

Luís Miguel Jardim meteu mãos ao trabalho, chamou uma equipa de madeirenses para contar parte de uma história insular, Miguel Albuquerque apoiou e a obra nasceu. A noite de ontem foi a estreia do filme “Cartas de Fora”, um verdadeiro hino ao trabalho hercúleo dos rocheiros madeirenses para assegurar a sobrevivência. No fim, por entre os aplausos do público, o realizou dedicou o seu trabalho às filhas, Inês e Alexandrina, e fez também questão de entregar o guião a Miguel Albuquerque.

O público compareceu em força a mais esta produção cinematográfica do realizador Luís Miguel Jardim e aplaudiu, visivelmente emocionado, uma história que partilha agruras de uma vida a dobrar os medos, a saga das levadas e dos penedos, as cartas de chamada que se esperam da Venezuela como a senha de libertação da dor em demanda de uma vida nova, alicerçada no sonho, a fuga à prisão de cada dia, entre rochas, bordados, levadas e muita miséria.

O filme é um desfile de belas imagens da encantadora mas inóspita natureza da Madeira, com particular destaque para os sinuosos e temíveis penedos, com os rocheiros a dar-lhes o rosto e a vida, pela força da sobrevivência das famílias. Uma natureza agreste, o chamamento da morte. Do outro lado, as mulheres, as bordadeiras que colaboram nesta luta diária de sobrevivência, tantas vezes enganados, eles e elas, por quem comercializa o bordado e as pipas de vinho.

O que é curioso nas produções de Luís Miguel Jardim é que, com pouco, faz muito, dando a ilusão da facilidade quando tudo é apresentado. Uma produção que conta também com os apoios decisivos de Humberto Vasconcelos, Fátima Marques e Ana Paula Trindade, esta na pesquisa e redação de textos.
Merece também destaque neste enredo que remonta aos anos 40, o notável desempenho do ator principal, João Augusto Abreu, também responsável pela banda sonora que é outra mais-valia do filme. Um desfile de atores amadores, unidos por relações de amizade e por amor à camisola, dão cor e vida a esta produção que lê a alma dos rocheiros e das suas famílias, com momentos em que a dor anda de mãos dados com o humor. De salientar ainda os retratos hilariantes, com histórias de lana caprina da costureira (Ana Paula Trindade) e do seu vendedor de tecidos (Filipe Sousa), este rendido aos encantos das mulheres e de estômago sempre turbulento.

Figuras públicas madeirenses também aceitaram o desafio de vestir a pele de atores e evidenciaram dotes neste mundo do cinema. Alberto João Jardim, Ireneu Barreto, Lígia Brasão, Manuel António Correia, Carlos Lélis, Rocha da Silva, José Luís Nunes, entre outros, mostraram brios na qualidade de atores.

A fechar o filme e a indicação da ficha técnica, todos subiram ao palco e foi Miguel Albuquerque a deixar o desafio a Luís Miguel Jardim para produzir outro trabalho. Fica o repto numa noite de grandes emoções, com Luís Miguel Jardim novamente a ser chamado a produzir, superando o cabo das tormentas que é executar um trabalho com mais coração do que recursos.
Nos próximos dias, o público poderá ver o filme nos dias 20, 21, 26 e 27 de setembro, 11,12 e 19 de outubro no Centro de Congressos do Casino da Madeira. Mas também no Centro Cultural John dos Passos, Ponta do Sol, a 21 de setembro, 5 e 12 de outubro, pelas 20h30, e a 13 de outubro, pelas 17h30. A película será também exibida no Fórum de Machico, nos dias 2, 9 e 16 novembro, pelas 19 horas. Os bilhetes custam 7 euros e poderão ser comprados nas instalações do JM.
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