O FN publica, na íntegra, o texto da aluna vencedora do Concurso alusivo ao Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Maria Inês Martins Silva, estudante do 12.º ano, da Escola Secundária Francisco Franco.
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Um indiano na Madeira que se apaixona por Camões
Manhã de 10 de junho de 2023. O cargueiro Ambar zarpou de Marrocos, fez escala em Canárias e aportou no Funchal. Ravi deu um abraço ao homem do leme, agradeceu o abrigo oficioso para sair da Índia e amanheceu numa ilha conhecida no mundo como Pérola do Atlântico. Nos bolsos, umas notas de somenos importância e no coração uma torrente de sonhos alimentados pelo desejo dos recomeços. Para trás, ficaram as ruas de Calcutá e 33 anos de miséria, o trilho de um viandante com companheiros de circunstância, a saltitar de bairro em bairro numa luta árdua pela sobrevivência. O comandante do Ambar, homem tisnado e rodado em artes e mestrias, compadeceu-se do Ravi, desafiou-o à viagem da sua vida, longe dos olhares das alfândegas, camuflado com a carga de sempre e, depois de longas noites de escuridão e incerteza, depois de Marrocos e Canárias, o sol voltou a brilhar para Ravi na mimosa baía do Funchal.
Os pés seguros em terra, num recanto discreto do porto, caminhavam ávidos de vida. Mas o olhar pousou num jovem que ali pescava, disputando o mar e a presa com uma linha esguia, mas com pouco jeito para a arte. Aproximou-se e, antes sequer de dizer algo, viu estalar nos céus foguetes, e uma fanfarra a cobrir todo o anfiteatro de uma cidade que evocava os pontinhos em fileira das sinuosas ruas de Calcutá, tão familiares. Falava algo em inglês e foi este o passaporte para o diálogo com o Salvador, um madeirense recém-licenciado em biologia marítima, apaixonado pelas águas marítimas, de olhar sonhador do alto dos seus 24 anos de idade. Entre ambos nasceu uma cumplicidade. Não foram necessárias muitas palavras, ambos liam-se nas suas virtudes e misérias e Salvador, com aquela mística hospitaleira dos madeirenses, rapidamente se prontificou para acolher o forasteiro de olhar doce e distante. Mas o seu olhar parecia querer ler a razão da festa na cidade. Salvador, solícito e conversador, rapidamente elucidou Ravi: – Meu amigo, bem podes dizer que chegaste em dia de boa estreia à Madeira, já que o nosso país comemora o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Camões, o inesquecível poeta que tão bem plasmou a alma lusitana n’Os Lusíadas, que mostrou a têmpera audaz e aventureira dos portugueses quando o mar era só mistério, o cantor de uma Pátria que nem sempre reconheceu as artes e os talentos.
Ravi crescia em curiosidade e Salvador, com a adrenalina da juventude, dava de beber à sede: – A festa, hoje, é por conta da Portugalidade, desta nobre e orgulhosa nação, pequenina em tamanho mas rica em História, que a todos nos enche de orgulho e brios. Uma pátria de poetas, mas Camões é, inquestionavelmente, o príncipe dos poetas. Cantou o desejo dos marinheiros de rasgar o horizonte e, qual casquinhas de noz como eram as nossas caravelas, sem radares nem GPS, apenas a força do sonho, demandaram a tua terra, Ravi, pois é, a desconhecida e apetecida Índia, onde voltaram recompensados pelos deuses e carregados de riquezas, com aromas mil.
E depois? Questionava Ravi, esquecendo-se de que toda a sua vida estava por organizar, fazer-se à estrada para descobrir novo mundo e conhecer um povo à semelhança de Salvador. Mas o orgulho com que Salvador falava de Camões e da sua Pátria deixavam-no rendido a essa narrativa que se cruzava com a realidade, logo que os foguetes voltavam a estalar no céu e a festa tomava conta da cidade. Salvador, de conversa fácil e olhar vivo, franziu os olhos, baixou a cabeça e, depois, num lance de firmeza, replicou: – Depois, Ravi, é como todos os depois… o sol das Índias foi tão intenso, a riqueza tão desmesurada que queimou as consciências do reino e, passo a passo, foi-se delapidando o tesouro com caprichos e historietas. Criámos um grande império e, com a nossa falta de visão e de gestão, gastámos à tripa forra e resta-nos hoje a saudade mas também o sonho de voltarmos a ser grandes. Sim, porque o Sebastianismo é a nossa segunda pele, quando tudo é nevoeiro, subsiste a certeza de uma alvorada nova, como também a defendeu outro poeta maior, Fernando Pessoa.

