo cheio de sonhos que os leva a olhar o horizonte no oceano e a esperar um dia melhor. Aqui falo do povo que Deus me confiou.

FN: Reabriu a Capela do Corpo Santo e celebra Eucaristia. O que o moveu e qual tem sido o impacto?

Padre Manuel Ornelas: Abrir a Capela do Corpo Santo foi uma aposta pastoral. Tantas pessoas perguntavam o que estava aquilo a fazer ali. Os professores nas escola, quando falavam daquele espaço, aguçavam o apetite  dos alunos que logo passavam por ali. Ao chegar, faziam cara feia. Estava sempre fechado. Pastoralmente, por não termos organista da paróquia, o que vinha cá passava primeiro por São Gonçalo. A missa na igreja teve de passar para as 11H00. Era necessário encontrar uma opção intermédia. Surge a ideia da Capela do Corpo Santo, com eucaristia dominical pelas 10h00. Aposta ganha. A comunidade sentiu-se valorizada e com a possibilidade de ir à missa que lhe desse mais jeito. A experiência não pode ser melhor.

Igreja renovada a diversos níveis, sobretudo espiritual, sob a dinâmica do pároco.

FN: Considera que a Igreja Católica e a mensagem central de Jesus consegue mobilizar a população, face a um cenário de muitos católicos pouco praticantes?

Padre Manuel Ornelas: Os cristãos têm necessidade, precisam que lhes falem de Jesus, de um Deus que os ama. Que lhes diga que não estão sós nem esquecidos por Deus. Repito, Cristo continua a mover multidões. Os pouco praticantes da sua religião, penso que são pouco praticantes em tudo. Que pena. Vivem porque têm de viver, fazem porque os outros também fazem e andam ao sabor do tempo, sem descobrir que o tempo tem sabor. Aqui entra Jesus e a força do Espírito que faz olhar sempre em frente e sonhar um mundo melhor.

FN: É um sacerdote e um docente, como acontece com tantos outros casos. É possível conciliar este binómio ? O padre ainda é bem aceite na escola enquadrada num mundo laico?

Padre Manuel Ornelas: Sim, dá para conciliar o binómio, embora muitas vezes seja difícil quando temos de lidar com pessoas que olham o sacerdote, o padre como alguém que, pelo facto de estar na escola, está fora do lugar. Eu sinto isto na pele. O Padre é bem aceite na escola e é uma referência para os nossos alunos. Tenho a sorte de trabalhar em escolas católicas e por isso cria-se uma empatia fantástica, onde se fala de Deus mas, acima de tudo, se ensina a construir um mundo onde Deus tem que ser visto em cada Pessoa.

FN: Quais os projetos futuros para a Paróquia de Santa Maria Maior? As entidades oficiais têm colaborado com a Paróquia ?

Padre Manuel Ornelas: Temos muitos projetos. Falei com o nosso Bispo e disse: Sr Bispo. não sei o que fazer. Onde ponho os pés, está para arranjar, onde ponho os olhos está uma desgraça. Não consigo perceber como isto chegou a este estado. Mas foi para aqui que Deus me enviou. Projetos? Muitos. Saliento que recuso a pedir dinheiro a este povo. Repito, eu padre Manuel Ornelas da Silva, recuso a pedir dinheiro a este povo. Dei-me conta que é um povo simples e não navega em dinheiro. Não vivem muito folgados. A partir daqui é construir e esperar. Não posso mudar o que se estragou em mais de 30 anos. Duas grandes apostas. A nível espiritual, continuar com o ritmo que já vamos vivendo. Adoração eucarística, oração, eucaristias e dinâmicas de festa. Trabalhar também no plano de minimizar tantos estragos visíveis nas paredes e talha dourada da nossa igreja. Como? Partindo de Abraão, nosso Pai na Fé: “Deus providenciará”. Nisto tenho certeza. Da Junta de freguesia de Santa Maria Maior temos tido todo o apoio que pedimos. Calma, sei como as Juntas vivem, também não pedimos o que não nos pudessem dar. Comigo têm sido muito corretos.  O resto, que Deus nos ajude…

Adoração e Eucaristia diárias em Santa Maria Maior, sob a orientação do Padre Ornelas.

FN: Muitos sacerdotes queixam-se de solidão e cansaço. Como comenta?

