As minhas memórias jornalísticas têm episódios caricatos. A 15 de Abril de 1984 decorria nos Barreiros um jogo de futebol a contar para Campeonato Nacional da 1ª divisão, um derby Marítimo-União. A equipa de arbitragem que viajava do continente ficou retida em Lisboa devido às más condições meteorológicas no aeroporto da Madeira.
Foi necessário recorrer a um árbitro presente nas bancadas. A equipa de arbitragem escolhida foi presidida por um árbitro regional, o professor Teixeira Dória.
Enfim, Barreiros, bom tempo e excelente a moldura de público. Marítimo, 1 – União, 1. Escrevia o redactor desportivo do Jornal da Madeira Gilberto Teixeira. : “Uma vergonha entre Madeirenses, com o árbitro a salvar o espectáculo degradante”.
Porquê? Porque no decorrer do jogo “choveram” garrafas de cerveja para o interior do rectângulo, algumas a sobrevoar a minha cabeça, junto à cabeceira norte do Estádio, onde me encontrava a fotografar. Ora, tive a infelicidade, na altura em que o jogo estava interrompido, de apanhar um desses vasilhames e entregar ao árbitro numa altura que o caldeirão dos Barreiros estava ao rubro.
A partir desse momento apercebi-me da revolta dos adeptos verde rubros para com esse meu gesto, com insultos verbais sucessivos, só faltando escutar a palavra “crucifiquem -no”.
Nunca mais tive paz com a multidão “raivosa”. O jogo finalizou, e ao percorrer a pista de atletismo em frente à bancada central , em passo acelerado, fui alvo de uma chuva de insultos.
Tive a infelicidade de nesse dia levar o meu filho, que tinha cinco anos, ao estádio, e que se encontrava na pista de atletismo enquanto eu trabalhava. Ora, precisei de protecção policial até às cabines e ali fiquei refugiado. Meu filho estava “a leste” do que se passava.
Sair dos barreiros não era tarefa fácil, e a única maneira foi no interior da ambulância da Cruz Vermelha, para despistar a multidão em fúria…
Durante mais de dez anos, fui sempre insultado quando estava em serviço de reportagem. Do peão as palavras “melga” e outras insultuosas eram uma constante tendo por alvo a minha pessoa, nos jogos que o Marítimo efetuava nos Barreiros.
Um autêntico “síndroma” que tive de viver durante mais de uma dezena de anos.
Não é fácil ser jornalista numa terra pequena como a Madeira. Foi uma autêntica marca que adquiri, não me deixando em paz. Não foi fácil libertar-me da mesma.
Tive um caso idêntico em Lourenço Marques Moçambique, que foi manchete nos jornais da metrópole através das agências noticiosas ANI e Lusitânia,faz 50 anos a 7 de Setembro, e sobre o qual já escrevi. Mas nesse fui mesmo agredido. Aos adeptos do Marítimo, sempre consegui escapar…
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.



