![]()
*Docente na Universidade da Madeira / Investigadora no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
“Decidiu-se por um ano sabático embora ninguém lho tivesse concedido” (2018: 15). Começa assim a narrativa de João Tordo. Todavia, este romance não se desdobra em torno de uma história humorística sobre uma sabática – “um ano de folga” (2018: 72) , no dizer da mãe de Hugo –, apesar de o texto concorrer, aparentemente, para o sentido lúdico desta possibilidade.
Depois de deixar Montreal, o contrabaixista Hugo, “[d]istante, melancólico, afetado por uma vida que não abarcava a possibilidade do amor” (2018: 64), regressa a Lisboa e instala-se em casa da irmã gémea Júlia, do cunhado e do sobrinho Mateus. De volta à Europa, o protagonista pode iniciar a sua reconformação identitária, profissional e pessoal. Talvez assim consiga entender “a sua instabilidade, o seu espírito errático, o seu estilo de vida caótico…” (2018: 64).
O livro de João Tordo, primeiramente publicado pela Editora Dom Quixote (2013) e agora republicado pela Companhia das Letras (2018) não apresenta uma história linear em torno da vida de Hugo. Não será tão-pouco uma história de vida familiar. Muito menos abordará uma questão simplista de reencontros entre irmãos. Na sua forma ágil de conduzir a(s) intriga(s), no modo singular de captar a(s) essência(s) das personagens e na forma desenvolta de interligar dúvidas e realidades opostas, O Ano Sabático, constituído por contínuos assombros e efeitos de estranheza, acentua o processo viático que implica apr(e)ender as múltiplas identidades que enformam o Homem.
Autor vencedor do Prémio Literário José Saramago com o romance As Três Vidas, João Tordo muito tem contribuído para o fulgor literário da literatura portuguesa dos últimos anos. Na sua obra, regra geral, o leitor é desafiado a refletir sobre o tópico da viagem, a (re)descobrir o rico intertexto que perpassa na sua escrita e a acompanhar as problemáticas identitárias que atravessam existências, derrubam certezas, implicam redobradas dúvidas.
O Ano Sabático desdobrar-se-á em torno da obsessão do duplo, da errância e da urgência da busca do Eu. No paratexto do livro, a editora explora esse lado labiríntico e repleto de contradições. A intertextualidade é claramente explicitada na contracapa deste romance: a escrita de João Tordo dialoga com Dostoiévski, Dorian Gray e José Saramago.
Mas por que razão um quarentão está “viciado, sobretudo, na angústia” (2018: 20)? Por que motivo sente uma imperiosa necessidade de “compor” as travessias da vida em Dó sustenido? Como entender que a descoberta das múltiplas identidades “duram uma vida inteira (2018: 40)? Será que a existência, à semelhança da improvisação musical, é “combinação apurada e instinto” (2018: 48)? O que o terá motivado a enveredar pelas “bizarrias do mundo” (2018: 54) no outro lado do Atlântico? Conseguirá pôr termo às incertezas que conhece e aos caminhos dúbios que percorreu? Será possível responder às dúvidas existenciais de Hugo de modo a entender como os seus duplos pairam sobre si?
Júlia apresenta-se, de certo modo, como parte do seu Eu; Luís Stockman, cuja existência está explorada na segunda parte do romance, é o tormento maior desta duplicação identitária; o irmão gémeo, que não sobreviveu ao parto, pode constituir-se como outra incompletude do protagonista da primeira parte do romance. Hugo procurará, pois, recuperar o sentido das origens, perceber as disfunções familiares, entender os trilhos das derivas, mas, e talvez sobretudo, a demanda do Ser.
Reerguer-se, reconstruir-se e conjugar o emaranhado das verdades e do ilusório, das memórias e do afeto será, pois, o percurso a empreender pela(s) voz(es) do texto. São, assim, melodias persistentes, dissonâncias da vida, estrépitos de momentos que se se pretendem desvendar.
Note-se, ainda, que este livro permite-nos percorrer outras inquietações, nomeadamente as que se prendem com a precariedade dos que vivem da arte. Soma-se a esta barroquização do mundo e da cultura, a distinção que se opera entre linguagens artísticas:
“Triste, por compreender que a música não era como as outras formas de expressão, não era como a escrita ou a pintura, cujo resultado era a arte conseguida em páginas ou numa tela onde o seu autor já não participava. A escrita era a arte que resultava do leitor, de todas as vezes que era lida; a pintura, a que resultava do observador, de todas as vezes que era vista. A música, pelo contrário, era dificílima de inscrever num testemunho que sequer se aproximasse da sua forma original. Uma gravação digital não passava de um eco longínquo daquilo que verdadeiramente era tocado no momento em que as mãos faziam o seu trabalho; e, assim, perdia-se mais do que aquilo que era admissível, transformando o autor numa peça fundamental cuja ausência física, de todas as vezes que um disco seu tocava, implicava anular esses momento original em que os dedos atingem a perfeição ” (2018: 69-70).
