Fotos: Rui Marote
O novo bispo do Funchal, D. Nuno Brás, admite, numa entrevista ao Funchal Notícias, que o caso do padre Martins é “uma ferida muito grande” ainda aberta na Igreja madeirense e predispõe-se a tentar criar um caminho para a sua resolução. Diz pedir todos os dias orientação a Deus sobre a forma de resolver este caso. Defensor intransigente do celibato dos padres e de modo algum apologista do sacerdócio feminino, afirma desejar, por outro lado, uma Igreja mais transparente, inclusive quanto ao seu património e à forma como o aplica; e vê a instituição, antes de mais, como aberta a todos. Inclusive aos homossexuais, que considera poderem ser bons cristãos. Visão bem diferente tem dos pedófilos. Não quer ver padres sacrificados por acusações sem fundamento nesse capítulo, mas diz que qualquer denúncia de abusos sexuais com um mínimo de credibilidade, reportá-la-á à Polícia.
Funchal Notícias – Senhor bispo, da experiência que teve desde a sua chegada à Madeira para assumir as suas novas funções episcopais, que análise faz da situação que se lhe apresenta? Já conseguiu inteirar-se dos dossiers, das responsabilidades que lhe assistem?
D. Nuno Brás – Apesar de não ser a maior Diocese do país, nem nada que se compare, [a Diocese do Funchal] tem uma série de situações complexas, que são, digamos, o normal da vida de uma Diocese. Não são duas semanas que dão para contactar com todas as situações. Tenho passado estas semanas a escutar muito a visão dos sacerdotes, que estão no terreno, nas várias paróquias. E também vários leigos. Já visitei também várias obras. A primeira semana foi mais o “instalar a casa”, os livros e tudo isso… Esta semana foi já toda ela dedicada à actividade pastoral. A Madeira é muito interessante. É de facto a “Pérola do Atlântico”, para além da paisagem. É-o também em termos de pessoas. É muito reconfortante ver o lado humano, o acolhimento dos madeirenses. As pessoas param para me cumprimentar, alguns até param o carro para me saudar, para me dizer que sou bem-vindo à ilha. Quem era bispo auxiliar de Lisboa não estava propriamente habituado a estas saudações, pela cidade… Claro que pelas vilas e aldeias fora de Lisboa havia estes contactos assim próximos…
FN – Não sei se o senhor está consciente, mas já que fala nesse acolhimento, existe uma grande expectativa em relação a si, pelo seguinte, e transmito-lhe o que me tem sido transmitido. É claro que não lhe compete a si julgar, muito menos negativamente, o trabalho dos seus antecessores, mas existe de facto numa larga fatia dos católicos madeirenses a percepção de que os bispos que o antecederam, nomeadamente D. António Carrilho e D. Teodoro Faria, tinham uma postura excessivamente administrativa, oficial, e não tanto de contacto com o povo. O senhor tomou uma iniciativa logo depois da sua chegada, que lhe ficou bastante bem, ao visitar o local de uma tragédia que vitimou uma jovem, na Calheta, uma derrocada. Foi um bom sinal. Mas há de facto esta ideia de que tem havido um afastamento em relação ao rebanho, por parte do pastor. O senhor disse, numa declaração no Aeroporto, à chegada, que “não ia fazer o pino para ser diferente”, mas está consciente de que existem estas expectativas em relação à sua actuação, de mudar um comportamento que durou anos e foi considerado excessivamente institucional?
