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Como centenas de outras palavras que, na boca de todos nós ou na diligência dos nossos instrumentos de escrita, largam o anonimato e vão fazendo um percurso de surpresa, de afirmação e de moda, populismo, pelo significado que tem por si só e pelo uso que da expressão se faz, promete, infelizmente, acompanhar-nos por muito tempo e passar a, cumprindo aquele caminho, fazer parte do léxico com que, querendo ser parte na pluralidade das opiniões, cada um de nós sacará sempre que tal se revele necessário, útil, impressivo e, porventura, demonstrativo na subjectividade das razões que a cada um assiste.
O populismo, porém, não é apenas – e o “apenas” aqui não é irrelevante – um vocábulo; é história, – terá surgido nos Estados Unidos no séc. XIX -, é uma prática, encerra um conceito, disfarça algumas das suas componentes e atributos, pode induzir uma popular e irreflectida simpatia, ameaça, – repito, ameaça -, ser mobilizador, irreverente, transformador, redentor e, até, (in) justo.
Se fosse desafiado para tentar caracterizar o populismo, diria poder ser o exercício de propositura de um conjunto de ideias de natureza política, económica e social, de adesão fácil, esperançosa e entusiasmada que, aproveitando uma certa entropia no funcionamento dos modelos que nos têm servido de bússola, tenda a reunir todos os que, desencantados, se disponibilizam para encetar novos caminhos ignorando os riscos, cavalgando nefastas e sobrevalorizadas evidências e reforçando o poder de tudo o que tão singela palavra oculta de perigoso, de perverso, de irreversível e de determinante na vida de todos.
Mas não é tudo. Vai sendo evidente a distinção entre um discurso e uma prática que se tem vindo a classificar de “populismo de direita” e uma outra de “populismo de esquerda” sendo que o de direita tem ganho proporções preocupantes, em toda a Europa e fora dela, – nos Estados Unidos, por exemplo, com Trump -, enegrecendo as perspectivas que se possam ter em relação à construção ambiciosa e sustentada de sociedades de que nos orgulhemos e que sirvam as gerações futuras.
Aproveitando até ao limite o ambiente popular propício – particularmente a partir de 1979, eleição de Margaret Thatcher (o capitalismo popular, lembram-se?), e consequente e sistemática degradação, um pouco por toda a Europa, dos serviços públicos, das regalias sociais, dos direitos laborais e de uma subordinação (quase) total a um capitalismo crescentemente agressivo e a um sistema financeiro com fraca regulamentação, precária monitorização, deficiente escrutínio e, como se viu, carta- branca para conduzir o sistema à gravíssima crise de 2007 a partir da falência do Lehman Brothers – à sua afirmação e desenvolvimento, o primeiro, o de direita, tende a recuperar e a acentuar os egoísmos nacionais, a fomentar de forma subliminar chauvinismos que julgávamos mortos e enterrados, a estimular diferenças, a responsabilizar terceiros pelos erros próprios, a estigmatizar credos que não correspondam aos da maioria sociológica a que se dirige, a diabolizar os estrangeiros culpando-os pela concorrência plurifacetada a que os destinatários da mensagem estão sujeitos, a cultivar uma forma larvar de racismo e, last but not least, desenvolvendo desenfreadas campanhas anti-regime centradas na crítica violenta aos sistemas, eles próprios, e aos seus agentes como sendo os causadores de todos os males com que as sociedades são permanentemente “castigadas”; ao segundo, ao de esquerda, cumpre, tão só, recrear a esperança geral e elementar de que tudo o que de há umas décadas a esta parte tem vindo a ser perdido pode ser recuperado sem dano e sem necessidade de aturados exercícios macroeconómicos e orçamentais e, portanto, menos apelativo do entusiasmo das massas.
Se a tudo isto acrescentarmos a crise das migrações e dos refugiados e do seu reflexo social e político nos países da União Europeia, – e até fora dela -, concluímos sem dificuldade estar criado o ambiente óptimo ao desenvolvimento de um populismo vitoriosamente sufragado e, com ele, da xenofobia, do racismo e do egoísmo formando, como a História nos ensinou, o caldo de cultura ideal à recuperação de velhas e trágicas experiências que a todos ensombraram várias décadas do século passado e de que todos se julgavam livres, de forma definitiva, com os olhos postos na paz, na harmonia e no progresso dos povos.
A União Europeia enfrenta, por isso, agora, o seu maior e mais intrincado desafio: combater o populismo. Lembram-se, muitos de nós, de que, na sequência da fundação da EFTA e da OCDE de que o nosso País é um dos fundadores, em 1960, Salazar terá querido ensaiar uma candidatura à, então, CEE; a circunstância de o nosso País, na altura, não ter um regime que as democracias ocidentais reconheciam como democrático parece ter inviabilizado a pretensão – sendo certo que Salazar não tinha uma especial simpatia pela organização – que, adiada, só se viria a concretizar em 1985 com a assinatura do Tratado nos Jerónimos e a entrada de pleno direito em Janeiro de 1986, já na vigência de um sufragado e constitucional regime democrático. Onde está essa Europa? Onde para essa elementar exigência? É possível fechar os olhos, ainda que entre pares, a quem viola de forma grosseira os princípios fundadores da União? É legítimo e politicamente aceitável ignorar o procedimento egoísta, racista e xenófobo de quem, aproveitando para si, exigentemente, a solidariedade europeia, se exime ao cumprimento das suas obrigações para com terceiros no mesmo quadro?
O Presidente da República Francesa, há dias, com destinatários certos e conhecidos, dizia, com coragem e bem, que quem na Europa é tão exigente com os seus direitos e com a sua integral satisfação não pode ignorar os apelos da solidariedade a que todos os estados-membros estão obrigados, nomeadamente em matérias em que esteja em causa a defesa dos direitos humanos.
A melhor, porventura a única, forma de combater o populismo e todo o tenebroso cortejo de horrores que ele pode transportar no seu bojo, é reduzir – eliminar – as razões económicas, sociais e políticas que, poderosamente, militam no sentido de que as suas propostas se revistam do aliciante aparentemente incontornável que tem vindo a evidenciar nesta fase da nossa história contemporânea, bem assim como encontrar e adoptar a fórmula que dê à liberdade, à coesão, à entreajuda e à solidariedade a força e a consistência necessárias ao reforço da sua – da União Europeia – acção enquanto projecto comum.
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PS:
Já depois de terminado este texto, soube, ainda que com insuficiente informação, que o Conselho Europeu havia decidido, na passada Quinta-feira, dia 28 do corrente, que a questão das migrações e dos refugiados é uma questão da União e não de cada um dos estados-membros e que, portanto, as medidas a adoptar serão a 27. Parece-me pouco, mas melhor que nada. Para já.
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Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.
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