Mas voltemos ao vetor essencial deste livro. A questão identitária reenvia diretamente para Hugo, mas também para Luís Stockman. No labirinto do processo viático, entre o passado no Canadá e as instâncias presentes do seu quotidiano lisboeta, Hugo deverá provar que Stockman, um pianista conceituado, plagiou uma composição: a sua ‘Dulcineia em Dó sustenido’.
Dito assim, ao recuperar de forma parodística o nome de personagens de outras cartografias literárias, este livro pode parecer uma história divertida. A legitimação da Dulcineia torna-se essencial. Os contornos insólitos e misteriosos do livro levam a narrativa a roçar a escrita policial. Nesta luta quixotesca que opõe Hugo a Luís, há que desvendar o enigma. Será que existe um ‘verdadeiro’ enigma? A leitura da narrativa de João Tordo não acaba aquando do seu epílogo. Antes pelo contrário. O universo fantástico e surreal que o escritor recria em O Ano Sabático continua a inquietar-nos depois de terminada a última página do livro: somos seres inconformados por natureza, andamos, assim, “à procura de ser outro” (2018: 228).
Será longe do conforto da casa da irmã, num quotidiano assombrado pelo desassossego e pelo caos, que Hugo deverá (com)provar que pode sobreviver a este jogo de xadrez existencial. A vida é então um jogo? Para quem? Para Hugo? Para Luís? Mas quem é este “enfant terrible do jazz”? (2018: 152). Quem é Luís Stockman? Quem será esta voz que deverá enveredar, também, por “uma longa digressão pelos caminhos da verdade e da mentira” (2018: 159)? Não será o jazz uma escolha ditada ao acaso já que está ligado ao sofrimento e à improvisação. Entre o Real e a Ficção qual será a delimitação (im)possível da demanda cheia de imprevistos e improvisos? Quem será o narrador que, na parte final do livro, é o contador dessa(s) história(s)? Em todo o caso, será possível encontrar o “princípio do mundo” (2018: 142)? Este princípio do mundo não será uma errância constante? Apreciei, em particular, as seguintes observações: “a vida não passa de um intervalo (…)” (2018: 206) e “(…) nesta vida, o absurdo reina em absoluto” (2018: 221).
A escrita de João Tordo vem sobretudo possibilitar ao leitor uma viagem em torno das múltiplas descobertas que envolvem a questão: «Quem és tu?» (2018: 22). A narrativa de teor identitário acentuará a viagem intensa e dolorosa das vozes do texto. A viagem permitirá responder a inúmeras dúvidas que assolam o(s) protagonista(s). Será catártica? Ou desembocará em eternos recomeços? Um sistema-mundo transformar-nos-á em “animais domesticados pelo tempo” (2018: 74)? Esta dimensão do humano adquire na narrativa de João Tordo interrogações essenciais. Em todo o caso, a leitura deste romance corrobora a tese de Nuccio Ordine em A Utilidade do Inútil. A literatura não é supérflua. Lança-nos desafios. A cultura não é um acessório. Faz-nos pensar.
O Ano Sabático permite levantar hipóteses, pensar (im)possibilidades, sonhar realidades alternativas, subtrairmo-nos à normalidade real e consentânea. Neste sentido, a segunda parte do romance, breve e lapidar, parece corroborar que a demanda e a errância, o duplo, a genialidade e a fragilidade do ser humano constituem o mundo de Luís Stockman, o de Catherine, o do próprio narrador, amigo íntimo do pianista.
Para se ‘desdomesticar’ e se reencontrar na sua plenitude – embora a linha deste encontro seja sempre periclitante e colocada em causa – as vozes do texto descem à escuridão. Das trevas, pode surgir um Homem renovado, embora ciente de uma espécie de loucura que o habita, do verso e reverso do seu Ser. Mas não será o Homem “o seu igual e o seu contrário, o seu idêntico e o seu inverso?” (2018: 135).
O Ano Sabático encaminhar-se-á para o jogo de espelhos e para a problemática dos papéis invertidos. Estamos, pois, em pleno mundo barroco na contemporaneidade do nosso presente. Mundo instável. Seres desassossegados. A viagem torna-se, pois, essencial. A demanda surge como obrigatória. E é nessa luta que reside a força desta narrativa. Trata-se de uma escrita imperdível que nos leva, também, a percorrer a nossa própria incompletude. Aprecio a exploração da dúvida contínua.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





