Crónica do regresso aos ares

 

Após quatro meses “grounded” devido à pandemia fiz um voo para Lisboa. Muitas variáveis pairavam. Seria seguro? Os números de contágio no continente eram alarmantes por comparação aos da Madeira. Haveria controlo opressivo “Big Brotheresco”? Seria tudo parcimonioso e ineficiente?

À entrada da gare começa o uso obrigatório da máscara, o que se veio a tornar regra do lado exterior também poucos dias depois. Contraste com a experiência dos centros comerciais. Aspeto desolado, parco número de passageiros, e muitas lojas encerradas. Ausência de funcionários de “policiamento covid” um pouco surpreendente. Ao contrário do que se esperaria não existiam milhentos postos de desinfeção nem trincheiras de acrílico a agrilhoar os passageiros. Os “smartphones” e documentos de identificação já não trocam de mãos. Nos postos de segurança é onde, em teoria, o perigo de contágio é maior. Colocar objetos pessoais em tabuleiros que não são desinfetados entre duas passagens, e uso forçoso das mesas para recondicionar os pertences nas malas, são os momentos onde há mais contacto com meios físicos partilhados. Na porta de embarque há um momento em que é preciso baixar a máscara, para identificação fotográfica. À porta do avião um toalhete entregue pela tripulação, e toca a sentar, lado a lado com outros passageiros.

TAP Air Portugal “Clean&Safe” (Autor: José Freitas)

Fui munido de uma embalagem de desinfetante que apliquei no cinto, encostos de braços e mesa. Máscaras sempre postas, só retiradas na altura de comer.

A TAP Air Portugal iniciou o “Buy on board”, a par da Easyjet. Pagando com “contactless” não há justificação para medos. O menu está afixado no “trolley” e não se precisa de tocar na revista para escolher o repasto (a UP desapareceu tal como a da Easyjet).

Menu “Buy on board” da TAP Air Portugal (Autor: José Freitas)

As filas para o WC acabaram. Apenas duas pessoas são permitidas de pé à porta do WC (na Easyjet). Além do registo na app da Madeira Safe há que preencher um impresso a bordo para entregar à tripulação. É entregue junto com um opúsculo de boas práticas de segurança. Ganhei uma caneta porque a tripulação não quis de volta a que me emprestou.

Quem realmente se interesse por aviação vê sempre um ângulo de interesse quando há mudança face ao cenário normal. Ao chegar a Lisboa, é evidente a quantidade de aeronaves da TAP Air Portugal “stored”.  Várias aeronaves da TAP Air Portugal ostentam proteções laranja nos motores, fitas adesivas à volta das janelas, e “pantufas” em pneus.

Airbus A330-941 da TAP Air Portugal “stored” em Lisboa (Autor: José Freitas)

O desembarque foi em autocarro, porque estacionámos num “stand” remoto. Maravilha para se pode fazer a ronda ao metal parqueado. Sem diferenças face ao nominal enjaulamento em autocarros em que quase todos vão de pé agarrados às barras e pegas.  Eram três autocarros para os cerca de 100 passageiros no A320NEO. Ao circular por trás das placas repara-se na ínfima presença de companhias estrangeiras. Chocante o padrão da utilização dos terminais. O outrora frenético e claustrofóbico T2, dedicado às “low cost”, está encerrado. E em frente dele estão vários A330NEO da TAP Air Portugal. A Easyjet e a Ryanair operam do T1, usando manga. A Ryanair costuma tradicionalmente ser alvo de chacota porque, nas raras situações em que estaciona as suas aeronaves junto a mangas, mesmo assim recorre de maneira “forreta” às escadas. Pasme-se, o viajante que poderá, graças a esta pandemia, assistir ao sacrilégio: Ryanair a embarcar na manga em pleno T1. E mais ainda, “bizjets” encostados ao terminal, com direito a mordomia de “pushback”. Luxos.

Dentro da gare do Humberto Delgado, a mesma coisa que na Madeira. Segurança por isolamento em espaço desertificado. O tempo médio de permanência do passageiro na gare deve ser inferior a uma hora. Voos de ligação estão fora de moda e quem faz rotas ponto-a-ponto não tem interesse em passear pelos aeroportos. O silêncio paira. Poucas pessoas, pouca pressa, e poucos anúncios de embarque. Minorados os atrasos, também. A passagem pela alfândega é feita por uma fila com barreira, de modo a manter o distanciamento, mas não mais demorada.

O frenesim no exterior com táxis, TVDE, autocarros e “drop-offs” a cruzarem-se sob o olho atento da PSP sumiu-se. O que é também surpreendente visto o metro ser “vade retro” para a maior parte dos passageiros esclarecidos. Nem buzinas se ouve.

No regresso optei por fazer o teste PCR à chegada. Não faz sentido perder duas ou três horas a fazer um teste em Lisboa (o protocolo de testes grátis no centro de Lisboa entre as 8h e 10h é para esquecer), quando se pode fazer em poucos minutos. Especialmente num voo vespertino. Até dá direito a uma banana e uma garrafa de água, com música ambiente. O afluxo de passageiros é tão baixo que a probabilidade de estarem dois voos a desembarcar exatamente ao mesmo tempo é baixa. O último passageiro a chegar demorará no máximo uns 45 minutos. Cheguei pelas 21h e às 4h30 da manhã tinha recebido o e-mail com o resultado negativo. Pareceu-me tudo muito bem organizado e profissional.