Conta-se que, no tempo de Salazar, um zeloso funcionário da administração colonial solicitou ao Ministro da tutela a prerrogativa de se deslocar de Moçambique a Goa, a fim de visitar o túmulo de São Francisco Xavier. Alegou o facto de há muitos anos não gozar do período de férias, ser um funcionário assíduo e leal, que desenvolvia as suas funções com reconhecida competência, e que pretendia orar fervorosamente junto do túmulo do Apóstolo do Oriente. Requeria, por isso, uma ajuda de custo para a deslocação, inspirada exclusivamente pela sua genuína fé. O Ministro considerou o requerimento inédito na burocracia governamental e remeteu-o para o presidente do Conselho. Salazar, com a sua proficiente astúcia, deu o seguinte despacho: Quem tem fé, vai a pé…
O vigário da Sé do Funchal aplaudiu a construção de um parque subterrâneo na Praça do Município porque, entre outras razões, os crentes poderiam participar nas missas, beneficiando do polémico estacionamento:
«Excelente ideia a construção de um parque de estacionamento no Largo do Colégio. Parece algo tão óbvio e necessário para a revitalização da nossa cidade. Com toda a tecnologia que existe é algo mais que possível. Como seria bom para ir à missa, fazer compras e tomar um bom café na baixa da nossa cidade.» Rezava assim a página da Sé do Funchal no Facebook.
A segurança e salvaguarda da Igreja do Colégio, monumento nacional, onde o próprio foi Reitor, não foram tidas em conta. O Museu de Arte Sacra também não lhe mereceu atenção. Tão-pouco os cursos de águas subterrâneas, residuais e pluviais que, alterados, colocarão em perigo a estabilidade das edificações a uma cota inferior, inclusive a Sé. Não pensou que mais estacionamentos no centro trazem mais automóveis que entupirão a baixa da cidade. Em abono da verdade, diga-se que o vigário-geral não é engenheiro, de modo que mais não se poderia esperar do seu comentário. Nem suspeitou de razões ocultas para a construção desse parque, como aquele ambicioso projecto hoteleiro num edifício classificado da vizinhança, que requer lugares de estacionamento e não os pode construir na sua área.
Por se ter arrependido de manifestar a sua opinião, ou por outros quaisquer motivos, o vigário eliminou o seu comentário, mas o mesmo foi amplamente reproduzido, até na imprensa.
Sobre o projecto de um parque de estacionamento subterrâneo já me manifestei em 1 de Setembro de 2021, no Funchal Notícias.
https://funchalnoticias.net/2021/09/01/praca-do-municipio-sob-ameaca/
Interessa-me, agora, abordar um dos argumentos do Cónego Marcos Gonçalves: a comodidade de um estacionamento no centro do Funchal para quem frequenta as missas das igrejas da baixa.
Julgo que a falta de lugares de estacionamento não justifica a reduzida participação nas missas. Há muitas em diversas igrejas e capelas e, nalgum lugar, sempre haverá possibilidade de deixar o automóvel em segurança. Os transportes públicos funcionam todo o ano, excepto no dia de Natal. Também não é fácil estacionar junto das praias e complexos balneares, e estes apresentam-se lotados.
No passado, os crentes percorriam grandes distâncias a pé, a fim de participarem nas celebrações religiosas. Por que razão não o fazem nos dias de hoje?
O Padre António Vieira, no célebre Sermão de Santo António (1654), tomou, como conceito predicável, o versículo 13, do capítulo V do Evangelho de Mateus: «Vós sois o sal da terra.» Cristo dirigia-se assim aos seus discípulos. No exórdio deste Sermão, Vieira interrogou-se:
«O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela, que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber: ou é porque o sal não salga, e os Pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem: ou é porque o sal não salga, e os Pregadores se pregam a si, e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites.»
Trazendo as palavras de Vieira, proferidas no contexto da colonização do Maranhão, para a actualidade, a Igreja Católica deveria interrogar-se em termos semelhantes.
A Igreja de Roma já não dispõe dos instrumentos que, no passado, condicionavam a livre escolha do crente e ditavam o seu comportamento ou a sua intimidade. O Tribunal do Santo Ofício suscitava o temor e era o terror. Os denunciantes, incitados pelas prédicas dos padres, vigiavam e delatavam até o que não tinham visto nem sabido, mas quase tudo era validado pela autoridade diocesana, para a investigação inquisitorial.
O cristão vivia atemorizado com a repressão e o sufrágio da alma. Não dispunha de liberdade para manifestar o seu pensamento ou agir de acordo com os valores e sentimentos que acalentava. Nesse tempo, a Igreja Católica era poderosa.
