A ordem do dia

A actual ordem do dia quase nos bloqueia em relação aos muitos apelos do mundo. Absorve de tal modo as consciências ou inconsciências dos povos que a existência da guerra, o estado do planeta, os direitos universais da convivência humana sobejamente proclamados pelas políticas mais recentes, tudo isto se relega para um plano secundário, porque a ordem do dia sendo, apesar de tudo, mundial, é somente um «mundial de futebol». Sem querer menosprezar a fonte de prazer que o desporto comporta, há outros mundiais que me motivam e me despertam para a cronica de hoje.

Pode parecer irrisório dizer que uma simples canção me acordou hoje para uma realidade profunda, ou que evocar uma canção para traduzir um contexto de importância vital será uma atitude pueril. No entanto os cenários do mundo, quaisquer que eles sejam, apelam sempre a uma reflexão, à expressão dum livre pensamento.

«What a Wonderful World» suou esta manhã aos meus ouvidos, como uma bênção de paz, ou um grito solidário de amor por um mundo convulsionado, que ainda  abriga uma saudável e exemplar memória de bem fazer. Numa América, apenas há cem anos, dominada pela segregação racial, um menino negro oriundo duma família pobre, num meio de prostituição, que vagueava, abandonado, pelas ruas de Nova Orleães, encontrou aqueles que seriam seus pais adoptivos, um casal de judeus, eles também vítimas de marginalização criminosa, que o transformaram num ser humano extraordinário, um cidadão do mundo. Através duma voz particular de timbre roufenho, e dum vibrante trompete, espalhou mensagens de grande impacto social. Mal amado pela incúria dos xenófobos, foi pouco a pouco vencendo obstáculos pela resiliência dum coração bom e a afirmação do talento para executar o seu típico jazz. Duma alegria quase ingénua, e um  sorriso largo de palhaço, atacava violentamente os instrumentos de sopro, incluindo cornetim e saxofone com uma veemência fora do vulgar.

A História é uma «velha senhora», paciente de muitas tribulações, e a conquista e formação do chamado «Novo Mundo», conta com enormes conflitos e tormentas, até que que se estabilizasse a vida das cidades e a sobrevivência dos seus habitantes. Assim aconteceu com Nova Orleães, na época das várias migrações chegadas da Europa e da África. A incidência negra prevaleceu no desenvolvimento da cultura desta região, cuja nota relevante é a expressividade do jazz e das suas variantes.

Proveniente duma matriz africana, o jazz alargou-se a toda a comunidade de escravos negros que contribuíram para a economia americana nos grandes campos de algodão, no início do sec.XX, constituindo uma forma de expressão generalizada, traduzida em canções de trabalho, toadas tristes que reflectiam a vida difícil e angustiada dos trabalhadores. Eram os blues, por inerência à cor fria do azul, que, sinestesicamente, significava tristeza e abandono.

Os blues apelavam muitas vezes à clemência de um Lord,  um Senhor misericordioso, única esperança de libertação da  condição escravizante a que eram sujeitos e a força destas evocações continua a atrair os amantes desta modalidade musical e a comover os mais sensíveis às manifestações culturais dos povos.

O rapazinho perdido nas ruas, nascido num bairro sórdido de Nova Orleães, cuja única riqueza era o  inseparável trompete, que sempre citava como um dos seus maiores bens, sobreviveu à Grande Depressão dos anos trinta e encheu o mundo com o poder da sua música, na primeira metade do século passado. Com sessenta e três anos ao actuar no auge do music hall, com a sua banda, destronou os Betles que se mantinham no top da classificação mundial. Melodias como « When The Saints Go Marching In» , «Hello Dolly», « What a Wonderful World» ficaram nas memórias de todos os que viveram nessa época  e hoje as recordam com aquele efeito de «retorno» feliz a um tempo novo, em que a música adquiria um caracter mensageiro, antes da música de protesto que caracterizou o pós-existencialismo.

A mensagem de What a Wondeful World, surgiu já aos jovens de então como uma ironia, mas o velho Pops, como lhe chamavam, respondeu com a «parábola dos dois lobos», traduzida à sua maneira. Esqueçam o lobo mau do mundo, alimentem o lobo bom:

«Alguns de vocês, jovens, têm-me dito: Ei, Pops, o que é que você quer dizer com «Que mundo maravilhoso!? Que tal todas essas guerras por todo o lado, e quanto à fome, à poluição, isso também é assim maravilhoso? Parece-me que não é o mundo que é assim tão mau, mas o que estamos a fazer com ele. Tudo o que estou dizendo é: Veja que mundo maravilhoso seria se apenas nos dermos uma oportunidade. Love, baby, love. Amor, meu bem, amor; esse é o segredo. Se muitos mais de nós amássemos, resolveríamos muitos problemas. Então este mundo seria algo extremamente bem sucedido. Isto é o que o velho Pops vem dizendo.» São as palavras de Louis Armstrong na época distante da primeira metade do sec, XX.

Embora o mundo continue mal sucedido e, sobretudo por isso, ao estabelecer a ordem do dia, faz-me bem ouvir, logo de manhã, no timbre particular de Louis Armstrong, nessa ternura que se desprende da sua voz rouca, «What a Wonderfull World».!


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