D. Nuno Brás – Pois, de facto não me cabe a mim julgar o que foi o modo de ser pastoral dos meus antecessores, que foram pastores certamente o melhor que puderam. Obviamente, os contextos também são diferentes. Nem estou a ser bispo do Funchal de uma forma calculada. Não se trata de andar a calcular, vou fazer isto ou aqueloutro para ter este ou aquele resultado… Trata-se da minha maneira de ser, sempre fui assim, e sempre quero continuar a ser assim. Pronto, se as pessoas gostam, tanto melhor. Creio que o bispo tem de ser visto no meio do povo de Deus, o que significa não apenas dentro das igrejas, mas também dentro da cidade, no meio da cidade. Isso significa também dialogar com as várias instituições, quaisquer que elas sejam. Tenho uma vontade muito grande de diálogo com as instituições, mas sobretudo com as pessoas, de estar com as pessoas e de mostrar que Deus está próximo, para as pessoas perceberem que não estão a viver, mesmo no dia-a-dia, nos momentos mais banais do quotidiano, fora de Deus. Havendo um sinal de que Deus está presente, penso que todos ganhamos. Penso que isso é que é ser pastor do povo de Deus. Sempre o entendi assim, sempre procurei fazê-lo, com toda a espontaneidade e naturalidade, também. Penso continuar a andar a pé por toda a cidade do Funchal, sem me querer mostrar, ou ser diferente.
FN – Penso que existe por parte das pessoas a necessidade de algum conforto espiritual em relação, também, a uma série de catástrofes naturais que se têm abatido sobre a Madeira em anos mais recentes, desde aluviões a incêndios, desde quebradas a quedas de árvores… Acontecimentos que têm deixado as pessoas abaladas, pelo número de mortos, pelo inesperado, e pela circunstância, até, de a tragédia da queda da árvore no Monte ter acontecido em meio a uma festa religiosa. Sente que as pessoas têm a necessidade desse conforto?
D. Nuno Brás – Não se trata apenas do conforto espiritual em relação a catástrofes, penso eu. A Madeira, pelas suas características geológicas, pelas características do terreno, obviamente sofre muito essas fatalidades. Mas trata-se de uma necessidade de um estar no dia-a-dia. E não se trata apenas da Madeira, mas de uma realidade da nossa cultura ocidental, europeia, que se habituou, nos últimos anos, a viver sem Deus. Há uns anos fui visitar a Bélgica, durante as férias, e em cada esquina há assim uma imagem de Nossa Senhora, uma imagem de São João Baptista, ou de um outro santo qualquer. O que mostra isso? Que nessa cidade se vive com a fé. A percepção que tenho ao estar em Lisboa, ou outra qualquer cidade europeia, e portanto também o Funchal, é a duma sociedade que se habituou a viver longe de Deus. É certo que, depois, aos domingos, por exemplo, tem o apartado da religião. Ora, eu creio que é precisamente este apartado que… não é desfazê-lo, mas fazer com que ele continue, que esteja presente ao longo de toda a vida, ao longo de toda a semana, de todo o dia. Que os cristãos se habituem a estar sempre com Deus. Que o procurem conscientemente. Também aqui na Madeira existe essa necessidade, de Deus não ser empurrado para um apartado.
FN – Houve, aliás, umas palavras recentes do papa nesse sentido, que foram interpretadas de uma maneira um pouco literal pela comunicação social. Referiu-se que o papa teria dito que mais valia ser ateu do que não ser cristão todos os dias. Ele não disse isso, mas disse de facto que quem vive o Cristianismo deve vivê-lo todos os dias e não cumprir meramente uma função e depois passar o resto da semana a agir contra os princípios do Cristianismo.
