Qual o momento certo de partir?

O mercado de trabalho nos dias de hoje apresenta diferenças muito significativas face aos tempos do pós 25 de Abril. Os tempos são outros, os sectores estratégicos alteraram-se radicalmente e própria dinâmica do mercado é completamente distinta. Antigamente os postos de trabalho eram vistos quer pelas empresas quer pelos colaboradores como postos de trabalho estáveis, empregos para a vida sendo esta perspetiva transversal ao sector privado.

As grandes empresas do nosso país eram na sua génese empresas familiares que se foram desenvolvendo e na sua grande maioria a carga laboral derivava muito de relações familiares. Avós, filhos, irmãos, tios, netos, sobrinhos transportavam os seus laços familiares para a sua vida profissional algo que era culturalmente aceite do ponto de vista organizacional.

Mas voltemos aos dias de hoje, será que esta realidade ainda se aplica hoje? Será que esta cultura organizacional se perdeu nos tempos? Ou será que ainda subsiste em algumas áreas? Questões de caracter tão amplo merecem uma devida reflexão ponderada e analisada à luz de vários contextos. Assim sendo, vamos por partes.

Nestes novos tempos, a perspectiva dos jovens finalizarem os seus cursos profissionais ou universitários e ingressarem numa empresa para a vida já não é compatível com as dinâmicas do mercado laboral actual. O mercado laboral deve ser analisado à luz de duas óticas: o público e o privado. Ambos coexistem, mas têm especificidades distintas.

No caso da função pública, genericamente existem actualmente três tipos de vínculos, os tão falados recibos-verdes, os contractos a termo e os contractos sem termo com vinculação efectiva ao quadro da função pública. Em termos de estabilidade, os vínculos efectivos com a função pública são encarados como uma fonte segura e de rendimento certo ao longo da vida.

Quanto à questão do sector privado, os recibos verdes são também uma realidade, mas subsiste mais os contractos precários e ainda os contractos sem termo. Apesar de a lei prever a questão que actualmente ao final de dois contractos, ao terceiro o colaborador tem de ser efectivado, muitas empresas optam por renovar o seu staff de forma a diminuir os custos fixos com o pessoal. Mas é aqui que reside o busílis da questão. Será que os jovens encaram o mercado privado como um posto de trabalho? A resposta é claramente não.

No mercado privado, sobretudo com o aumento das novas tecnologias a dinâmica laboral tem vindo a estar muito mais competitiva e dinâmica. Os jovens entram nas empresas com a lógica de adquirir o máximo de competências possíveis, efectuar o seu desenvolvimento pessoal e profissional e estarem sempre prontos para dar o próximo passo.

Outro grave problema que o mercado enfrenta são as questões de valorização profissional dentro do seio das organizações. Muitas empresas, sobretudo as de grande dimensão aplicam tabelas salariais fixas de progressão na carreira, o que faz com que quem permaneça na empresa num grande período de tempo acabe por sofrer as progressões tabeladas contrastando com as entradas de colaboradores oriundos de outras empresas que negociam directamente os seus vencimentos.

Estudos indicam que jovens que mudam com regularidade de emprego conseguem obter aumentos salariais na ordem dos 20 % face aos 4/5 % de progressões internas nas empresas. Esta situação faz com que os jovens com melhores qualificações e desempenho acabem por efectuar um turnover de emprego muito maior de forma a satisfazer as suas ambições. Aqui caímos na questão central será que o dinheiro é tudo na vida de um colaborador? Poderá não ser, mas que a componente salarial representa uma grande componente na decisão de mudar de projecto isso ninguém pode negar.

A questão do incremento salarial poderá ser um factor muito preponderante na altura de tomar a grande decisão, mas claramente não será o único critério de mudança. A necessidade de mudança deriva da estagnação e da falta de desafios profissionais aliciantes.

Nos jovens, vivemos num mundo em constante mudança e procuramos insistentemente novos desafios e projectos, o facto de nos sentirmos realizados com as nossas tarefas, termos um ambiente estável e seguro, coabitarmos numa empresa onde a cultura organizacional  encontre o balanço certo entre o trabalho e a vida pessoal, onde o cunho pessoal seja valorizado e a par disso que as nossas ideias além de ouvidas façam a diferença para o sucesso da organização são a conjugação perfeita para um estilo de vida onde a carreira e a vida pessoal possam coexistir pacificamente lado a lado, com tudo o que tem de bom e de mau!

 

*o autor escreve segundo a antiga ortografia da língua oficial portuguesa*

 


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