Crónica Urbana: Alcoolismo com cheiro a peixe

 

Rui Marote

Não se trata de um quadro de Max Römer ! Nem de uma cena de um filme… O cenário desenrola-se na porta da Praça do Peixe do Mercado dos Lavradores, na Rua do Hospital Velho. O protagonista escolheu o patamar de entrada para fazer cama na pedra fria e curar a ressaca da embriaguês acumulada. A uma centena de metros temos a Escola Secundária Jaime Moniz, O Centro de Emprego, um centro médico, rodeado por uma dezena de tascas. Embora haja imensa legislação, a fiscalização não funciona. Aos comerciantes só existe um objectivo: vender… vender.

Os estabelecimentos exibem os cartazes de proibição de servir bebidas a quem aparente sinais de embriaguês, como quadros figurativos de decoração. A imagem degradante que exibimos é a prova real de que a lei existe, mas não funcion.  Supostamente, é proibida a venda de bebidas álcoolicas, espirituosas e não espirituosas, a quem se apresente notoriamente embriagado ou aparente possuir anomalia psíquica. Neste caso o homem enfrascou-se no interior da tasca, observado pelo tasqueiro, que foi fornecendo a bebida.
O dono do estabelecimento só entra em acção por desacatos ou se o bêbado quiser curar a ressaca no local, recebendo então ordem de expulsão. Acaba assim por cair na via pública, algumas vezes literalmente, com prejuízos para a saúde e o caminho aberto para o hospital.

Tenho sempre uma história para contar. Esta com mais de vinte anos.
Estava no sul da Holanda, na cidade de Maastricht. Utilizava o autocarro para Gleen. Durante o percurso. presenciei o motorista, numa das paragens, ir ao exterior ajudar a colocar um embriagado num banco para as pessoas se sentarem, pedir-lhe a identificação e saber o local da habitação do mesmo.
Para meu espanto, não foi cobrada a viagem. Chegado ao destino, o motorista voltou a ajudar o alcoólico até o exterior, deixando-o em lugar seguro.
Fiquei curioso e espantado por tanta amabilidade. Na altura recebi a explicação para o sucedido: dentro de dias o utilizador do autocarro recebe da empresa o custo da viagem. Os motoristas, porém, são obrigados a prestar este serviço. Para o Estado é uma acção muito valiosa, pois diminui os acidentes e as idas e transporte de ambulâncias para os hospitais. Uma das condições para utilizar o transporte público é não criar qualquer distúrbio no interior do autocarro. Se assim acontecer, o motorista telefona para a polícia, que de imediato aparece no local. Mas se o embriagado se comportar, é logo levado para as imediações da sua casa.
Aqui, as regras são outras. O embriagado é exibido na praça pública e as despesas para o Estado muitas vezes pesam na balança da saúde. A legislação de venda de bebidas álcoolicas passou de 16 para 18 anos, mas é só no papel, porque toda a gente sabe que continua a vender-se sem exigir qualquer identificação. Alguém já contabilizou quantos estabelecimentos de venda de bebidas existem ao redor do Liceu Jaime Moniz? Mas a lei prevê a área…
O alcoolismo é uma doença e não um vício, como muitos dizem. Só que tem mais um factor que muita gente não sabe – ou, sabendo, não se importa. Pode aparecer aos poucos, dependendo dos hábitos do indivíduo. O rapaz ou rapariga que começa a beber nas discotecas aos fins-de-semana pode muito bem vir a ter problemas com álcool no futuro. Mas, com os jovens como com todos, a passividade (incluindo das autoridades) é geral.