Dia do Professor para recordar a lição de Sebastião da Gama: “É para nota? Não. É para aprender!”

Sebastião Artur Cardoso da Gama (1924-1952).

Para além da República, hoje assinala-se o Dia do Professor. A conjuntura atual impõe algumas glórias e inquietações à classe. O FN recorre às palavras inspiradoras e sempre atuais de um grande Professor, Sebastião da Gama, que plasmou no seu Diário a essência desta missão que exerceu, a partir dos 24 anos, em 1949, na Escola Veiga Beirão, em Lisboa.

Com a devida vénia, o FN reproduz alguns excertos diarísticos deste grande poeta e pedagogo português.

Janeiro, 11 [de 1949] – Para começar, o metodólogo falou connosco durante uma hora. De acordo com o que disse, vão ser as aulas de Português o que eu gosto que elas sejam: um pretexto para estar a conviver com os rapazes, alegremente e sinceramente. E dentro dessa convivência, como quem brinca ou como quem se lembra de uma coisa que sabe e que vem a propósito, ir ensinando. Depois, esta nota importantíssima: lembrar-se a gente de que deve aceitar os rapazes como rapazes: deixá-los ser: ‘porque até o barulho é uma coisa agradável, quando é feito de boa-fé. Houve nesta conversa uma palavra para guardar tanto como as outras, mais que todas as outras: ‘O que eu quero principalmente é que vivam felizes‘.”

(…)

“Não sou, junto de vós, mais que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não. Falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e onde quer que nos encontremos.”

“Quando cheguei a Setúbal quis acabar com o que fica bem chamado “o terror da chamada”; é esse terror que leva a criança a faltar à aula, a inventar uma desculpa, a tremer perante o professor. Em Setúbal, de princípio perguntavam: “É para nota?” (E havia medo na voz.) “Não. É para aprender” Pois sim senhor, para aprender é que é: para eu aprender, para o aluno aprender; para estarmos mais perto um do outro: para partirmos a aula ao meio: pataca a mim, pataca a ti.”

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“Cada vez me apetece menos classificar os rapazes, dar-lhes notas, pelo que eles “sabiam”. Eu não quero (ou dispenso) que eles metam coisas na cabeça; não é para isso que eu dou aulas. O saber – diz o povo – não ocupa lugar; pois muito bem: que eles saibam, mas que o saber não ocupe lugar, porque o que vale, o que importa (e para isso pode o saber contribuir e só contribuir) é que eles se desenvolvam, que eles cresçam, que eles saibam “resolver”, que eles possam “perceber”. 

“Outra coisa em que eu tomei, a propósito de palavras, foi no eufemismo. Perceberam. O maroto do Artur, quando eu lembrei que a pessoa a quem morre um parente muito querido diz de preferência que ele faleceu, descobriu logo: “Ah! Por isso é que no jornal nunca vem morrimentos, vem sempre falecimentos”.”

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“Se eu não risse era um palerma” diz Sebastião da Gama. “Se eu o mandasse para a rua (há quem faça isso, por causa disto, sim senhor.’) era uma dúzia de palermas’.

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“Eu sou contra a tinta encarnada nos exercícios; notas, emendas ou o que é que tenha que escrever, costumo fazê-lo a lápis, se o exercício está a tinta; e a tinta se o exercício está a lápis. A tinta azul, claro está. Porque a vermelha lembra-me o sangue a escorrer de feridas – e pode dar-se o mesmo, se não em todos os alunos, ao menos em alguns.

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E o risco? O risco num trabalho que foi feito, por vezes, com esforço, amor, convicção? Um risco pode equivaler a uma reguada. E na alma, que é onde dói mais; eles não sabem protestar; talvez nem mesmo intimamente eles protestem; mas lá no fundo deles qualquer coisa se desequilibra: ou então acham isso natural – o que é muito pior. MUITO PIOR. (…)”