O Silêncio e a Variação Linguística

Diariamente, acontece-me esperar por respostas que não chegam. Enviei uma mensagem por várias vias (SMS, correio electrónico, WhatsApp, etc.), uma carta (o que é cada vez mais raro), um ofício, etc., mas não obtive resposta. Não recebi nada em troca, a não ser silêncio. Como interpretar este silêncio? Talvez o singular não seja adequado porque me vou dando conta que há vários tipos de silêncio. Portanto, será “os silêncios”, já que não têm todos o mesmo sentido. É aliciante pensar nas experiências pessoais (ia escrever “nas nossas experiências pessoais”, mas é redundante: se são “nossas” serão “pessoais”), visto que, por vezes, quando as partilhamos, verificamos que também as são de outros. Experimentar o silêncio como resposta a uma qualquer pergunta colocada oralmente ou por escrito será, decerto, uma experiência comum.

A minha experiência dos vários tipos de silêncio em resposta a solicitações, interpelações, questões, talvez seja comum. Interessa-me desenvolver uma breve reflexão linguística e comunicacional sobre os tipos de silêncio, porque a “ausência de resposta” não tem sempre o mesmo sentido, a mesma motivação, a mesma explicação, ou seja, há uma variação de significado não expresso nos valores do silêncio. Poderá considerar-se que estes diversos tipos de silêncio representam variação linguística? Numa primeira resposta, diria que não porque o silêncio é a ausência de palavra, de linguagem verbal, isto é, da componente linguística. Seria, por isso, contraditório. Porém, numa segunda resposta, tenho a tentação de dizer que sim. O facto de não haver resposta verbal deve ser interpretado como uma resposta com sentido, podendo haver, aliás, uma pluralidade de sentidos, verificando-se, no entanto, que não foram expressos, embora a qualquer momento possam vir a ser verbalizados. Será um pouco como não expressar um sujeito gramatical porque se subentende a sua presença. Explico o que quero dizer. É equivalente dizer: “O João comeu o bolo de chocolate.”, em que “O João” tem a função de sujeito gramatical, ou “Comeu o bolo de chocolate.” – em que o sujeito gramatical não está expresso por estar subentendido com marcas na forma verbal e é passível de ser reconstruído pelo contexto (co-texto) que remete para “O João”. Vou explorar a temática relativamente à variação de sentidos linguísticos do(s) silêncio(s) como resposta a uma mensagem recebida.

Diz-se que “o silêncio é de ouro” (mais vale não dizer nada do que falar porque o que se iria dizer não seria conveniente) e que “quem cala consente” (não responder é consentir, concordar). Frases idiomáticas e proverbiais como estas podem ir ao encontro do que quero explicar. Social e culturalmente, não há apenas um tipo de silêncio, mas vários e com significações distintas. No entanto, devem considerar-se duas opostas, logo à partida. Veja-se o caso de uma situação de comunicação escrita com ausência de resposta. Há duas possibilidades interpretativas gerais: ou o destinatário não recebeu a mensagem ou o destinatário recebeu a mensagem. Se não a recebeu por qualquer razão, compreende-se o seu silêncio. Não recebeu a mensagem e, logicamente, por conseguinte, não irá responder, já que não lhe chegou a pergunta que, eventualmente, se lhe colocou. Extraviou-se a mensagem escrita. Para esta possibilidade, o silêncio vale no seu sentido pleno. Será indispensável reenviar a mensagem porque a ausência de resposta significa que não se recebeu a pergunta, que, por ventura, se colocava na mensagem. Contudo, se a mensagem foi recebida e o destinatário não responde, aí, já importa interpretar o silêncio. Ora, para exemplificar, passo a enumerar. Não ter resposta a uma mensagem – especialmente a alguma pergunta recebida – implica uma diversidade de razões que explicarão, justificando, o silêncio do interlocutor, que recebeu a mensagem. Os silêncios referidos abaixo são especialmente para a comunicação escrita e poderá haver outros, além dos mencionados.

