Os palavrões nos concertos

icon-henrique-correia-opiniao-forum-fnO assunto do mês, do ano mesmo, aponta para as eleições regionais de 22 de setembro. Para a Madeira, claro. Pensei abordar o assunto, mas na verdade não pensei bem, é daquelas situações em que pensamos e ao mesmo tempo já estamos arrependidos de pensar. E é cada vez mais difícil pensar, pensar bem diga-se.

Não se fala de outra coisa, as pessoas estão “asfixiadas” com tantos milhões pela casa dentro, não escapa nada, os motoristas de matérias perigosas já devem estar mil vezes arrependidos de não terem vindo para a Madeira negociar. É um vê se te avias nesta luta ao milímetro, ao cêntimo neste caso. Classes satisfeitas, associações e clubes garantidos, novas direções regionais, empresas das melhores do mundo que nem parecem as micro que são e que pagam ordenados mínimos a funcionários para fazerem 14 e 15 horas sem custos acrescidos, temos tudo do bom e do melhor e ainda por cima disso há promessas de resolver a habitação até 2026, de tal modo importante que durante três dias não deu outra mensagem, certamente não por falta de assunto, mas por ser uma matéria que entra melhor se repetir várias vezes. Por isso, quanto a governos, venha quem vier, está prometido o céu na terra.

É um fartote, por isso não vale a pena abordar se ainda nem chegámos à campanha propriamente dita e já o povo anda num estado de ansiedade a ver passar os políticos à porta, sentados num muro de pedra, com pedaços caídos, que assim que chega o dia 23 já ninguém os apanha nem a passar quanto mais sentados. O muro cai de podre à espera. E depois, são aqueles quilómetros percorridos em túneis, à moda antiga que até Jardim sentiu “arrepios”, além de saudades. Foi um “querido mês de agosto” para muitos políticos. Por falar em querido, nem vou falar do cartaz de uma inauguração, desculpem, de uma visita melhor dizendo. Afinal, não é um ciclo, é um círculo.

Já disse que pensei falar das eleições, da política em setembro, mas não vou perder tempo com isso. Vamos ao que realmente interessa. O assunto a abordar, hoje, tem a ver com questões mais importantes, pelo menos na minha perspetiva, do ponto de vista das gerações e da relação que estamos a construir com o mundo do espetáculo. Não é que a política também não seja um espetáculo, mas a informação já está tão cheia que, neste caso, o espetáculo é outro.

Não sei se estou a ficar com idade avançada, se isto é dos tempos e não consegui acompanhar a evolução de pensamento e de comportamento, de educação até, mas faz-me confusão os palavrões nos concertos musicais. Um dia destes, ouvindo uma rádio de âmbito nacional, à noite, numa estação patrocinadora de eventos de verão, tive o “prazer” ou a “infelicidade”, já nem sei, de ouvir uma artista, dizem que das novas e das boas, atirar vários palavrões seguidos que eu até fiquei atordoado por segundos, tantos os que a dita “percorreu” com incentivos e gritos da assistência, maioritariamente jovem. Podia ser as minhas filhas até, na altura delas, hoje já estão numa faixa etária diferente, mas por acaso neste particular não eram, eram filhos de outros pais e mães, uma maioria efusivamente entusiasmada com aqueles “incentivos” vindos do ídolo que me dizem chamar-se Blaya. E que não é caso único, há muito mais e até nas letras das canções. Está bonito, está.

Não tive tempo de reter a música, concentrei-me mais nos palavrões, não por desconhecer o significado, não por desconhecer que os jovens, todos, já sabiam o significado, mas muito mais por ficar consciente que, hoje, as fronteiras são cada vez mais inexistentes e as barreiras também. Não há reservas e como todos já sabemos o que significam os palavrões, então já podemos dizer à vontade esteja quem estiver, seja onde for. Manda-se o respeito à malvas, os miúdos precisam de incentivos dos seus ídolos, além da música, precisam que eles falem mal, que falem mal entre uma cerveja, um shot e não sei se um “chuto”, dizem-me que agora se chama interatividade com o público. Já pensei que, um dia destes, vou andar pela rua a interagir com as pessoas mandando todos para um sítio a cada metro. Alguns até apetecia mandar a cada centímetro, mas isso seria uma história para outra crónica.

Não gosto disto. Contam-me, também, que recentemente, na Madeira, houve momentos assim. Desconhecia que isto já andava por este patamar do “tudo nu linguístico”. Não sei a razão pela qual estou surpreendido, não devia estar. No fundo não estou, o que estou mesmo é desiludido e a alertar, mesmo que seja só isso, para a importância de pararmos para alguma reflexão, pensarmos um pouco o que queremos para a sociedade, o que pretendemos com este “vale tudo”, a piada que achamos com as piadas do Fernando Rocha, esquecendo que ao mesmo tempo permitindo e banalizando alguns aspetos que têm a ver com a convivência em sociedade, aquele mínimo que ensinamos aos filhos e que vai caindo por terra com aquilo a que chama “abertura” e que eu acho tratar-se de uma selvajaria social.

Quando numa outra vertente musical, o então pequeno Saúl cantou o “Bacalhau quer alho” ou o grande Quim Barreiros cantou e canta a garagem da vizinha ou escreve “Tina imagina se eu cozinho com o pau lá dentro” ou outras músicas que dão a entender situações que a escrita não expressa na realidade, já houve quem se mexesse na cadeira e não achasse muita piada, tinha dias. Mas para a diversão, sobretudo em festas de estudantes, dava um outro ar de graça chamar ao bailarico um cantor desta natureza. E no fim de contas, preservava alguma “fronteira”, ainda que mínima, deste relacionamento artista/público. É verdade que é “picante”, é desastroso de algum modo, mas ainda assim passa por aquilo a que chama “entre os pingos da chuva” da linguagem.

Agora, não. Sobe uma artista ao palco, grita e manda tudo para aquele sítio. Não está subentendido, manda mesmo com todas as letras. E a plateia vai mesmo, de bom grado. A interação perfeita. Fico pasmado só de observar, mas a maioria ali ao lado, quando confrontada com esta minha apreensão/tensão/preocupação, responde com um “agora é assim” e diz que nenhum dos miúdos da assistência fica influenciado por isso, já tem a sua formação feita e não é mais ou menos um palavrão que tem influência no seu comportamento. Paga-se e bem para ouvir aquilo.

Acredito que agora seja diferente. A modernidade chegou à educação, a de casa, de forma muito discutível. E tanto nos cafés como nas praias e mesmo nas ruas, já é frequente assistirmos a conversas, entre jovens, alto e bom som, que pelo menos a alguma gente da minha idade provoca algum incómodo. Não disse nada e eu é que fiquei “vermelho”, como se dizia na minha adolescência.

Acho que já não consigo adaptar-me. E daqui para a frente, a tendência é piorar. Fico no meu canto a observar, mas prometo fazer um esforço para acompanhar essa interatividade muito ativa.

Um dia destes, dou por mim num concerto só para mandar alguém para o tal sítio. Pode ser que fique mais aliviado…depois é uma questão de hábito, já posso fazer isso em todo o lado.

Boas eleições. Seja com certo rumo ou com rumo certo…