Mito, lenda e recriação literária: o contributo de José Viale Moutinho

Leonor Coelho, professora universitária na UMa.

*Docente na Universidade da Madeira/Investigadora no Centro de Estudos Comparatistas (Projeto: Viagem e Utopia)

Em boa hora foi republicado o livro Destruição de um Jardim Romântico de José Viale Moutinho (Editora Afrontamento, 2018). As dezanove narrativas são, agora, acompanhadas por um posfácio “Ensaio: dezanove figurações do insólito”, assinado por Isabel Pires de Lima, no qual a estudiosa salienta o maravilhoso, o fantástico e o enigma da escrita moutiniana. À dimensão surreal, a ensaísta acrescenta as dimensões temporais diversas que o leitor pode acompanhar na leitura destes textos breves. Desdobrados em torno de máscaras identitárias, a escrita de Viale Moutinho sublinha múltiplas correspondências de tempos e de espaços.

No universo ficcional do autor, as figurações de frades, barões e viajantes são recorrentes. Da mesma forma, é possível encontrar ogres, soldados e esbirros. Em jeito parodístico, o autor convoca uma galeria de personagens e recria histórias e a História.  Ficionados pela arte da linguagem, surgem também outros protagonistas, uns reais, outros fruto da imaginação do escritor, num diálogo com inúmeras nuances que reenvia para o imaginário global e local.

Não me alongarei sobre a totalidade do livro Destruição de um Jardim Romântico. Saliento, contudo, algumas supressões nas dedicatórias desta nova proposta editorial. O propósito talvez seja retirar a vertente mais intimista da primeira publicação a cargo da Portugália Editora (2008), como acontece no texto “Sob o Sol do Pátio”, dedicado a Nelson Veríssimo, ou afastar o teor mais interventivo que se pode associar a alguns escritos moutinianos, já que “Santos, Mortos e Outros Vivos” fora dedicado aos incomodados.

Destruição de um Jardim Romântico, na edição de 2018, patenteia um grafismo apelativo e uma ilustração demonstrativa desta ‘destruição’ de sonhos e idealizações. A capa, a partir de uma escultura de Jaime Azinheira, apresenta à mesa de uma taberna seis personagens: cinco homens e uma mulher parecem recuperar as personagens do universo pictórico de José Malhoa. A escolha não é fruto do acaso.  Na anterior edição, a partir de uma fotografia de Jorge Nogueira, a capa reenviava para uma linguagem abstrata. Agora, na versão de Jaime Azinheira, A Taberna (escultura de 1984) expõe personagens moldadas por uma massa liquefeita. Estas figurações recordam algumas constantes culturais do desconcerto do mundo. Será o nosso fado? As bizarrias dos tempos, a fusão de espaços e a imbricação de caos marcam a escrita moutiniana. É este labirinto que me seduz como leitora e me interpela como investigadora.

Diz o ditado que “quem conta um conto acrescenta um ponto”. Por ora, pretendo destacar “Sob o Sol do Pátio”. Porquê? Por várias razões. A narrativa, quer na estrutura, quer na sua disposição gráfica, apresenta-nos a ‘arte de bem contar’ do escritor. Capaz de captar a atenção do (seu) público, Viale Moutinho apresenta-se como um contador exímio.  Destaco, pois, a capacidade de efabulação do autor e a sua virtualidade de captar cenários, gentes e assuntos. Da fórmula hipercodificada do conto em apreço fica-nos, no incipit do texto, a interpelação de Borges, o narrador que relatará o destino do rei D. Sebastião, após a derrota de Alcácer-Quibir. Na prisão de Caxias, em 1973, Borges conta aos companheiros o que se terá seguido ao fatídico dia de 4 de agosto de 1578. Este ambiente de presídio é significativo: ao fundir a história com a História, a escrita de José Viale Moutinho sublinha as disforias que marcaram múltiplos períodos da História de Portugal. No excipit do texto, a ação regressa ao universo prisional de Caxias e a narrativa acentua o destino incerto do rei português.