D. Nuno Brás – Exactamente, como se não se fosse cristão, não é? Nós não podemos dizer que o Cristianismo é uma coisa para se viver durante aquela hora da missa dominical. E depois, no resto do tempo, vivemos como todos os outros. Não, é precisamente o contrário. O facto de Deus se ter feito homem em Jesus, de Jesus ser Deus feito homem, encarnado, significa que todo o ser de Jesus é Deus, quer dizer, Jesus não era Deus apenas quando pregava; era-o também quando dormia, quando comia com os amigos, quando se entristecia. O que significa isto? O cristão é cristão quando come, quando trabalha, quando se diverte… Não pode deixar de marcar com o sinal da fé tudo aquilo que é a sua actividade quotidiana. Senão, voltamos outra vez ao paganismo, àquela concepção de que “eu dou a Deus aqui uma horinha, e ele que se satisfaça com isso, que de resto faço eu a minha vida”. Isso deu origem a tantos problemas… Não, somos cristãos sempre. É óbvio que depois temos o pecado… a nossa capacidade de pecar… mas não podemos deixar de procurar a santidade. É muito interessante esta última exortação apostólica que o papa Francisco escreveu, precisamente sobre a santidade. Quando ele dá o exemplo daquela senhora que encontra uma outra pelo caminho e que tem vontade de começar a falar mal duma terceira. E que depois diz, não, não vou fazer isso. E o papa diz: isso é santidade. Depois, quando chega a casa e tem o filho que quer que ela lhe dê atenção, e ela não está com vontade nenhuma… mas fá-lo. Isso é santidade. O papa dá uma série de exemplos da vida concreta e do quotidiano.
FN – Eram princípios já defendidos por Sócrates, o da utilidade; antes de me dizeres mal de alguém, interroga-te se isso é útil para mim, se tens a certeza de que é verdade…
D. Nuno Brás – É um bocadinho mais do que isso, porque aqui não se trata de se perguntar se é útil ou não é útil, aqui trata-se de ser. De assumir um comportamento que não é seguramente o de parecer, mas de ser.
FN – Muito bem, mas pego precisamente nessas suas declarações para voltar à velha discussão: não terá havido um afastamento da população em relação à Igreja Católica também por alguma dificuldade de a Igreja se ajustar aos desafios que são colocados às pessoas nos dias de hoje? Isto sem abdicar dos seus princípios…
D. Nuno Brás – O papa Paulo VI tem uma afirmação que é lapidar: o drama do nosso tempo é falta de relação entre o Evangelho e a cultura contemporânea. O afastamento… Isto como aconteceu também noutras épocas, em que isso existiu. E se existiu nessas eras e foi resolvido, também nesta época poderá sê-lo. Mas sim, creio que este afastamento da Igreja enquanto Igreja, não apenas bispos, não apenas padres, mas o povo de Deus… Este afastamento entre Evangelho e cultura quotidiana, valores do dia-a-dia… Sim, esse é o drama da sociedade da Madeira, como portuguesa, europeia, ocidental. Nesse aspecto, creio que África nos dá lições muito grandes. Por exemplo, dos catequistas, que cuidam duma comunidade, que promovem, que ajudam… E quem diz África diz também América Latina, Ásia… A Ásia será, eventualmente, o continente do Cristianismo do século XXI. Mas isso são outras discussões.
FN – A Igreja atravessa também uma crise de vocações, pode dizer-se.
D. Nuno Brás – Apareceu agora um artigo, creio que na “Ecclesia”, a dizer que a crise de vocações em Portugal não é tão grande quanto isso. A mim espanta-me. Eu acho que sim, que há uma crise de vocações.
FN – O actual papa tem de facto rompido um pouco com algumas posições excessivamente estáticas da Igreja, relativamente por exemplo aos divorciados, ao preservativo… Não estou a dizer que alterou a doutrina, mas a atitude dele é de maior abertura.
D. Nuno Brás – Não o fez na doutrina… Agora, qual é a diferença deste papa? É que está próximo das pessoas. É que se aproxima das pessoas, e neste aproximar-se… É muito interessante. Quando estamos com ele, e eu já tive a graça de estar com ele algumas vezes, ele está completamente para nós. Enfim, é uma pessoa que tem tantas coisas, certamente, em que pensar, mais do que estar a ouvir o que um bispo auxiliar de Lisboa tinha para lhe dizer… Mas de facto, quando o papa está connosco, ele está para nós. E esta percepção de que ele quando está connosco não está a pensar noutro problema mais transcendente, mas está ali, connosco… Esta proximidade de Deus que, antes de condenar, escuta.
