“Liceu” presta homenagem a Eça levando ao palco as personagens exuberantes do Realismo

Na manhã de hoje, a Escola Secundária acertou o relógio do tempo para viajar até ao passado, deleitar-se com o século XIX e convocar Eça de Queirós e o seu imortal romance Os Maias a desfilar numa verdadeira passarela no átrio do emblemático “Liceu”. Ora Eça! Como será possível suspender a corrida vertiginosa e implacável do tempo? Justamente como Eça o fez: através de uma imaginação prodigiosa, do monóculo fincado no mundo e da verve crítica sobre a sociedade do seu tempo que pulula no quotidiano do século XXI.

Sob o olhar de um júri criterioso, alunos e professores incarnaram as célebres personagens do romance Os Maias, numa apelo veemente à importância da leitura ou releitura da clássica obra. As Marias de Monforte, Marias Eduardas e Raquel Cohen e as sedutoras e cocotes espanholas, por entre sombrinhas, rendas, joias, glamour e espartilhos de sensualidade caminharam pelos jardins da Jaime Moniz, autocaracterizando-se com abundante e inesquecível adjetivação expressiva e irónica de Eça. Ao lado, sempre eles, os cavalheiros, os Pedros e Carlos da Maia, trajando a rigor, de bengala e bigode bem encerado, de sobrecasaca e chapéu, também mostrando brios de janotas, revivendo a sociedade oitocentista na crítica cerrada Queirosiana aos vícios do adultério e das paixões desenfreadas, mesmo nos meios aristocráticos do politicamente correto. Nesta dicotomia entre o ser e o parecer, prevalecia naturalmente o gostinho pelo pecado, o olhar matreiro ao fruto proibido, enfim, numa expressão, vencia sempre a ditadura do prazer sobre os valores conservadores da sociedade burguesa oitocentista, fascinada pelas modas estrangeiras.

A presidente do conselho executivo, Ana Isabel Freitas, abriu este encontro com o passado, bem vivo no currículo de Português do ensino secundário, apoiando a iniciativa, mas fazendo também votos para que dela resulte uma efetiva leitura de uma obra que é um monumento da cultura portuguesa oitocentista, por vezes tão negligenciada, porque vencida pelas escolhas de uma literatura light.

A pesquisa histórica das toilettes foi feita a dedo por alunos e professores, com o apoio imprescindível do conselho executivo, e eis que, no átrio do “liceu”, o júri, composto por Jorge Moreira de Sousa, Fátima Marques, Sandra Assunção e Carla Rodrigues, ficou com a ingrata missão de escolher os melhores.

Evocando as importantes soirées do romance, houve tempo também para unir ao traje a música da época, um pezinho de dança, debaixo de um sol primaveril a convidar ao diletantismo das personagens, umas mais cocotes do que outras, pois claro. A música – a cargo do grupo de Guitarra e os Cordofones Madeirenses, orientados pelo professor Marco Ribeiro – deu lugar à valsa dos Patinadores, de Émile Waldteufel, orientada pela professora Fernanda Coelho.

A encerrar este reencontro vivo com o passado, a Escola viajou também até à comunidade. Alguns dos participantes desfilaram  pelo Centro Histórico do Funchal, reavivando memórias e despertando olhares curiosos sobre uma época distante mas sempre convocada ao presente, pela mão imprescindível da boa literatura. Abram alas ao Eça! A literatura de qualidade é perene e permanece viva nos quadros reais deste tempo, sempre à espera de um leitor seletivo, atento e crítico.

 

 

 

 

 


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