A fonte de todos os males?

Faleceu Otelo Saraiva de Carvalho.

Faleceu o Professor Virgílio Pereira.

Imagino que nunca tenham cruzado caminhos. Permitam-me que os cruze.

Otelo foi talvez o mais célebre e celebrado Capitão de Abril, o estratega, o organizador, a cereja no topo do bolo revolucionário.

Devemos-lhe isso. É inegável. Pela sua tomada de posição, pela coragem. Por os ter no sítio.

O problema foi o que veio depois. O seu papel no PREC, como líder do COPCON, nas FP-25. As perseguições políticas, as capturas, os espancamentos. A intimidação e o terror. As maquinações e jogos de poder. Mal feitos, ainda por cima.

Tudo aquilo que não se ensina na escola, portanto. Ou, pelo menos, assim era no meu tempo. Por vezes, os meus manuais de História lembravam-me os contos de fada. Este conto rezaria assim “uns bravos militares derrubaram o regime fascista, sem derramar uma gota de sangue, substituindo balas por cravos”. Até aqui tudo muito bem. Para depois acrescentar “os militares depois instauraram um regime democrático e todos foram felizes para sempre. FIM.” Com tudo o resto por preencher nas entrelinhas.

Otelo, de comportamento errático – diria Ramalho Eanes que tinha o coração perto da boca – e inclinação radical, nunca foi apologista de um regime democrático, de voto livre. Arrisco mesmo dizer que quereria um Estado ainda mais Novo, à esquerda e não à direita. Com mais semelhanças do que diferenças.

Dizia António Barreto, no Público, que “Se Abril nos deu a liberdade e a democracia, foi apesar de Otelo e não graças a Otelo.”

Que frase. Que frase.

Ficava embevecida a ouvir António Barreto nas aulas de Sociologia do Direito e, ao lê-lo, relembro-me diversas vezes do porquê. Talvez ter-me dado 20 valores na cadeira tenha ajudado a apreciá-lo tanto. Mas apraz-me pensar que é uma questão de pura e abnegada admiração intelectual. Com uma ligeira pontinha de vaidade.

Voltando a Otelo. Começou tão bem. Acabou tão mal. Terá sido o poder que o corrompeu, o inebriou?

O poder corrompe, ouve-se dizer amiúde.

Não consigo concordar. Tal como não concordo com outro ditado, o do ladrão de ocasião. Quem não concebe a ideia de ser ladrão, não o será nunca. Nem que a ocasião se lhe ofereça em bandeja de prata.

O professor Virgílio Pereira é falado na minha casa desde que me lembro. Foi professor da minha mãe na Escola Industrial. Não só um bom professor, como uma excelente pessoa, sempre a ouvi dizer.

Não era incomum a minha mãe falar dos seus professores, mas acrescentava de imediato o relato das partidas que lhes fazia, desde bichos nas secretárias a agulhas nas cadeiras. Na minha cabeça literária, converti-a na personagem travessa de um qualquer livro da Enid Blyton.

Do professor Virgílio só boas lembranças. Só elogios. Nada de partidas. Teria de ser mesmo uma pessoa excecional, pensava eu e, por causa disso, no meu imaginário infantil, era detentor de uma aura especial.

Aura que não se desfez, como acontece com a generalidade dos heróis de infância. Nunca o conheci nem falei com ele. Nunca sequer devemos ter estado no mesmo espaço físico.

Mas admiro-o. Como tantas e tantas pessoas o admiram. De vários quadrantes, cores e espetros políticos e sociais.

Reconheço-lhe a integridade, verticalidade e hombridade que transpôs para a sua vida política.

Um Humanista. Um servidor. Um Senhor.

Uma boa pessoa.

A epítome do que deve ser um político.

Teve poder, tal como Otelo. Noutro nível. Em circunstâncias completamente diferentes, é verdade.

Mas não é a dimensão ou o contexto do poder que releva. O que releva é a essência por detrás do poder.

O poder não corrompe o que é incorruptível.