Adeus, Comandante Niki Lauda

Os láureos como piloto de F1 do falecido Niki Lauda são amplamente conhecidos pelo público. Rever a película “Duelo de Rivais”, que relata a rivalidade com o seu “nemesis” James Hunt é obrigatório.

O que muitos terão pouca ou nenhuma noção é o seu papel na aviação, e muito menos que voou para a Madeira como comandante de Boeing 737.

O Comandante Lauda era um piloto de automóveis de competição, que invulgarmente, juntava a mentalidade de vencedor e vontade competitiva, ao culto da segurança. A F1 tem uma taxa de acidentes por quilómetro bastante elevada, e na altura em que ele correu, os níveis de segurança regulamentados estavam nitidamente abaixo da fasquia da realidade atual. Tal como se vê nos instantes finais do filme, o Cte. Lauda transita para um negócio de operação de jatos privados, que ele mesmo é capaz de pilotar. E deixa a mensagem do valor da segurança a James Hunt, uma pessoa com perfil totalmente oposto, com um fulgor latino, a gozar cada momento da vida como se fosse o último.

A Lauda Air Luftfahrt AG (Lauda Air) foi criada em 1979, tendo ele adquirido a licença de outra companhia chamada Alpair. Inicialmente operou em parceria com a Austrian Airlines no mercado doméstico, com Fokker F27, mas rapidamente passaram a lutar ombro a ombro. Em meados dos anos 80 passou a voar jatos BAC-111-500s, da romena TAROM. O sucesso foi rápido e em 1986 já voavam com Boeing 737. Em 1988 deu um passo em frente, adquirindo um muito maior Boeing 767-300ER, para fazer a lucrativa linha de Bangkok. Um desafio muito ambicioso para uma companhia do tamanho da Lauda Air, nessa época.  Por vezes era o próprio Comandante Lauda no “cockpit”, com o boné vermelho, a liderar os voos que os controladores de tráfego aéreo conheciam como “Mozart”.  A Lauda Air, durante a década de 90 passou a voar para a Madeira, e lembro-me de uns amigos austríacos que a minha mãe conheceu nos anos 60 terem vindo cá num Boeing 737 desta companhia.

Há memória de ser o próprio Comandante Lauda a fazer voos para cá.  Anos mais tarde a companhia foi vendida à Austrian Airlines, que a absorveu. Eis então que ele cria a FlyNiki, a partir do que restava da Aero Lloyd Austria. Iniciou operações em 2003 e também visitou a Madeira, tendo sido a primeira “airline” a trazer cá o Embraer da série E170/190. Nos anos primeiros anos desenvolveu uma parceira com a Air Berlin, tornando-se o braço austríaco. Após toda a confusão com a entrada da Etihad no capital, e tombo gigante do grupo Air Berlin, a FlyNiki foi arrastada para a insolvência, em 2018. Eis então que o Cte. Comandante Niki Lauda entra outra vez em força. Em 2018 adquire a Amira Air, uma pequena companhia austríaca que operava jatos privados, e renomeia-a como Laudamotion. Adquire aeronaves Airbus e rotas da falida FlyNiki, e começa a operar para a Eurowings e Condor. Toda a gente esperava que esta companhia se aninhasse debaixo das outras grandes companhias germânicas, tal como as anteriores, sem agitar o “status quo”, e que fosse o entretenimento até á reforma, deste empreendedor.

Um campeão é um campeão. A estupefação foi geral quando dois meses depois, anuncia ter vendido um quarto do capital à Ryanair, conhecida pela fidelidade ao Boeing. As ulrajadas potências germânicas abandonam de imediato a Lauda Motion, com a esperança que falisse. Entretanto o Cte. Lauda encaixou 50 milhões de euros, certamente um negócio muito lucrativo. Até ao final de 2018, a Ryanair adquiriu a totalidade do capital da Laudamotion, e investiu na frota e na imagem. No início deste ano, abreviou o nome para “Lauda”.

O exemplo que mais me marcou de Niki Lauda, foi na investigação do acidente de 1991, com o Boeing 767 da Lauda Air que caiu na Tailândia, após um “reverse” se ativar – por avaria – em voo. Duas centenas de vidas terminadas. A aeronave ficou tal modo fragmentada que os dados para análise se revelaram escassos. A Boeing manteve-se silenciosa quanto a admitir que os pilotos estariam isentos de culpas, e não poderem ser acusados de não terem reagido devidamente numa situação daquele tipo. O Cte. Niki, piloto qualificado naquela aeronave, convocou uma conferência de imprensa onde afirmou que aceitava a opinião do fabricante, se dois pilotos da Boeing lhe MOSTRASSEM EM VOO como se resolvia aquilo, após ativar o “reverse”, com ele próprio lá dentro. A Boeing “meteu a viola no saco” e assinou uma declaração, claro.

Acredito que ainda teremos oportunidade de receber a Lauda na Madeira.