Padre Manuel Ornelas: Solidão. Um padre que se sente solitário, que saia da sacristia do comodismo da sua vida. Vá ao encontro dos seus paroquianos, das famílias, das crianças, dos doentes, dos marginalizados. Esqueçam a solidão, garanto que passa. Cansaço, quem não está cansado nesta altura? Se eu estou cansado como padre, imagino as mães de família que trabalham e chegam a casa e têm tanto para fazer. Para nós, sacerdotes, ficam as palavras de Jesus: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei”. Nas canseiras da nossa vida, precisamos encontrar no coração de Cristo a nossa força e ânimo e nos olhos de cada “irmão” a linha do horizonte que nos deve levar a sonhar, porque quem está cansado tem pesadelos, quem “olha” Cristo, descansa e sonha.

FN: O ativismo de alguns católicos, tantas vezes divididos em viver várias espiritualidades em simultâneo, favorece o encontro pessoal com Jesus ou a ilusão da fé para preencher vazios emocionais?

Padre Manuel Ornelas: O ativismo não desculpa tudo. Penso que o que está a afetar os católicos é a indiferença, a falta de compromisso e o saber o que se quer. Isto leva à procura desenfreada de soluções. Aqui, venha o que vier, é tudo bom, mesmo que a satisfação seja só momentânea. É tão momentânea que leva à procura de ajuda seja onde for e com quem for. Na grande pluralidade de espiritualidades é de fugir, não das espiritualidades mas de quem vai a todas. Isto leva à ilusão e depois à loucura. Porque nunca encontram nessas espiritualidades o próprio Jesus, mas pessoas que se apresentam como Jesus. O vazio continua porque quem pode encher esse vazio não é aceite pelas pessoas deslocadas, sim, deslocadas, que é Jesus Cristo. Enquanto eu não reconhecer que Jesus está  na minha paróquia, na minha Comunidade ou noutra Comunidade onde me sinto bem, nunca o encontrarei, mesmo que tenha de percorrer igrejas, consultar padres, bispos, bruxos. Porquê? Porque eu recuso encontrar perto de mim aquele que é a fonte da vida e vou procurar longe para que Ele não me transforme ou faça de mim aquilo que são Paulo tantas vezes diz nas suas cartas: o Homem Novo.

Eucaristia do Bispo do Funchal na paróquia do Socorro, por ocasião do centenário da Fundação do Patronato de São Filipe.

FN: Falta de sacerdotes também na Diocese, seminários quase vazios… O que falhou ou o que falta fazer?

Padre Manuel Ornelas: Penso que não há falta de sacerdotes. Permitam que, por amizade a cada sacerdote desta Diocese, não comente esta parte. Os seminários não estão vazios. Eles são lugares de profunda espiritualidade. Tem poucos seminaristas mas se todos fossem fiéis, seriam mutos. Penso que o trabalho das vocações, geralmente é entregue a uma equipa. Enquanto for assim, continuará tudo na mesma. Aqui a ideia era ter a equipa na mesma, mas as famílias, as paróquias, os cristãos e os catequistas serem  responsáveis pelas vocações sacerdotais. Enquanto não for uma preocupação de todos estaremos sempre a contemplar o vazio de casas e de instituições.

FN: Eutanásia, Inteligência Artificial, guerras, pobreza, muita gente deprimida…  o Evangelho de Cristo consegue superar e defender o mundo destes ataques sistémicos?

Padre Manuel Ornelas: O Evangelho não perdeu atualidade. A igreja não perdeu atualidade. Ao longo dos séculos teve de se adaptar. Sempre defendeu a vida. Não poderá deixar de o fazer. Está no seu gene. Precisa de se adaptar às novas realidades que surgem de onde menos se espera. Precisamos de fazer mais oração. Pedir a luz do Espírito Santo e, acima de tudo, precisamos agir e ver como enfrentar os desafios à luz do Evangelho. Nunca em situação alguma podemos perder Jesus Cristo de referência. Colocar a famosa interrogação: e se Jesus estivesse aqui o que faria? Como resposta só vos posso dizer uma coisa, diante da eutanásia, Inteligência Artificial, guerras, pobreza, muita gente deprimida, ele chamaria as coisas pelo seu nome. Penso que é a falha do nosso tempo, dos grandes do nosso tempo, do Papa, dos bispos, dos padres e acima de tudo minha.

FN: Qual a mensagem final que gostaria de deixar aos leitores do FN?

Padre Manuel Ornelas: A todos os leitores do Funchal Notícias e a todos os que lerem esta minha entrevista, peço, não deixem de sorrir (ao ler esta parte mostrem um sorriso – o mais lindo que saibam dar), não deixem de fazer a vossa parte na construção deste mundo, acima de tudo não deixem que sejam os outros a fazer a vossa parte. E em todas e qualquer circunstância, lembrem-se que Deus vos ama e que na cruz em Jesus vos abraça. Eu deixo para vós, em São Tiago Menor, em Cristo, o mais caloroso abraço, que não se esgote.


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