FN – Ele é talvez mais compassivo.
D. Nuno Brás – É mais próximo. E ao ser próximo, mostra que Deus não está distante. Aquela imagem que marcou o seu pontificado, quando ele se abraça a um doente todo deformado que estava na Praça de São Pedro, fazendo um gesto profético… é de facto o amor de Deus que se aproxima. Antes de condenar, aproxima-se. Os antecessores, o papa João Paulo II, e o próprio papa Bento XVI também tiveram gestos assim, mas talvez tenham vincado essencialmente a doutrina. Este papa, mais do que isso, tem esta atitude de proximidade muito concreta.
FN – O senhor partilha da ideia de que a Igreja devia flexibilizar-se um pouco face aos desafios actuais?
D. Nuno Brás – O Evangelho é o Evangelho. E nós não podemos mudá-lo. Recordo-me duma celebração em que o sacerdote, na leitura do “Magnificat”, citou a passagem “despediu os ricos de mãos vazias e encheu os pobres dos seus dons”. E ele dizia, ah, não, isto não vamos dizer, vamos saltar, porque os ricos também podem [fazer o bem]… Não, o Evangelho é o Evangelho, não se pode cortar porque fere a sensibilidade das pessoas. É intocável. Agora, claro que o Evangelho é anunciado aos dias de hoje com toda a radicalidade, mas também com este anúncio que é sempre o primeiro: Deus ama-te na tua situação, em que tu estás a viver. Qualquer que ela seja. Não há nenhuma situação em que Deus diga “Eu não te amo”.
FN – E nisso inclui-se a homossexualidade, por exemplo? A situação dos divorciados?
D. Nuno Brás – Por exemplo. Deus diz a todos. E este é o anúncio prévio, o anúncio de Jesus, antes de qualquer outro. Para ricos, para pobres, para cultos, para iletrados… o anúncio prévio é este. Deus ama-te, nesta tua situação. E porque te ama, convida-te à conversão. Convida-te a mudar. Quem quer que seja.
FN – Mas no caso dos homossexuais, acha necessário que mudem, de facto? Ou poderão ser bons cristãos mesmo sendo homossexuais?
D. Nuno Brás – Podem ser bons cristãos mesmo sendo homossexuais. Atenção, estou a entender a homossexualidade como uma condição. Depois, existe tudo aquilo que é a conversão, e a conversão interior, e ela é um apelo que Jesus Cristo faz a todos. Mesmo aos cristãos de longa data. É um apelo que Jesus Cristo faz a toda a gente. E toda a gente, é toda a gente.
FN – O senhor bispo citou o Evangelho, mas não é uma questão do Evangelho, por exemplo, permitir que os divorciados comunguem, por exemplo…
D. Nuno Brás – É, é. Em Marcos 10, por exemplo, o Senhor é muito claro quanto ao recasar.
FN – Mas há a vontade de muitos divorciados, de serem de novo aceites no seio da Igreja.
D. Nuno Brás – Mas com certeza, isso não é posto em causa. Isso muitas vezes é que não tem sido percebido. Deus ama-te como tu és. Este amor de Deus a ti, na tua situação, como tu és, convida-te à conversão, a ser diferente, a ser como Jesus Cristo. Agora, depois temos de nos perguntar: e a tua situação, como é? O que é que na tua situação pode evoluir? O que se pode modificar? Qual é o caminho que tu tens diante de ti? E é este caminho que é preciso discernir. E o papa Francisco convida a isso. Primeiro, o anúncio do amor de Deus, depois, o discernimento. E para que serve este discernimento? Para fazer caminho, para progredir. Não podemos dizer: sei que o meu caminho é por aqui, mas prefiro ficar parado. Então não estás a escutar, a perceber este amor que Deus te tem.
FN – Senhor bispo, qual é a sua perspectiva sobre a possibilidade de as mulheres se tornarem sacerdotes da Igreja Católica?
