“O PSD está chateado porque vou tirar votos? Quero lá saber disso!”

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Carlos Pereira, candidato pelo movimento “Santana Primeiro”: “Estou confortável ao ser candidato em Santana, não estou preocupado com as pessoas que estão desconfortáveis com a minha candidatura. Foto Rui Marote

As eleições autárquicas no concelho de Santana têm, a 1 de outubro, novos “condimentos” que prometem “apimentar” a disputa eleitoral. Nem Teófilo Cunha, o atual líder da autarquia, do CDS/PP, nem Gabriel Caldeira, candidato do PSD, nem tão pouco toda a máquina social democrata regional, com aspirações viradas para a recuperação do poder, esperavam por esta. O ex-presidente da autarquia Carlos Pereira, que liderou a câmara durante 22 anos, está de volta. E não está, como diz o povo, para “meias tintas”, é mesmo para ganhar.

É um social democrata, sempre eleito nas listas do PSD para a Câmara de Santana, mas agora apresenta-se ao eleitorado pelo movimento “Santana Primeiro”. É como se Santana, de repente, surgisse como “efeito contágio” daquilo que já acontece em São Vicente e na Ribeira Brava, onde os ditos “dissidentes” surgem fora das listas do próprio PSD. A diferença é mesmo esta: o PSD apoia Garcês em São Vicente e não apoia nem Ricardo Nascimento nem Luís Drumond, na Ribeira Brava, nem Carlos Pereira em Santana. Uma realidade que está a alterar, e não é pouco, a estabilidade eleitoral a que o PSD estava habituado até 2013. E não estancou daí para cá.

Experiência de 22 anos contra atual permissividade

Carlos Pereira, agora independente, usa um argumento de peso, a experiência de 22 anos, para mostrar “serviço” ao eleitorado de Santana. Considera essa uma mais valia, diz mesmo que o concelho precisa do conhecimento que tem. Traz outro argumento para aceitar este desafio: a atual liderança da Câmara “é muito benevolente, muito caridosa, muito à espera que as coisas aconteçam, por alma do Espírito Santo. A Câmara de Santana deve ter uma liderança forte, que concorde com o governo quando tem que concordar, mas que discorde quando tem que discordar. Mas não é isso que acontece, a Câmara é CDS mas parece mais uma câmara do PSD”.

Deixei dívida colossal? O Governo fez uma dívida muitíssimo colossal…”

Como contraponto, com um passado longo de gestão autárquica, está sujeito a que os críticos apontem o dedo em determinadas direções. Por exemplo, dizem que deixou uma dívida colossal. Como responde a isso? “Qual é a câmara da Madeira que não tem dívida colossal? Que eu saiba, a dívida de Santana não é maior do que as outras. Acho engraçado que se fale em dívida colossal quando o próprio Governo Regional fez uma dívida muitíssimo colossal”. Diz que, se por acaso, Santana não tivesse acompanhado o ritmo de investimento público nos seus mandatos, “estariamos muito mais atrasados. Até 2009, os licenciamentos de obras particulares eram muito superiores aos de São Vicente, mas depois decresceram. Acham que São Vicente tem maiores potencialidades que Santana? Não é verdade, Santana tem o dobro da população de São Vicente”.

Santana no rol dos concelhos mais atrasados

Para o candidato independente “Santana está no rol dos concelhos mais atrasados da Madeira”. E essa realidade, diz, “é indesmentível”. O objetivo estratégico de Carlos Pereira, logicamente visando o combate eleitoral que se avizinha, é colocar o concelho numa comparação antes de 2009 e depois de 2009. O antes sob a sua liderança, o depois sob liderança primeiro do PSD de Rui Moisés e do CDS de Teófilo Cunha.

O CDS foi para a Câmara com gestão de merceeiro

Lembra que quando chegou à Câmara “também havia uma dívida colossal. E ouviram queixar-me de alguma coisa? O que estão a fazer hoje é política baixa sobre quem esteve 22 anos a defender o concelho. Santana comigo, cresceu e criou emprego”, deixa claro, num tom mais alto de crítica aos que lhe apontam o dedo. Diz que essas “ofensivas” surgem tanto do PSD como do CDS/PP, mas tem uma explicação que sublinha ser natural para esse comportamento: “As pessoas estão com receio que a minha candidatura possa vir a ganhar. E eu também estou com muita esperança que vou ganhar, não por mim mas por Santana, porque o concelho quer mudar o rumo das coisas. O PSD tomou medidas graves, ainda não as corrigiu, e o CDS foi para uma Câmara onde faz gestão de merceeiro. Não critica, não pressiona, não exige”.

