Que não se apague a Luz neste Natal…

Nas viragens de ano é usual traçarmos objetivos, metas e idealizar o futuro. Reflectir faz parte. Faz parte do caminho, daquele que fazemos ao longo do ano, do que nos sai da alma e do que nos sai do corpo. O caminho faz-se de altos e baixos e se há coisa que este ano nos veio pôr a nu, foi isso mesmo. Foi expor as nossas fraquezas, foi pôr-nos à prova, foi testar os nossos limites. Foi vivermos o desconhecido. Vivermos sem rede, sem protecção e sobretudo sem preparação. Ninguém estava preparado para o que aí vinha. Mas tivemos todos de aprender. Aprender juntos.

2020 fica para a história, talvez não pelos melhores motivos, mas muita coisa fica mesmo quando parece não restar nada. Dezembro marca o início de uma quadra especial. Uma quadra que vive da magia, da azáfama, das luzes, das decorações, dos concertos, dos espetáculos, dos convívios familiares, dos jantares com os amigos, das pessoas, da amizade, do amor, da fraternidade, da união, da solidariedade, da harmonia, da partilha e da paz. O Natal é tradicionalmente uma época onde se reúnem à mesa milhares de portugueses para juntos celebrarem esta Festa.

Mas será que em 2020 isso será possível? A minha resposta, por muito que me custe, terá de ser não. Neste ano particularmente difícil, onde vivemos assolamos por uma pandemia sistémica à escala global, teremos de nos adaptar à nova realidade. Uma realidade que parecia distante no início do ano, mas que a par e passo materializou-se numa certeza. Este ano teremos de ter todos um Natal diferente. Um Natal seguro para que não hipoteque os Natais futuros. Que todos nós sejamos agentes de saúde pública e actuemos com consciência. Faço um apelo aos mais jovens: pensem nos vossos entes queridos. Que neste Natal passemos todos em casa, que não se faça grandes ajuntamentos, que não violem as regras impostas pelas autoridades. Que sejamos conscientes, mas que não deixemos de viver o que há de melhor nesta quadra.

Muito se tem falado ao longo do ano das novas tecnologias, de como têm sido relevantes no encurtamento de distâncias físicas. Se há coisa que o covid nos veio mostrar é que é possível estarmos perto mesmo estando longe. Que é possível conviver de forma segura sem pôr ninguém em risco. O meu conselho é que neste Natal, utilizemos as novas tecnologias para quebrar barreiras. Que os lugares da mesa de Natal, possam ser substituídos por smartphones, tablets e computadores portáteis. Que possamos todos conviver de forma diferente, não perdendo o que de melhor se tem: a família!

Em termos económicos, o Natal é uma época particularmente lucrativa para todos os sectores de actividade. A nível regional, esta quadra faz acelerar os motores da economia muito por via do turismo continental e estrangeiro. Neste ano, dadas as fortes restrições vividas nos mercados emissores, o número de passageiros oriundos de países estrangeiros é francamente inferior aos números registados no período homólogo, isto porque muitos países europeus encontram-se em confinamento ou confinamento parcial neste momento. Apesar da Madeira se apresentar como destino seguro para este Natal, existem impossibilidades claras na saída destes turistas. O Reino Unido devido ao facto de ter estado em lockdown até o dia 2 de Dezembro, tem possibilitado a vinda de muitos estrangeiros que tipicamente passam esta época na Madeira. Porém, desde a meia-noite do dia 21 de Dezembro o Governo Português vedou o acesso a cidadãos britânicos, o que se refletirá num rombo demasiado pesado para a nossa Região. Compreende-se que é necessário assegurar a saúde pública, mas temos de perceber que a Madeira vive muito do Turismo e medidas drásticas como esta terão impactos desastrosos no PIB regional.

Esta pandemia terá impactos directos na nossa economia, pois o nosso PIB regional depende muito dos consumos internos e externos que são efetuados. A Região vive muito da dinâmica turística e apesar de nesta quadra ter se apostado nos elementos natalícios possíveis, tais como, o fogo de artifício e as decorações de Natal, existem um conjunto de actividades que continuam com grandes dificuldades de tesouraria devido há falta de clientes. Ressentem-se os hotéis que não apresentam as taxas de ocupação desejadas. Os restaurantes que, por vezes, dispõe de mais funcionários do que clientes. Os operadores turísticos que apresentam fracas taxas de ocupação das suas actividades turísticas. Ressente-se o comércio local, pois existe menos capacidade financeira por parte dos locais e dos estrangeiros para efectuar compras. Ressentem-se as famílias Madeirenses que apesar dos apoios dados pelo Governo Regional vivem em permanente sobressalto com receios de perderem os seus empregos.

Apesar desta calamidade toda, acho fulcral existir um equilíbrio entre as regras de saúde pública e a própria actividade económica. É necessário assegurar a segurança de toda a população, mas não podemos pôr de parte que é a economia que faz mexer a Região. Que é da actividade económica que dependem muitos postos de trabalho. O facto de a vacinação se iniciar entre os últimos dias de 2020 e os princípios de 2021 um pouco por todo o Mundo, faz-nos ganhar algum alento, mas não vivam com a falsa sensação de segurança. A vacinação será longa e precisamos todos de estar cientes que vem aí um ano particularmente desafiante. Que não percamos a esperança e que todos juntos conseguiremos dar a volta. Um Santo Natal e um Feliz Ano novo para todos nós!

 

*O autor escreve segundo à antiga ortografia da língua oficial portuguesa*