D. Nuno Brás – A minha perspectiva é esta: padre significa “Pai”. As mulheres não podem ser pais, podem ser mães. O que significa isso? Que o ser padre não é simplesmente um título administrativo. Se a questão fosse gerir administrativamente uma comunidade… Obviamente há muitas realidades na Igreja… Veja por exemplo a Universidade Católica. Tem à sua frente uma professora, uma reitora, e já teve antes… De tal forma que eu cheguei, como bispo, a dar aulas na Faculdade de Teologia, durante dois anos, e a dada altura tive como “patroa”, digamos, em questões académicas, uma mulher. Eu, bispo, estava sujeito para as questões académicas, a uma reitora. Sem problema nenhum.
FN – O papel das mulheres dentro da Igreja é bem conhecido. Mas existe este bloqueio em relação ao sacerdócio.
D. Nuno Brás – Em relação ao sacerdócio, não. Porquê? Porque se trata de ser pai. A Virgem Maria nunca foi sacerdotisa, e no entanto todos nós, cristãos, queremos ser como ela. O papa Francisco tem-no repetido muitas vezes. Tem sublinhado aquilo que São João Paulo II chamava o génio feminino. Que não é aceite tantas vezes dentro da Igreja. Isso sim, perfeitamente de acordo. Agora, o génio feminino é o génio feminino, e o génio masculino é o génio masculino.
FN – E quanto ao celibato dos padres? Há quem defenda que hoje em dia já não é necessário…
D. Nuno Brás – O Santo Padre disse-o, há dias. “Comigo essa questão não se põe”. Se o papa o disse… o bispo do Funchal está com o papa.
FN – Prossigo, para pegar numa declaração que fez recentemente aquando da sua chegada ao Aeroporto, para abordar questões que também são da sua lavra. Disse que não era político, nem gestor. Mas ao fim e ao cabo, o senhor tem de ser gestor de alguma maneira….
D. Nuno Brás – E tenho de ser político, de alguma maneira (risos)
FN – Também tem (risos). Principalmente tratando-se das relações com as forças vivas da cidade [sociedade].
D. Nuno Brás – Claro que terei uma intervenção política sempre não partidária, obviamente.
FN – Pronto. Mas coloco-lhe uma questão concreta, por exemplo, em relação à posição como gestor. A Igreja Católica tem património imobiliário na Madeira. E muitas críticas têm sido feitas ao longo dos anos à forma como esse património tem sido gerido. Por exemplo, no caso do Seminário da Encarnação. É um edifício de valor histórico que se está ali a degradar e ao qual não tem sido dada uma utilidade.
D. Nuno Brás – Tenho entretanto escutado o que muitos antigos seminaristas manifestaram, nomeadamente o seu desagrado pelo que foram as soluções eventualmente propostas para o Seminário. No fundo, a questão não é assim tão simples quanto isso. Quem chega de fora e procura inteirar-se desse problema pergunta-se porque é que aquela questão ainda não foi resolvida. Mas depois, de facto, dá-se conta de que há posições que são contraditórias, e que obviamente o bispo tem que escutar. Quando não, depois acusam o bispo de falta de diálogo. Para que serve o património da Igreja? Tem quatro grandes objectivos: a evangelização, a caridade, o culto e o sustento do clero. É para isto que a Igreja tem dinheiro. Quem diz tem dinheiro, tem património. É óbvio que existe depois também um outro tipo de património, a guarda de património cultural. O que é que eu pretendo fazer? Pretendo fazer com que o património que [a Diocese do] Funchal tem, seja usado nestes quatro itens. Claro que é preciso ter discernimento em relação àquilo que é prudencialmente melhor gestão. Vou tentar aconselhar-me com peritos em gestão, e tomar as decisões que forem mais aconselháveis. Queria também sublinhar, em relação ao património cultural, que a Igreja é depositária de um património artístico e cultural muito grande. Não apenas enquanto esse património é para o culto, e expressão da fé, como também é-o enquanto garante de que aquele património não fica nas mãos de terceiros privados, que depois o possam fechar, limitar, como aqueles coleccionadores que compram obras de arte para serem os únicos a contemplá-las. Creio que é muito importante que esse património continue a ser olhado como manifestação de fé, como testemunho da fé dos que nos antecederam, e que continue a estar aberto e à disposição de futuros para que possam ter acesso a ele.
