Repugnância

Quando, em 2 de Agosto de 1976, Mário Soares entrou no hemiciclo da Assembleia da República para apresentar o Programa do I Governo Constitucional, por si chefiado, depois de um longo e atribulado período de actividade política que havia terminado a 25 de Novembro de 1975 e a que se seguiram várias experiências de governos de iniciativa presidencial, Mário Soares, dizia, dirigiu-se aos deputados que ocupavam as primeiras filas das respectivas bancadas e a todos cumprimentou cordialmente. Não fosse a circunstância de se tratar da “inauguração” de um novo ciclo caracterizado pela vontade de um normal confronto de ideias e de um debate político em estrito cumprimento da Constituição e da lei, tanto na sua letra como no seu espírito, tal como a democracia postula, e aquele gesto não passaria de um acto de boa educação, de urbanidade e de irrepreensível savoir-faire; mas não, a todos saudar naquela ocasião era, e foi, sobretudo, um sinal claro de que a democracia e o Estado de direito se constroem na tolerância, no respeito mútuo, no reconhecimento e aceitação das diferenças admitindo-as e assumindo-as como alavancas primeiras do desenvolvimento e do progresso de cuja promoção é, para os cidadãos que fazem questão de o ser, obrigatório ser parte activa.

Servem as linhas acima para, exemplificando uma postura e um comportamento exemplares, tentar perceber a disponibilidade que certos espíritos mais afoitos evidenciam para a ruptura, – para as rupturas -, no caso de que me ocupo, a golpe de uma incompreensível “repugnância” esgrimida contra algo de que se pode discordar, em relação à qual se está contra, que se quer combater mas que, apesar disso, nos não suscita nenhum irracional e irremediável sentimento de asco.

A novel dirigente nacional de top do PSD, num exercício público de procura de popularidade à direita, no seu partido, resolveu expor a sua “repugnância” pelo governo do País por ser de esquerda. Apesar de tudo, é um direito que lhe assiste e que, a ter-se revelado mais cedo, poderia ter tido a maior utilidade na denúncia oportuna e justa da “ida” além da troika de que os seus correligionários se fizeram orgulhosos arautos ao longo de uns intermináveis quatro anos e meio de austeridade violenta imposta aos portugueses.

Esse incontido sentimento de antipatia seria até apreciado se tivesse sido motivado pelo ambiente de mentira e de falácia que Portugal viveu; teria sido elogiado se em oposição desassombrada e livre aos cortes de salários e de pensões dos portugueses; teria feito manchete se reflectisse inconformismo face à tentativa de acabar com os subsídios de férias e de Natal; honraria a coragem da autora se fosse dirigida, essa repulsa, ao aumento do desemprego, à diminuição e ao tendencial fim do subsídio de desemprego, às falências em catadupa, à tentativa de destruição da escola pública, à leviandade na abordagem ao SNS e às suas necessidades, à instigação dos jovens para que, abandonando o seu País, emigrassem, à perversidade com que os portugueses foram atirados uns contra os outros, – novos contra velhos, funcionários do sector privado contra o público, gente no activo contra pensionistas, etc. -, num criminoso estímulo à inveja e à maledicência, em que a palavra de ordem era “dividir”, à incompetência evidenciada no cumprimento das metas estipuladas para as contas públicas, à insensibilidade que presidiu aos reajustamentos nas diversas prestações sociais, ao evoluir, sem regulação nem controlo, do sistema financeiro, às reiteradas tentativas de governar desrespeitando a Constituição da República e, até, mesmo contra ela, enfim, um não concluído, porque infindável, rol de poderosas razões, domésticas todas elas, para exercitar essa arrojada “repugnância” então, pela (hoje) corajosa cidadã, lamentavelmente adormecida.

Porque faço questão de ser ingénuo militante da ingenuidade, não me consta poder estar afectado pelo “síndrome de Estocolmo” e subscrevo sem hesitar a asserção axiomática de George Santayana segundo a qual “quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo”, insisto no conhecido, repito o consabido, ensaio a pedagogia da experiência e, por isso, e à laia de grito de indignação e de revolta junto de todas – e de todos – as que têm a “repugnância” como reacção primeira a tudo o que não gostam, aproveito para lembrar o que, por todo o mundo, vão sendo repetidas, constantes e agressivas as violações aos consagrados “Direitos do Homem” que, a cada segundo, mancham de vermelho e de vergonha a história da nossa civilização; os crimes contra a humanidade que, por todo o planeta, se cometem sem controlo nem atenta observação internacional capaz e eficaz, apesar da ONU e da sua, soi disant, bem-intencionada existência; o recrudescimento de ideologias e movimentos de agressiva e guerreira inspiração totalitária em atitude provocatória à tolerância que a democracia, mais do que recomenda, exige; os dramas, com o risco da própria vida, que vivem comunidades inteiras, em vários pontos do globo, sujeitas à fuga, ao exilio, ao desterro, à fome, às doenças, à ostracização, à miséria, à morte; às guerras que, com a crueldade do inimaginável, superior em dimensão e maldade ao que algum dia se imaginou, dizimam centenas de milhares de vítimas e coloca em estertor final a esperança dos que lhe conseguem sobreviver; as preocupações geopolíticas e geoestratégicas no centro do pensamento das grandes potências e dos grandes estadistas (?), muito para além dos homens e do que de mais sério estes sentem como sendo um direito seu intransmissível e inalienável: o futuro.

Como podem ver com a precisão do fulminante, antes de sacarem a pistola da repugnância, seleccionem a quem querem apontar. São tantas e tão evidentes as razões de estímulo à pontaria, que pretendemos de sniper e de que não prescindimos, para carregar no gatilho da nossa repugnância que, desperdiçá-la no que não tem importância, é irrelevante, é menor, é contraproducente, é reacionário, é uma afronta burguesa de anafada displicência.

Reservemos as forças, se algumas convicções nos restam, para o que é fundamental.

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Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.