Se recebeu a mensagem e não respondeu é fundamental entender os motivos para a “não resposta”. O silêncio do destinatário, enquanto interlocutor (que falaria/ escreveria após receber a mensagem), que sentido tem, ou melhor, que sentidos se lhe pode atribuir? Não é o mesmo, já que a interpretação pode não corresponder à intenção real da não resposta. No entanto, é legítimo que quem emitiu e enviou a mensagem, se ficou sem resposta, interprete essa ausência. Enumeram-se possibilidades comunicativas, partindo de cenários distintos, inclusive de situações de extremos, a que não funciona e a que funciona bem, passando por aquelas em que o silêncio ganha variação linguística implícita, atribuindo-lhe sentidos reais ou hipotéticos através da interpretação. Considerem-se situações de comunicação entre duas pessoas (A e B), em que A envia uma mensagem a B, esperando resposta. Numas circunstâncias, não há silêncio, recebendo A uma resposta à sua mensagem. Porém, noutras, a ausência de resposta pode mesmo ser permanente.

 

Eis, entre outros, dez casos possíveis:

 

  • Situação de comunicação com silêncio, no sentido real de “não recebi a mensagem e, por isso, não posso responder”: B não recebeu a mensagem de A porque esta se perdeu ou foi parar a um destinatário que não era o visado. Por circunstâncias como esta, A deve sempre considerar a possibilidade de reenviar a mensagem a B e de verificar se o processo resultou, comprovando que a mensagem chegou a B.

 

  • Situação verbal de correspondência, sem silêncio como resposta: A enviou uma mensagem que B recebeu e responde a esta automaticamente. Não há silêncio porque se estabelece a comunicação com linguagem verbal dos dois lados (mensagem com resposta em retorno, o chamado “feedback”). Trata-se da situação comum porque, no processo comunicativo ou comunicacional, o emissor (A) e o recptor (B) trocam de papéis, invertendo-os.

 

  • Situação de comunicação com silêncio temporário, assumindo o sentido “aguarde porque, agora, não posso”: B recebeu a mensagem enviada por A e guardou-a. Não podendo responder imediatamente, responderá um pouco mais tarde. Estabelece-se um silêncio de algum tempo, mas, depois de uma ausência momentânea de resposta, esta chega. O silêncio significa “agora não posso, mas já respondo”. É legítimo A esperar por resposta algum tempo, se B tem outras ocupações. A questão aqui é saber o tempo tido como admissível para obter uma resposta.

 

  • Situação de comunicação com silêncio prolongado, assumindo o sentido de “aguarde estou à procura de resposta e não me esqueci de si”: B recebeu e guardou a mensagem de A. Não sabe responder e não responde logo. Procura apoio para dar algum retorno a A. A resposta chegará por uma de duas vias possíveis: ou por B ou por terceira pessoa, C. Nesta situação de comunicação, haverá resposta, apesar do silêncio poder ser bem longo, adquirindo o sentido de “aguarde: não me esqueço de lhe responder”. Bastará a A insistir e B explicará que anda à procura de resposta cabal. Acontece, por vezes, embora seja raro haver alguém afirmar a sua ignorância e justificar que procura apoio em quem pode auxiliar. O tempo do silêncio dependerá de C e condicionará a intervenção de B.

 

  • Situação de comunicação com silêncio permanente, assumindo o sentido de “não vou responder”: B recebeu a mensagem de A e guardou-a, decidindo que não lhe irá responder. Opta por esta posição de não resposta devido a múltiplas razões. Estas motivações para o silêncio de B têm de ser interpretadas por A, que poderá reagir de diversos modos, inclusive com insistência e reenvio por, várias vezes, da mesma mensagem, pressionando, no sentido de conseguir uma resposta. Esta situação de comunicação implica atribuir sentidos ao silêncio, que assume variação. Pode ser desgastante para A e nem sempre é viável confrontar B. A ficará sem resposta se não insistir e, mesmo insistindo, isso poderá suceder. Portanto, também não é garantido conseguir resposta através da insistência. Contudo, confirmará que o silêncio de B significa “não vou responder”.

