Óbito do sonho aéreo ucraniano

Há dias os ucranianos publicaram um vídeo dos restos do defunto Antonov 225 a serem ingloriamente rebocados para fora do hangar de Hostomel, o último lar e casa mortuária. Antes rebocado por um trator ligado a uma lança, agora por um veículo militar preso por um cabo de aço como se de um monte de entulho se tratasse.

Restos do An255 a serem rebocados (Crédito: Antonov)

Do cockpit nada resta, apenas uma massa disforme de metal, nem se vislumbram cadeiras nem instrumentos. A chapa no nariz está tão crivada de balas, que nada teria escapado mesmo sem se imolar o conteúdo. Dá ideia de “spray” de balas, maldosamente aplicado por soldados rasos. Outras imagens mostram a zona superior, essa também um queijo suíço de estilhaços de bombas. Realisticamente aproveitar-se-iam alguns dos motores.

Motores Ivchenko-Progress D-18T no An225 (crédito: Antonov)

Os poderosos Ivchenko-Progress D-18T são usados também nos An124 da Antonov Airlines, cinco dos quais se salvaram e estão em Leipzig na Alemanha.

Estes cinco, dos sete An124 que compunham a frota, ainda estão a ser operacionalizados pela Antonov para voos de carga, mas severamente limitados em meios de manutenção dado que a sua base é o arrasado Hostomel. A fábrica dos motores fica em Zaporizhzhia, cidade recentemente atacada pelos invasores. Alguns outros An124 operados pela companhia russa Volga-Dnepr foram arrestados na europa e américa do Norte por ordem do tribunal. Se isto implica serem entregues aos ucranianos para uso comercial, já não é tão claro.

Os 3b€ que o presidente ucraniano clama serem o custo de reconstrução do An225 são totalmente irrealistas. A capacidade de engenharia desapareceu. Mesmo que houvesse diagramas e planos, os engenheiros que o desenharam já há muito estarão reformados e não haverá nem meios fabris de assemblagem, e muito menos fabricantes dos pequenos componentes. Especialmente se de outras repúblicas da ex-URSS. O mesmo se aplica à lunática ideia de Putin prosseguir com o fabrico em série do Tupolev 214, ou russificar a 100% os outros modelos.

Este artigo é o óbito efetivo desta histórica aeronave e faz subir um lugar o A380 como a maior aeronave (em volume) em operação, mas que não tem versão cargueira.

O An124, um pouco mais pequeno que o An225, é também muito usado para transportes de grandes volumetrias, como satélites e turbinas de centrais termoelétricas que não cabem em nenhuma outra aeronave. Há cargas que por motivos de segurança têm de ser transportadas de A para B sem serem descarregadas num sítio C,  e não é viável irem de navio. O futuro de toda frota da Antonov An124 é sombrio, quebrada que está a indústria de suporte na Ucrânia, que com engenho mantinha a voar aeronaves com mais de 25 anos.

Especula-se que o Airbus “Beluga” ST, usado quase exclusivamente pela Airbus para transporte de peças entre as suas fábricas, possa dar um passo em frente e tomar mercado comercial.

Airbus Beluga (crédito: Airbus)

Contudo, o Beluga é feito para cargas de grandes volumes, mas puco peso, e não pode ser descarregado pela rampa de carga do próprio avião, necessitando de um loader especial.


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