Extinta a Inquisição, desconsiderado o Índex de livros proibidos, banida a censura prévia, menosprezada a excomunhão, a Igreja Católica ainda tentou arrogar-se de velhos privilégios e anacrónico totalitarismo nos anos de ditadura. Com a democracia, tudo mudou.
As redes sociais e a circulação global da comunicação escancararam o bem e o mal da Igreja.
O progresso não constitui obstáculo à Fé. No entanto, a Igreja Católica deve fazer profunda reflexão, para alteração do paradigma da sua prática.
A posse incontestável da verdade, sobre tudo, e a não aceitação de críticas e contraditório, são incompatíveis com a humildade necessária para o exercício da liderança democrática das comunidades católicas, onde todos devem ser acolhidos. A promiscuidade com os poderes político e económico coarcta a liberdade da autoridade diocesana.
Durante séculos, Roma impediu o conhecimento da Bíblia e condenou os que se aventuraram na tradução de textos das Sagradas Escrituras em grego, hebraico ou latim para as línguas vernáculas. Exemplo maior é o labor de Erasmo de Roterdão. Após a sua morte, e apesar da sua demarcação em relação ao Protestantismo, as suas obras foram condenadas e inscritas no Índice de Livros Proibidos pela Igreja Católica.

Durante séculos, os católicos rezaram terços, mas estavam impedidos de aceder à fonte da Doutrina da sua Fé. A Bíblia destinava-se exclusivamente ao Clero. A Igreja Católica, ao contrário das Igrejas Protestantes, não promoveu a instrução popular.
Ainda hoje, quase não há missa sem ser antecedida de terço, uma repetição mecânica e fastidiosa de orações e jaculatórias, num tempo que deveria ser de silêncio e de meditação, como preparação para o ofício litúrgico. O momento do auto-acolhimento.
«Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade, vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há de recompensar-te.
«Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam de vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de vós lho pedirdes.» (Mt 6,5-8)
Provavelmente, por conhecerem esta passagem do Evangelho não se vê os padres a rezarem o terço antes da missa, confiando essa tarefa a leigos, mais ou menos beatos, que vão introduzindo as suas devoções no final de cada mistério, e prolongando a recitação.
Desenvolveu-se um catolicismo folclórico, um culto popular de santinhos, relíquias, milagres, velas e foguetório, sustentado por um purgatório inventado e uma salvação mediada pelo Clero, em detrimento da espiritualidade e do conhecimento da Palavra de Deus e dos ensinamentos de Cristo, que promovem a conversão e a transformação dos crentes.
Hoje o padre já não é dono da verdade ou o fiel intérprete da Bíblia. Como disse o Papa Francisco, muitos apresentam-se como funcionários administrativos (e acrescento: técnicos de acção social ou empreiteiros), e não como guias espirituais. Alguns arrogam-se de um poder que, com efeito, não têm, enquanto outros vão sendo escorraçados pela hierarquia e pelo poder político, simplesmente porque pensam, agem e não se vergam.
Na actualidade, pastores e rebanho são anacronismos impróprios da verdadeira religiosidade.
Tudo isto (e muito mais que fica por dizer) desmotiva os crentes. Muitos afirmam: «Não vale a pena ir à missa. O padre diz sempre o mesmo. Não fala dos assuntos deste mundo. Interessa-se mais por mistérios do que pelo quotidiano.» Para não falar das impreparadas homilias e do «encher chouriços» do tempo da Palavra.
Em muitas paróquias da Madeira, parece também que os sacerdotes exercitam a autocensura nas suas prédicas ou contornam a mensagem das leituras com historietas, sem graça nem nexo. Talvez, com medo dos bufos que frequentam a Igreja e denunciam ao Partido o comportamento do Padre e, por conseguinte, ao Bispo. Basta comparar, num domingo, o que se ouve nas nossas Igrejas e o que alguns celebrantes dizem, por exemplo, numa missa transmitida pela TVI.
Em suma, não é por falta de estacionamento que as Igrejas estão vazias. Há outras razões e muitas culpas, de padres e crentes. Importa equacioná-las, juntando, com boa vontade, crentes, sacerdotes, seculares e regulares, «todos, mas todos», como pediu o Papa Francisco. Nunca esquecendo ou marginalizando os que pensam de forma diferente. Juntos para repensar profundamente a Igreja do século XXI, ficando, à partida, bem delineada a separação da Igreja, do Estado, sem o anticlericalismo da Primeira República, mas trabalhando para uma salutar convivência entre o poder laico e o poder religioso, na modernidade, sem margem para qualquer tipo de subserviências políticas nem clericais.
«Isso é uma utopia» – disse-me um amigo, quando me ouviu ler este texto – acrescentando que «a Igreja não quer mudar». Mesmo assim, decidi publicá-lo.
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