Em jeito de lenda, conto ou fábula (ou tudo isto por sinal), a escrita de José Viale Moutinho reenvia para um dos mitos que configura e sustenta a cultura portuguesa. A persona do Desejado é uma das manifestações da nossa identidade. Do mito à lenda perpetua-se a quimera, manifestando-se a (des)esperança. A cristalização do mito é um filão inesgotável da literatura. Reza a lenda que o rei português ficou algures em terras sarracenas.  Recontam algumas versões que o Encoberto regressará numa manhã de nevoeiro. Atesta a História que depois da derrota de Alcácer-Quibir, Portugal ficou sob domínio filipino, gerando-se a crise dinástica de 1580.

O que nos diz o texto de Viale Moutinho? De forma parodística, a proposta moutinana desdobra-se em torno destas múltiplas configurações que envolvem D. Sebastião. A proposta do escritor roça a ironia, desfaz temporalidades e reconfigura identidades. O Gordo, umas das personagens da narrativa encaixada, pode ser D. Sebastião. Se assim for, o malogrado rei chegou à Madeira, numa frágil embarcação. Fugiu da derrota desastrosa e tem agora por companhia Garcia e João Gato. Acolhidos por pescadores da Ilha, percorrem algumas localidades da Madeira. A espada de D. Sebastião estará cravada num penedo da Penha d’Águia? Ou estará fincada na Ponta do Garajau? Qual é a ‘verdadeira’ identidade deste Gordo? Quem são os companheiros desta jornada de África? Neste texto-(des)construção, sublinho, pois, o emaranhado lúdico-sarcástico da escrita de Viale Moutinho.

Em todo o caso, a proposta do escritor pode ser lida à luz da metaficção historiográfica e da paródia dos tempos (in)certos. Texto-crónica, texto-lenda, texto-conto, a hibridização da escrita deste autor permite-nos viajar num imaginário nacional, mas também local. Onde estará a espada de D. Sebastião? O enigma permanece. Ao sonho de um império pluricontinental somar-se-ão renovadas divagações? Em todo o caso, a escrita moutiniana pode ser lida à luz da problemática da memória e da pósmemória, já que o texto parece acautelar o leitor para renovados devaneios. Os desvarios do passado podem alimentar as quimeras da contemporaneidade?

Não se trata de um texto-nostálgico. É certo que a linguagem humorística do escritor recupera o mito sebástico, dialoga com a lenda e recorda a grandiosidade lusa. A escrita de Viale Moutinho reabilita uma das imagens do rei: contra tudo e contra todos, D. Sebastião lança-se numa guerra que ditará o fim da independência de Portugal por um período de sessenta anos. Apresentando-se como uma recriação atenta às fantasias, a escrita moutiniana deixa entrever múltiplos sonhos de mando e de superioridade. A leitura messiânica que o texto revela ao leitor acentua, ainda, renovadas ilusões. São devaneios, ora movidos pela crença, ora motivados pela utopia. Se D. Sebastião não tivesse morrido, seguiria “para as capitais da Europa, levando consigo os melhores embaixadores” (2018: 65) para trazer “o maior exército de que há memória” (2018: 65)? Poderia então combater os infiéis? Regressaria à Ilha “buscar a espada dos [seus] avós para conduzir um exército invencível”? (2018:65). Como podemos explicar as inúmeras recriações míticas e lendárias ao longo dos tempos? Talvez sejam ‘encenações’ de um vazio, quer político e social, quer cultural e identitário. Ora, para colmatar ausências e disforias, o sonho arquétipo da Humanidade assenta na demanda, na interrogação e na utopia.

A linguagem moutiniana redefine vozes do texto e reconfigura espaços, dando-lhes múltiplas possibilidades de descodificação. Se pensarmos que o narrador da lenda é Borges (Jorge Luís?), se acrescentarmos que esta voz do texto se dirige a Navarro (António Modesto?), estamos em crer que o ‘realismo mágico’ da escrita de Viale Moutinho permite recuperar cartografias distintas e personagens reais, moldando-os com seres ficcionados pela prodigiosa ironia da sua imaginação.