FN – Relativamente ao património financeiro, vou focar um caso concreto, o do legado da D. Eugénia Bettencourt, feito para os doentes cancerosos. Há quem considere que a Igreja Católica madeirense teve pouca transparência na forma de demonstrar a efectiva aplicação desse património para o fim que o testamenteiro afirmava ter sido intenção da D. Eugénia destiná-lo. Gerou-se uma grande contestação em tribunal.
D. Nuno Brás – Não tomei ainda contacto com esse dossier… Portanto não gostaria de estar a fazer declarações públicas que possam pôr em causa qualquer aspecto…
FN – Sim, mas não falta quem critique a Igreja Católica madeirense por não ser mais transparente na forma como apresenta as suas contas. Defendem que devia apresentá-las publicamente, dar conta aos paroquianos…
D. Nuno Brás – A Igreja apresenta as contas àquelas instituições e àquelas realidades que estão previstas. Penso que sim, de qualquer forma, para além disto, quer tem que haver necessariamente um esforço maior de transparência. Não apenas da Diocese e das instituições diocesanas, mas também das paróquias, e de todas as realidades eclesiais. Uma grande transparência. Creio que não há nada a esconder. Espero caminhar por essa senda. Aliás, na mensagem da Quaresma, por exemplo, tem lá o montante que foi recolhido, e aquilo que foi entregue à instituição “Ajuda a Igreja que Sofre”, precisamente no sentido de dizer aos madeirenses que, na última renúncia quaresmal, o montante que foi recebido na Cúria Diocesana foi enviado para apoio à reconstrução das casas dos cristãos na Síria. A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre é uma instituição credível e que está no terreno. Vamos fazer assim. Não será, penso eu, uma questão de ver os itens todos, como por exemplo se foram gastos não sei quantos euros em velas ou coisa que o valha… Mas sim, uma apresentação diante das instituições em que essa apresentação de contas deve ser feita, e depois, de qualquer forma, um… Sei lá, a Cáritas é uma outra instituição, e o presidente da Cáritas já me disse também que o pretende fazer…
FN – Sabe que também a Cáritas madeirense já foi posta em causa, pelo modo como gere as dádivas das pessoas…
D. Nuno Brás – Até por isso. É importante que nos interroguem, e neste sentido vejo as interrogações da comunicação social, como o convite à própria igreja para ser mais evangélica.
FN – Isso é muito positivo, da sua parte. Ainda bem.
D. Nuno Brás – A Igreja é aquilo que é, e creio que é de facto importante caminhar neste sentido da transparência, de quem não tem nada a esconder. É óbvio que depois existem questões administrativas, se a conta X ou Y está aqui ou está ali, que não têm propriamente grande relevância. Mas parece-me importante que cultivemos estas duas realidades. Por um lado, que caminhemos no sentido de olhar a comunicação social… é verdade que às vezes a comunicação social faz isto não no sentido de uma interrogação, mas às vezes também no sentido de um julgamento, e um juízo. Mas é como é. E eu prefiro viver num mundo onde a comunicação social existe do que num em que ela não existe, e a liberdade de comunicação não existe. É importante olharmos para o papel da comunicação social como um papel de quem interroga, e de quem nos ajuda a ser mais evangélicos, a viver mais de acordo com o Evangelho. Por vezes dói. Mas pronto, o Evangelho às vezes dói.
