
Emanuel Jardim Fernandes, 75 anos de idade, advogado, fez um percurso na política e no mundo empresarial, foi líder do PS-Madeira, cabeça de lista nas eleições regionais entre 1984 e 1996, num período particularmente difícil para quem fosse oposição. E para quem liderasse essa mesma oposição, pela responsabilidade acrescida de assumir o combate direto para fazer quase o impossível. Só dava mesmo era Jardim, mas outro, o Alberto João Jardim, de carisma reconhecido, de liderança “musculada”, afirmativa, pressionante, para dentro e para fora. Tanto era difícil que foi mesmo o que parecia certo, impossível chegar lá para quem fosse oposição. O chegar lá, leia-se, chegar ao poder.
Político, advogado e empresário fala em “luta desigual”
Jardim Fernandes lutou pelas convicções, consciente das dificuldades, sempre numa perspetiva de, um dia, poder protagonizar a mudança. Confessa que “não foi fácil, mas com ajuda dos camaradas e madeirenses, nunca baixei os braços, sendo uma luta desigual”. Considera que a sua vida empresarial não lhe tirou tempo nessa missão política. “Apesar de estar envolvido na vida empresarial, na Madeira, nos Açores e em Cabo Verde, encontrei sempre tempo para a política, para a família e para os amigos. Era uma questão de organização. Dormia pouco, mas tinha o privilégio de acordar cheio de energia”.
Afirma, sem vacilar, que nunca se arrependeu da vida que desenvolveu, em vários quadrantes. E para quem pensa que não teve tempo para a sua profissão, lembra que exerceu. “Fui advogado e trabalhei alguns anos no escritório do Dr. Semião Mendes, substituindo-o, muitas vezes, em julgamentos vários, designadamente no Funchal e na Ponta do Sol. Fui, ainda, advogado de um grupo alemão, que construiu um hotel no Porto Santo”.

Sempre pensei que podia fazer algo mais
Quando fala de camaradas, um termo associado à esquerda mais à esquerda, fala dos quadros preenchidos com o possível em função de uma certa eternização de um combate complexo. O princípio de que é mais fácil recrutar para quem está no poder. Mesmo assim, considera que o recrutamento desses mesmos quadros “não era assim tão difícil, havia gente dentro do PS, mas também dentro da própria sociedade madeirense, que não concordava com o estilo arrogante de Alberto João Jardim, que tinha uma máquina partidária e o próprio governo a apoiá-lo partidariamente”.
Hoje, a esta distância dos acontecimentos e num patamar de tranquilidade em termos de análise, revela que chegou mesmo a pensar que seria possível ir além do papel de oposição que, por si só, já era duro face ao contexto e protagonistas. “Sim, sempre pensei que podia fazer algo mais, com todo o meu empenho e dos meus camaradas, envolvendo o entusiasmo de todos. Não foi por falta de empenho”.
Com meios escassos para campanhas recorri a amigos e empresários….com discrição
A política de “ontem”, como quem diz no tempo de atividade política de liderança de Jardim Fernandes, e a política de “hoje”, com novos contornos e estratégias, são realidades que o nosso entrevistado nem admite comparar. “Não tem nada a ver. Os tempos eram outros. Os meios para as campanhas eram escassos e eu é que tinha de resolver o problema, recorrendo muitas vezes a amigos e empresários, com discrição”.

O atual presidente do PSD não usa as mesmas armas que Alberto João usava
Também considera não haver comparação relativamente ao que era Alberto João Jardim e ao que é Miguel Albuquerque. “Mudou muito, no sentido em que o atual presidente do PSD não usa as mesmas armas que Alberto João usava para esmagar a oposição, o que não acontecia em relação ao PS porque o PS não permitia. Mas realmente, hoje, mudou o estilo e a estratégia é muito diferente”.
Mas para o PS parece ter chegado o momento da viragem política na Região, há uma mobilização no sentido dessa alternativa, que naturalmente estará confrontada com um PSD que pretende manter a governação de mais de 40 anos. Será uma luta difícil, mas acredita que chegou a hora do PS, num modelo que apresenta um candidato a presidente do Governo que não é o líder do partido? “No meu tempo, os líderes eram candidatos a presidente do Governo Regional, como hoje acontece a nível nacional e nos Açores. Mas como socialista convicto, respeito a decisão e espero que o candidato vista, efetivamente, a camisola do PS”
Há um PS tradicional e o outro? “Concordo”
Quando questionamos Emanuel Jardim Fernandes sobre a eventual existência de dois lados neste processo de candidatura do PS-Madeira, um mais tradicional, outro mais próximo de Paulo Cafôfo, obtivemos como resposta uma só palavra: “Concordo”. Não diz nem mais uma palavra. E logo lembrámos o facto de ter apoiado Carlos Pereira na luta contra Emanual Câmara na corrida à liderança do partido, que viria a resultar na vitória do atual presidente da Câmara do Porto Moniz e na candidatura de Cafôfo à Quinta Vigia.
“Sempre apoiei Carlos Pereira, pela sua competência, reconhecida a nível da Assembleia da República, mas também porque foi o único líder do PS-Madeira que nunca foi candidato nas eleições regionais”.
Teria optado por menos betão, mais saúde, mais habitação
Falando de estratégias e olhando o desenvolvimento operado na Madeira durante todos estes anos, Jardim Fernandes confessa que “provavelmente teria optado por menos betão, mais saúde, mais habitação e melhor qualidade de vida para os madeirenses e portosantenses. A Madeira e o Porto Santo precisam de mais desenvolvimento.
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