A Casa da Serra

Afinal fechava às cinco da tarde. Chegámos já passava das seis.

Primeiro a mais nova não queria acordar da sesta. Depois o google maps levou-nos estupidamente ao antigo Ti Dorico em vez de me fazer chegar à Casa da Serra. Só uma idiota decide usar o maps para chegar à Serra de Dentro.

Saí de lá frustrada com a porta fechada diante de mim. Como sempre acontece quando os meus planos, calendarizações e agendamentos saem furados.

Fomos ver a minha avó, que é sempre remédio santo.

Puxei-lhe pela língua e pela memória. Dois músculos que, aos noventa e dois anos, tem em boa forma como poucos.

Era ali que a avó vivia, filha. Na Serra de Dentro. Com a bisavó e o bisavô e com os meus irmãos. Viste aquela última casa mesmo lá em cima? Agora aquilo está só nas paredes…

E viviam ali naquele descampado? Sem nada nem ninguém à volta? E viviam de quê?

Pois, da terra, filha.

Da terra, avó? Mas aquilo é um deserto, senhora. Agora, filha. Mas tínhamos muita água. Cereais, legumes e animais. Houve um ano que o bisavô mal podia cultivar com tanta água que estava na terra.

Ao olhar para os montes áridos, nus e ermos, custa a perceber.

Nunca nos faltou o que comer, Graças a Deus. Os teus bisavós eram pessoas de muito trabalho. Tua bisavó, Deus lhe dê o Céu, arranjava sempre alguma coisa. Os anos da Guerra foram os mais difíceis que os barcos não vinham. Mas sempre tivemos comida na mesa. Mesmo que fosse pouca.

E ficavam ali sós? Não, tínhamos vizinhas mais para baixo. Íamos às vezes conversar um bocadinho. Enquanto a avó as identificava pelo nome, a minha mais velha, impaciente, queria saber se não íamos comer uma lambeca. Não ouvi o nome das vizinhas. Mas eram boas vizinhas. Isso eu ouvi.

E todos os domingos íamos à missa. À Vila, avó? A pé? Sim, todo o santo domingo. E às missas do Parto. Houve uma vez, contava entre risos, que o malandro do primo José acordou toda a gente cedo de mais e à meia noite já estávamos na Portela. Aquele maluco, dizia ela com a saudade pouco disfarçada na voz. Depois tivemos que esperar horas para a igreja abrir.

E tinham água? Era preciso ir buscar ao poço lá abaixo. ´Tás a ver este dedo mindinho? Está assim torto de tantas vezes que a bendita lata com água me caiu em cima dele. E era sempre no mesmo, caramba. Parecia de propósito.

E os seus irmãos, avó? Seis homens. E as trigémeas. Essas coitadinhas não sobreviveram. A bisavó já tinha quarenta e dois anos, já era velha quando elas nasceram. Disse ela, sem pensar que estou quase a fazer quarenta e um, mas sempre uma pequena aos seus olhos. Veio uma senhora para ajudar ao parto.

Mas que senhora? Ora, filha, uma senhora que estava acostumada a essas coisas. Naquele tempo a gente não sabia de nada disso. Não nos contavam nada. Eu fiquei ali atrás da porta e só ouvi a senhora a dizer, ainda tem mais um. E logo a seguir, ainda tem mais um. Bem a minha mãe sentia uma de cada lado e uma atravessada, contou-me ela anos depois. Só uma sobreviveu tempo suficiente para ir à Vila ser batizada. Morreu logo depois. Eu rezei. Pedi tanto que ela sobrevivesse. Sempre quis ter uma irmã. A bisavó, Deus lhe dê o Céu, ficou muito abalada, coitada.

E o avô? O avô era vizinho, mais lá para baixo. Ele passava e dizíamos bom dia. Não havia cá mais conversas. Um dia ele veio pedir ao bisavô para casar comigo. O bisavô achou que era muito nova, ainda só tinha quinze anos. Ele tinha dezoito. Mesmo assim meu pai perguntou-me se eu gostava. Eu disse que sim. E foi assim.

Mas como é que o avô sabia que gostava dele, se não podiam conversar? Então, havia os olhares, filha. Ri-me com a naturalidade da sua expressão.

Foi muito bom marido e muito bom pai, disse ela. Muito bom avô, acrescento eu.

Fiquei ali embalada por histórias de pessoas que não conhecia, de tempos idos, difíceis e duros. Paradoxalmente saudosos.  A juventude tem dessas coisas. Ali ficaria muito mais tempo, mas já tinha as duas a perguntar pelas lambecas. Prioridades da idade.

No dia seguinte voltei à Serra de Dentro. Olhei para cima e vi a tal casa que agora estava só nas paredes. Eram mais que pedras agora, aquelas paredes.

Chegámos a horas decentes à Casa da Serra. No museu, materializaram-se objetos e vivências que a minha avó me tinha contado na véspera. Vi(vi) um pouco da história da vida no Porto Santo.

O mentor, o Sr. Lomelino, é o anfitrião perfeito. É filho da Benvindinha, que era grande amiga da minha avó. Seria uma das tais vizinhas de quem não ouvi o nome por causa das lambecas?

Quis ver tudo. Perguntar tudo. Saber tudo.

E depois fiquei a ali perdida a contemplar.

Por momentos consegui ver a minha avó descalça a ir buscar água, os irmãos a ajudar o pai a debulhar, a mãe a amassar. Quase senti os olhares do meu avô.

O Sr. Lomelino quer fazer ali um moinho e ter as crianças a fazer bolo do caco desde a raiz. Fazer todo o processo. Quer reavivar uma tradição.

Precisa de verbas e da vontade pública.

Espero que alguém o faça. Que alguém se chegue à frente.

Um dia quero estar ali perdida a contemplar. Por momentos conseguir ver a minha avó descalça a ir buscar água, os irmãos a ajudar o pai a debulhar, a mãe a amassar.

Sentir os olhares do meu avô a cruzarem-se com os meus.  E juntos vermos as minhas filhas a amassar.


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