FN – Claro. Eu vou retomar uma questão que já lhe coloquei, aquando da sua chegada ao Aeroporto. Já me respondeu na altura que os casos particulares serão tratados particularmente. Mas, relativamente àquela situação do padre Martins, vamos lá a ver, sr. bispo; isto já vem desde o tempo de D. Francisco Santana. Não há nenhuma possibilidade de se resolver esta situação? Temos um padre que obviamente é querido pela população [da Ribeira Seca], que continua a oficiar estes anos todos, mas que continua suspenso “a divinis”… Não há maneira de resolver isto?
D. Nuno Brás – É uma ferida, uma ferida muito grande. Aquilo que posso dizer é isto: eu estou aberto a encontrarmos uma solução. Não é o bispo que vai encontrar a solução, temos que fazer caminho. A vontade de fazer caminho num encontro. Se chegarmos à conclusão de que ainda não é com este bispo que o caminho se faz, só posso dizer que tenho pena. E posso dizer que todos dias rezo a Nosso Senhor para que ele me ajude a encontrar este caminho. E digo-o com toda a sinceridade. Porque é uma ferida na Igreja do Funchal. E é uma ferida que nós não podemos ignorar. Sei que os meus antecessores tentaram encontrar soluções, não o conseguiram, não foi possível, pelas razões que foram… O que posso dizer é isto, quero fazer caminho, estou disponível para fazer caminho em conjunto, com toda a franqueza.
FN – Um caso que deu recentemente bastante que falar foi o caso do pároco do Monte, padre Giselo, que assumiu a paternidade de uma criança. Isto, evidentemente, é uma situação de incompatibilidade com os votos que ele tomou. A Igreja tem de lidar com estes casos. Entende que estas falhas prejudicam a credibilidade da Igreja Católica?
D. Nuno Brás – Todo e qualquer cristão… o Santo Padre disse-o, creio que na passada quarta-feira. De todo e qualquer cristão, depois do baptismo, é esperado que se comporte de uma forma perfeita. Claro que depois existe a realidade do pecado. E todo e qualquer pecado, até mesmo aquele mais íntimo, e que nunca ninguém irá saber, até pensamentos, ou juízos eventualmente erróneos… isso prejudica a tranquilidade da Igreja? Claro que sim. Os pecados dos leigos prejudicam a credibilidade da Igreja, os pecados dos bispos prejudicam a credibilidade da Igreja, os pecados dos padres prejudicam a credibilidade da Igreja.
FN – Situações como esta lançam de novo a discussão sobre o celibato dos padres, sobre a necessidade de mantê-lo, sobre se isso não devia ser alterado.
D. Nuno Brás – A disciplina do celibato é das disciplinas mais antigas na Igreja. Há mesmo indícios no Novo Testamento. Enfim, não vamos estar agora aqui a derimir questões teológicas. Mas é a disciplina que desde sempre foi a mais contestada, e desde sempre a mais reafirmada. Basta ver a História para ver isso. A contestação de hoje foi a contestação de finais do século XIX, foi a contestação de todo o século XX. E foi já contestação no Concílio de Trento. Se formos a andar para trás, chegaríamos eventualmente ao Novo Testamento… É uma disciplina contestada, mas é também uma disciplina sempre reafirmada.
