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Se pudéssemos ver a realidade ficaríamos loucos. Às vezes em conversas de circunstância, alguém nos alerta para a reflexão sobre teorias do conhecimento, o modo como olhamos para o que existe à nossa volta e de que maneira procuramos conhecer e interpretar o mundo complexo onde nos inserimos. Na História do conhecimento vários caminhos se abriram aos mais antigos pensantes que, ultrapassando as primitivas mitologias, seguindo depois pelo misticismo, se foram aproximando de conceitos racionais, empíricos e criticistas, um longo percurso pela filosofia, para atingir o verdadeiro saber sobre os fenómenos.
Mas há duas maneiras fundamentais de considerar o saber: O saber científico e o senso comum. O saber científico precisa de verificação e validação enquanto o senso comum é um conhecimento não rigoroso, que se obtém por repetição cultural e é normalmente designado por cultura geral. É passado de geração em geração e faz parte do nosso dia a dia.
De passo a passo, ao longo das várias vertentes que foram sendo encontradas, chegou-se à corrente do realismo que prescreve a observação objectiva dos factos tal como eles se apresentam no cotidiano, evidentes, sem idealismos. Mas o conceito de realismo esbarra com o que se considera ser a realidade. A realidade é um conjunto de fenómenos que abrange várias vertentes da existência, desde o mundo visível ao mundo invisível, desde o que se abarca através dos sentidos, ao que se depreende pela experiência extra sensorial, ou espiritual até aos horizontes da utopia.
A utopia é um conceito de origem grega que significa precisamente «um lugar que não existe». Se a palavra grega ou+topos declara desde logo que o lugar não existe, estaríamos perante um problema insolúvel e nada mais havia a acrescentar. Mas os humanos, detentores de uma capacidade própria de imaginar e inventar, foram criando ao longo da História, essa estância por todos desejada que passou a designar-se por vários nomes: Utopia, Éden, Paraíso, Ogígia, Pasárgada. Para a civilização ocidental cada um destes referentes traduz-se num lugar ideal, onde tudo é perfeito, desejável, onde é possível encontrar harmonia, felicidade.
Estamos numa época crucial que nos abre para as alegrias de memórias felizes e tradições reconfortantes: a infância ingénua e despreocupada, a perspectiva de um presente desejado, o calor dos afectos à mesa das iguarias, as Boas Festas que tentamos praticar e enviamos, em rebate de voto solidário, a amigos e conhecidos, através das várias vias à nossa disposição. As aldeias e cidades mergulham-se em brilhos diversos, promovem ofertas de bens, apresentam ícones iluminados e réplicas de encantadores e ternos presépios. Tudo como sempre, todos os anos da nossa vida, desde que nos conhecemos que o Natal é assim. Uma data de momentânea felicidade onde, apesar da tão apregoada Esperança, sabemos, todos sabemos que é um desses momentos utópicos, que apenas disfarça por algum tempo alguns dramas particulares e as tragédias do mundo.
Até onde o conhecimento é favorável à felicidade é uma questão que nos remete para a reflexão sobre o sentido da vida. Que sentido tem a vida no descalabro do mundo? Até onde nos leva o conhecimento, quando se omite o sentimento? Ver e pensar, ver e sentir seriam caminhos recomendados à nossa alheatória noção de felicidade.
As festas do Natal procuram amenizar os ecos das tragédias do mundo, porque, nós, os que ficamos longe do alcance das investidas bélicas que estão a destruir uma parte da humanidade, atingimos o limite da revolta que queremos dominar, reprimir e de algum modo pacificar, perante uma realidade brutal que à distância nos afronta e corrói as nossas consciências.
Porque a utopia tem, desastrosamente, um lado avesso: A distopia. A desmedida ambição humana que a troco de um ideal de riqueza e poder, recorre a projectos sanguinários para a satisfação dos seus desejos, incorre na mais cruel das realidades. Realidades que não podemos ver, porque, embora as imagens nos atordoem, o sofrimento que elas representam é invisível, indizível, incalculável. A dor não se vê, não se descreve, nem se mede. A dor, a mais cruciante dor, pode enlouquecer-nos.
O temível é que o conhecimento ou o senso comum ofusquem a capacidade humana de ver, sentir, pensar, equacionar e agir: cinco princípios tornados objectivos da disciplina base de toda a verdadeira educação sobre o sentido da vida !
O saber sobre a vida é o paradigma que falta à observância do «ser humanidade».
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