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“O PSD tomou medidas graves, ainda não as corrigiu, e o CDS foi para uma Câmara onde faz gestão de merceeiro. Não critica, não pressiona, não exige””. Foto Rui Marote

Considera que havendo uma Câmara do mesmo partido que está no governo, a ação autárquica fica de certo modo condicionada. Mas surpreende-se com o que se passa em Santa, uma vez que “a Câmara é do CDS e está tão condicionada como se fosse do PSD”.

Santana ganhava mas agora perde em comparação com São Vicente

Mostra números que ajudam a entender o que diz. Em termos de licenciamentos verifica-se que entre 2005 e 2009 Santana licenciou 154 projetos de construção de habitação, enquanto São Vicente licenciou 147. Entre 2009 e 2013, Santana licenciou 49 e São Vicente 60. Entre 2014 e 2015, Santana licenciou 8 e São Vicente 13.

Aponta o investimento que fez em “arruamentos, abastecimento de água, esgotos, um cemitério na Ilha, uma pista de karting no Faial, além de outras obras que contribuem para que, hoje, Santana tenha o que tem, caso contrário ainda estava pior”.

Entrega da água e resíduos a empresa e encerramento das urgências

Sublinhando que continua sendo social-democrata, não esconde diferenças entre aquilo que é o seu projeto de desenvolvimento para Santana e aquelas que foram e são as opções do PSD. Uma, que Carlos Pereira critica veementemente: “a entrega da gestão da água e resíduos a uma empresa, a ARM”. Outra é “o encerramento das urgências noturnas, decisão a que o anterior presidente da Câmara, do PSD, não se opôs. Nem tão pouco o atual candidato do PSD”. São duas decisões que Carlos Pereira, presidente, não tomaria. Antes que falem, vai abordar o assunto, sabe que “apontam declarações minhas nos sentido das águas e resíduos serem entregues a uma empresa. Mas nunca falei nos moldes em que essa entrega foi feita”.

Se fosse candidato do PSD, tinha dificuldade em defender essa bandeira (urgências)

Diz que, em relação ao encerramento das urgências, é uma decisão que prejudica as populações “sobretudo as que ficam mais distantes e que percorrem mais quilómetros até chegarem às urgências mais próximas, em Machico. Repare, se eu fosse candidato do PSD teria dificuldade em defender a bandeira da reabertura das urgências, o que não tenho na qualidade de independente. Se fosse candidato do PSD, teria dificuldade em reverter a privatização das águas e resíduos”.

O projeto “Santana Primeiro” visa, essencialmente “tornar Santana mais atrativa para quem nos visita, incentivando a restauração e a hotelaria. Desde 2009 não se constrói uma única cama hoteleira neste concelho, as que apareceram foi até 2009”. Afirma ser importante que “a Câmara possa agilizar procedimentos para facilitar as empresas que queiram investir”.

Dar às pessoas o que merecem, a dignidade

Agora, numa outra vertente da candidatura, a ideológica, apresenta-se ao eleitorado num quadro de social democrata fora das listas do PSD, o que pode vir a resultar numa divisão de votos nessa área de ação normalmente ocupada pelo PSD. Esta é uma situação que Carlos Pereira diz não estar a pensar: “A minha preocupação é dar às pessoas aquilo que merecem, a dignidade. Nunca discriminar as pessoas por se candidatarem por outros partidos ou por movimentos. Mas não é isso que se passa agora, parece que ser candidato independente é um pecado, quando há quatro anos, em São Vicente, o movimento “Juntos por São Vicente” apresentou candidatura independente e agora é apoiado pelo PSD”.

Não são os políticos dos partidos que mandam nas candidaturas

O antigo presidente da Câmara de Santana diz que “não são os políticos dos partidos que mandam nas candidaturas, é a vontade do povo. E o movimento “Santana Primeiro” nasce da vontade do povo. Estou confortável ao ser candidato em Santana, não estou preocupado com as pessoas que estão desconfortáveis com a minha candidatura. Quero é dar esperança ao concelho, que neste momento não tem. Quando me dizem que o PSD está chateado porque vou tirar votos, quero lá saber disso”.

Presidente simpático até com os poderosos

Não fala sobre o PSD e a liderança regional, apesar das observações implícitas, que não dando nomes às atitudes, aponta atitudes que têm nomes. Está mais virado para o eleitorado de Santana, diz que quer esclarecer as pessoas que “nestas eleições podem mudar o rumo das coisas”. De um lado está “um presidente da Câmara simpático, que quando tem que defender os interesses de Santana, também é simpático com os poderosos, mas quando é para defender uma pessoa com poucos recursos, coloca milhares de dificuldades”. Do outro, estou eu, que quero “tratar as pessoas como merecem, defendendo os superiores interesses do povo de Santana e tendo uma política que integre todos e não deixa pessoas de fora”.


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