A manhã ia-se consumindo na conversa apimentada entre Ravi e Salvador, como se fossem amigos de longa data. O que mais comoveu Ravi foi a familiaridade com que Salvador o acolheu e se disponibilizou a contar-lhe as razões da festa que vestia a cidade do Funchal, uma réplica de todas as cidades portuguesas que, neste dia assinalado, respirava a Portugalidade, o orgulho do vate da Nação, a diáspora. E falando em diáspora, Salvador rapidamente apressou-se a deixar Ravi como peixe na água. – Sabes, Ravi, tu não és o primeiro nem o único a procurar um rumo novo para a tua vida na nossa terra, por caminhos sinuosos ou por linhas direitas, não importa. O meu país orgulha-se não só de ter dado mundos ao mundo como de mandar para o mundo milhares de conterrâneos que encontraram um lugar ao sol. As nossas comunidades de emigrantes pelo mundo criaram pontes, sedimentaram laços, levantaram economicamente a sua terra e continuam a ser a continuidade da História de Portugal num mundo sem fronteiras nem barreiras. Hoje, Portugal é porto de abrigo para centenas de migrantes, muitos indianos como tu, amigo, e a nossa terra só pode estender a mão a todos porque acredita que a interculturalidade nos enriquece mais do que nos separa. O que é, afinal, o mundo hoje, se não uma paleta de nacionalidades que se cruzam, partilham nacos de história, respeitam as diferenças e complementam-se na diversidade? Pelo nosso mundo de hoje, feito de múltiplos paradigmas, da tecnologia ao investimento espacial, é sempre o Homem e a sua sede de conhecer o outro que prevalece no centro de qualquer desafio civilizacional, são inúmeros Camões que partem diariamente do Restelo à procura do sonho.
Ravi estava extasiado. A pescaria foi um fracasso mas a amizade e a lição de cultura venceram o dia. Com a proposta de hospitalidade, Ravi e Salvador deixaram o porto e caminharam marina adentro. Uma multidão de turistas caminhava com eles distraída nas fotografias, enquanto outros adquiriam os souvenirs para imortalizarem a Madeira nas suas memórias. Mas o olhar de Ravi parou na grande e imponente fortaleza de São Lourenço, onde os acordes da festa pareciam rasgar as históricas paredes e convidar o exterior a associar-se à festa. Compreendendo a curiosidade do amigo, Salvador elucidou-o: – Tens razão, Ravi, é um monumento muito belo, feito de amores e desamores entre portugueses e espanhóis, de perdas e de ganhos, mas, no final, Portugal vence e convence. Lá dentro, decorre a cerimónia da efeméride de hoje, 10 de junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Como vês, em pleno século XXI, com um mundo recheado de aliciantes, os nossos governantes honram a sua História, curvam-se perante a grandeza de Portugal e a soberania literária de Camões e dão aquele abraço às Comunidades. É por isto, Ravi, que tenho orgulho em ser português, enquanto tantos outros se queixam de barriga cheia. Somos pequeninos em tamanho mas grandes em História. A verdadeira nobreza do homem é saber honrar o que os nossos antepassados nos legaram e não menosprezar a nossa cultura. Alguns preferem valorizar as quedas do país, eu continuo a apostar em amplificar as nossas qualidades e ajudar a construir a Pátria, com aquela força anímica que Camões e Pessoa nos ensinam nos seus versos.
O coração generoso e amigo de Salvador foi o porto seguro de Ravi e o melhor passaporte para um recomeço envolto de muitas dúvidas. A família do Salvador foi, efetivamente, a primeira e única família de um homem que cresceu nas ruas da Índia, numa luta diária pelo pão nosso de cada dia, e que aprendeu, numa pequenina mas preciosa terra do Atlântico, o verdadeiro sentido do Amor. Rapidamente comungou dos valores da Portugalidade, reaprendeu a dar e receber afetos, a servir e a ser servido, a amar e a ser amado. Na aventura de aprender a Língua Portuguesa, contou com a docilidade da nova família e a sua força de vencer foram desmontando rapidamente as barreirasda gramática lusitana. Hoje, é mais um homem do mundo cujo destino se confundiu com a Madeira, onde o acolhimento e a hospitalidade levaram-no a adotar como a Pátria do coração a Madeira. Nas horas vagas, folheia os versos de Camões e parece viajar até à terra da infância nos enredos do poeta que exalta os brios de um povo em contacto com mil raças e cheiros e suspirava pelo justo reconhecimento do seu engenho. Tantas vezes, a história reescreve-se de forma inesperada e Camões conta agora com um leitor apaixonado da encantada Índia.”
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