 

  • Situação de comunicação com silêncio total com mentira associada, no sentido de “não digo nada porque afirmo que não recebi nada”: B, depois de receber a mensagem de A, fez de conta que não a recebeu. Não vai responder, alegando não ter recebido a mensagem. Justifica-se, repetindo não ter recebido a mensagem. Na verdade, não quer responder. Nesta situação de comunicação, o silêncio, ou seja, a não reposta de B, terá de ser interpretada por A para procurar os motivos da reacção. Podem ser múltiplos os motivos e o silêncio assumirá, do ponto de vista de A, uma variação interpretativa em função da relação sócio-cultutral com B, se não perceber, à partida, que B mente.

 

  • Situação de comunicação com silêncio, no sentido de “é inútil responder porque não vai resolver nada”: B recebeu a mensagem de A e não quer responder: considera inútil fazê-lo porque não adianta nada, não havendo qualquer solução para a questão colocada. B assume o silêncio, se for questionado por A, e alega uma desculpa qualquer. Dificilmente apresentará os seus reais motivos, explicando-os a A, porque, social e culturalmente, não fica bem a resposta. A terá de aceitar as desculpas e decidir que passo dar a seguir.

 

  • Situação de comunicação com silêncio, no sentido de “não respondo porque não sei.”: B guardou a mensagem que A enviou. Não sabe como responder e não responde. Não assume a ignorância e, sem avisar A, mantém-se sem dar sinal de ter recebido a mensagem. Vai arranjar desculpas sucessivas e não dará resposta porque não sabe o que dizer. Cultural e socialmente, não fica bem assumir que não se sabe dar resposta, sobretudo no mundo laboral. Portanto, aqui, “o silêncio é [parece ser] de ouro”. É preferível calar do que falar.

 

  • Situação de comunicação com silêncio, no sentido de “essa mensagem não é para mim e não vou responder”: Ao receber a mensagem de A, B ignorou-a e não responde porque é competência de terceiros, mas não o vai dizer. A vai ficar à espera e não compreende a ausência de resposta. É, no fundo, o que acontece o descrito em 1).

 

  • Situação de comunicação com silêncio, no sentido de “a resposta é negativa”: B não vai comunicar a A uma resposta negativa. Dizer “não” a alguém, em certas circunstâncias sociais e culturais, não é muito bom. A escolha de B é não a comunicar a A, que permanecerá à espera. Se A insistir, reenviando a mensagem, poderá ficar a saber que a resposta não era positiva. Contudo, obteve-a. Se não insistir, nunca o saberá.

 

Em suma, diariamente, acontece-me esperar por respostas que não chegam e são inúmeros os casos na comunicação social, por estes dias, que vão em sentido semelhante. Depois, pode haver meios lícitos e ilícitos de influenciar terceiros para conseguir resposta. Numa situação de comunicação em que se envia uma mensagem, o que se pretende é obter uma resposta verbal: SIM/ NÃO/ TALVEZ… Portanto, o silêncio não corresponde ao que se espera. Pensando um pouco e após aguardar um tempo razoável, quando a resposta não chega, torna-se imprescindível interpretar a “não resposta verbal”, especialmente nas situações de comunicação escrita, e tomar a decisão de, pelo menos uma vez, reenviar a mensagem, verificando os dados. Por qualquer motivo, poderá não ter chegado a quem se destinava. Após isso, é esperar e ter paciência. Se o silêncio se mantiver, interpretar o significado do silêncio impor-se-á pelas circunstâncias, nas relações sociais e nos ambientes culturais em que se está. Os sentidos linguísticos implícitos do(s) silêncio(s) como não resposta são múltiplos e revelam variação: “não recebi”; “não sei”; “estou ocupada”; “estou à procura de resposta”, entre muitas outras possibilidades. Comprova-se, na prática, que raramente “quem cala consente” e nem sempre “o silêncio é de ouro”, em especial para quem aguarda a verbalização de uma resposta.


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