FN – Prossigo para a última questão, que está relacionada com o assunto que mais tem feito notícia nos últimos tempos, a nível mundial, com a Cimeira no Vaticano, sobre a questão dos abusos sexuais no seio da Igreja Católica. Estabeleço uma comparação com o caso que falámos antes, com o que o padre Giselo cometeu…
D. Nuno Brás – …não tem nada a ver…
FN – Precisamente, porque o que ele fez não é um crime. Já o abuso sexual de menores é um crime, seja na Igreja, seja em qualquer outro contexto. Há declarações do papa neste sentido. Ele aponta uma coisa interessante. A maior parte dos abusos sexuais processa-se no seio da família. Isto de facto é uma realidade, indesmentível e chocante. No entanto, ele disse também claramente que “a universalidade de tal flagelo, ao mesmo tempo que confirma a sua gravidade nas nossas sociedades, não diminui a sua monstruosidade dentro da Igreja”. Porque “está em contraste com a sua autoridade moral e a sua credibilidade ética”. Ora, de facto, isto para a Igreja Católica tem sido um flagelo, com uma grande repercussão em muitas sociedades, e é o assunto que tem posto mais em causa a credibilidade da Igreja enquanto instituição, ao nível mundial. E tanto assim é que o papa convoca esta cimeira, e apresenta estas directrizes de “tolerância zero”, no sentido de a Igreja combater estas situações. Uma recente investigação do jornal digital “Observador”, que me parece séria…
D. Nuno Brás – … aí já podemos discordar…
FN – …não conclui claramente por uma situação de encobrimento, mas insinua-a. Mas porquê? Porque, ao fim e ao cabo, existe uma “trapalhada” relativamente aos dados sobre estes casos e à forma como a Igreja trata estas situações. Dados com mais de duas décadas, por exemplo, já não estão acessíveis, não existe um cadastro, não está tudo devidamente documentado, cada bispo lida com a circunstância à sua maneira…
D. Nuno Brás – Desde 2012 que existem regras na Igreja…
FN – Certo, adoptadas pela Conferência Episcopal Portuguesa. Mas ao fim e ao cabo também acaba por existir uma certa autonomia pessoal dos bispos na forma de lidar com estas situações. E de facto há situações em que, mesmo que não se diga claramente encobrimento, houve um evidente incómodo com a situação, que resulta na tentativa de resolvê-la de formas que muitas vezes não são as mais correctas. Simplesmente mandando um padre para outra paróquia, ou para junto de uma comunidade emigrante, não se resolve o assunto.
D. Nuno Brás – A questão é que muitas vezes aquilo que chega às Dioceses são denúncias anónimas. E umas têm credibilidade, e outras não têm. O bispo não pode chegar à Polícia e dizer “eu recebi esta denúncia”, apenas motivada porque a senhora A não gosta do padre B. E o padre B vê o seu nome em todos os escaparates porque a senhora A não gosta dele. Isso não pode ser. É preciso ver se tem minimamente credibilidade. Tendo minimamente credibilidade, o bispo deve denunciar à Polícia.
FN – Mas não é obrigado a isso, pela lei.
D. Nuno Brás – Pela lei não é, mas pela lei canónica é. Há muitas outras situações [que não apenas as dos padres, onde se verificam abusos sexuais]; os treinadores, médicos, entre outras. Neste sentido, creio que a comunicação social tem ajudado a Igreja a dar o exemplo, a todas estas outras instituições. A Igreja tem dado o exemplo de querer, verdadeiramente, resolver este problema. E assim, de repente, parece-me ser, como instituição, a única que diz “este é de facto um problema, vamos tentar resolvê-lo”.
FN – Mas também levou muito tempo a fazê-lo, assim dessa forma tão clara.
D. Nuno Brás – Os outros ainda não começaram… não é? E nesta perspectiva, acho que é um convite sério não apenas a que a Igreja tome a sério esta questão, mas que toda a sociedade a tome. Quando me dizem que há partidos em países europeus que pretendem legalizar este crime…
FN – Refere-se ao sexo com menores?
D. Nuno Brás – Sim, eu não posso deixar de pensar que isto é uma monstruosidade. E no entanto existem partidos, em países europeus…
FN – E associações pró-pedofilia.
D. Nuno Brás – Exactamente. Neste sentido, a Igreja tem dado o exemplo. Penso eu. Dificilmente? Claro, porque isto são assuntos difíceis. Claro, com certeza, porque é um crime de tal forma monstruoso que é difícil, e obviamente que dói, que fere, claro. Mas vamos enfrentá-lo.
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