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Rui Marote
Já lá vão 24 anos que ocorreu este desastre natural, a 15 de Dezembro de 1999, que alastrou a morte, o pavor e o sofrimento durante longos dez dias, no Estado de Vargas, na Venezuela. Chuvas torrenciais causaram inundações repentinas e inesperados deslizamentos de terra que mataram dezenas de milhares de pessoas, destruíram milhares de
casas e levaram ao colapso total as infraestruturas do Estado venezuelano.
O bairro de Los Corales ficou soterrado sob cerca de três metros de lama. Grande parte das casas foi simplesmente arrastada para o oceano. Cidades inteiras como Cerro Grande e Carmen de Uria desapareceram completamente. Cerca de 10% da população de Vargas morreu durante o evento. Nos primeiros dias de Janeiro de 2000, o DN enviou para Caracas uma equipa de reportagem, composta por Catanho Fernandes, que tinha regressado daquele país da América Latina em Novembro, onde tinha ido prestar apoio ao lançamento do Correio de Caracas, voltou a 2 de Janeiro. Três dias depois, é a vez do repórter fotográfico Rui Marote viajar para Venezuela. Eu e o Catanho Fernandes fomos dos primeiros jornalistas portugueses a chegar ao local da tragédia.
Quando cheguei ao aeroporto Simon Bolivar Maiquetia La Guaira, muitas carreteras para Caracas estavam encerradas.
Esperava-me Catanho Fernandes, no Hotel Condor, propriedade de um madeirense com um grande restaurante exterior que seria o nosso quartel-general. Na minha bagagem constavam duas garrafas de litro de laranjada solicitadas pelo camarada Catanho que só fiquei a saber o motivo
desse desejo, uma vez que tinha chegado uns dias antes. Afinal a bebida do Max destinava-se ao diretor e administrador do Correio de Caracas, Aleixo Vieira, que era um apreciador desse refrigerante e nas suas visitas à Madeira fazia questão de comer filete de espada acompanhado da popular laranjada.
No dia seguinte, fomos para o terreno graças ao conterrâneo Pestana que possuía um jeep todo o terreno e era conhecedor daquela zona. Com saída prevista às 04horas da manhã, já reabastecidos de águas, frutas e sandes. Não sabíamos o que iríamos encontrar e até onde poderíamos chegar uma vez que as estradas estavam bloqueadas e muitas pontes tinham desaparecido. A primeira reportagem dos “enviados especiais” do DN foi publicada a 5 de Janeiro e durante 10 dias os leitores foram informados diariamente dos acontecimentos nestas cidades transformadas em cemitérios.
Esta memória vem a propósito dos acontecimentos recentes na cidade de Valência, em Espanha, relatados pelos media como a catástrofe do século. Ainda é cedo para contabilizar o número final de vítimas e desaparecidos. Mas a tragédia de Valência – e ainda bem que assim é – está muito longe dos 12.000 mortos de Vargas. Mas quer a tragédia de
Vargas, quer a de Valência, aquelas imagens que nos entram constantemente nas nossas casas através da “caixinha mágica”, levam-nos a pensar que os finais dos tempos estão à porta, como parecem indicar as Escrituras.
Faço um refresco no meu cérebro e o meu “disco rígido” dá testemunho transmitindo à retina dos meus olhos os horrores que vivi. Um número assustador de perdas humanas, madeirenses entre as vítimas e a incredulidade perante uma realidade em que ninguém queria acreditar, mas que estava a ser vivida entre lágrimas, choros, desespero. Mas também fé e esperança.
Dizia-nos o Padre Alexandre da Missão Católica Portuguesa: “Nenhum ser humano deve ser tratado como estatística”.
Todos os caminhos iam bater à porta da Missão Católica, um autêntico quartel-general. Nas instalações da igreja – um enorme armazém na cave foi transformado em dormitório e parte em refeitório, num só dia, com a ajuda de todos, capaz de albergar mais de meio milhar de pessoas. Foram dezenas de testemunhos e histórias de arrepiar até os cabelos. João Caldeira, um madeirense do Campanário, enterrou os quatro filhos com as suas próprias mãos. Disse-nos: agora quero
desenterrá-los para depois fazer-lhes um funeral cristão. João Caldeira vivia em Las Salinas e exclamava: “Não tenho coragem para regressar ao Campanário.” Era um cenário apocalíptico. O lamaçal atingiu níveis incríveis de 20 a 30 metros de altura, arrastou os pilares dos edifícios melhores construídos, em Macuto. Nos “campos santos”, do litoral caribenho, jaziam algumas centenas de madeirenses, por muito que nos custasse acreditar.
O primeiro político madeirense a chegar à Venezuela foi André Escórcio, que levou um cheque de 2.000 mil contos, uma comparticipação do Grupo Parlamentar Socialista, na Assembleia Legislativa da Região (ALRAM), entregue na Missão Católica.
Os primeiros repatriados chegaram à Madeira a 8 de Janeiro, eram de Câmara de Lobos e da Camacha. O Secretário Regional dos Recursos Humanos chegou à Venezuela a 15 de Janeiro, e só por três dias. Levava na bagagem 5 mil contos.
No dia 14 Fevereiro, o tema Venezuela voltou ao Parlamento pela mão de José Manuel Rodrigues que criticou o atraso do Governo Regional em chegar àquele país, ao que retorquiram: já estava lá um secretário de Estado e por isso não fazia sentido “estarmos todos lá ao mesmo tempo”. Brazão de Castro diz para André Escórcio: você apenas chegou primeiro. Escórcio respondeu: “Sinto que estou a perder tempo a responder aos seus tristes comentários. Vá e regresse com outra postura.”
Por toda a Madeira surgiram iniciativas em prol da Venezuela, com coletas porta-a-porta. A Junta de Freguesia da Ponta do Pargo arrecadou 1.377 contos. A Madeira enviou três psicólogas para apoiar as famílias madeirenses porque conheciam a maneira de ser e de viver dos conterrâneos. O presidente Hugo Chávez determina os ranchos que proliferam ao redor de Caracas, ameaçando milhões de pessoas e as casas de luxo no litoral caribenho, de construção clandestina, afirmando que iam desaparecer. Chávez ditou uma nova ordem geográfica para o país. Passaram-se 24 anos, não posso testemunhar essa recuperação e se essas construções
clandestinas continuam a ser permitidas. Colocámos o Diário de Notícias da Madeira na primeira linha da informação. Noutros tempos! Ingrata é a missão do jornalista quando calcorreia terras que abalam friamente, sem apelo nem agravo, milhares de pessoas, sabendo-se que elas são da nossa terra. Temos muito para contar! O padre Gastão Aguiar, 26 anos, que recolheu 2.000 desalojados. Foi um dos heróis da noite trágica de 15 de Dezembro, em Macuto. Quando deixamos a Venezuela, testemunhamos madeirenses com forças diferentes, vontade de recuperar mas também o desejo de regressar à terra-mãe.
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