Baptista-Bastos recorda Soares ao FN: “Critiquei-o muito, mas nunca me virou a cara. Era o último bandeirante duma grande geração de políticos”

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Foto Pedro Simões

O conhecido escritor e jornalista português Baptista-Bastos junta a sua à voz dos que lamentam a partida de Mário Soares. Num comentário ao Funchal Notícias, Baptista-Bastos lembra que travou conhecimento com o marcante político luso muito cedo.

“Conheci o Mário Soares tinha para aí vinte anos, quando ele era então militante de movimentos juvenis”, recorda, como o MUD Juvenil – Movimento de Unidade Democrática, sob a presidência de Mário de Azevedo Gomes. O relacionamento prosseguiu “por aí fora”, marcado frequentemente por “certas divergências, que tornei públicas”.

Baptista-Bastos admite que por vezes era “muito agressivo” nas críticas que fazia a determinados posicionamentos de Soares, “mas de facto ele nunca me virou a cara, bem pelo contrário”, salienta. Costumava indagar sempre como estava de saúde o escritor e jornalista, e até, em determinada altura, em que os filhos e as obrigações familiares colocaram Baptista-Bastos “algo atrapalhado de dinheiro”, Mário Soares propôs-lhe a organização de um livro juntando as suas intervenções políticas e discursos. “Organizei-o, claro, e recebi um dinheirinho que muito jeito me fez naquela altura. Foi um grande apoio”, lembra, agradecido.

Nessas e noutras ocasiões, Soares não se deixou afectar pessoalmente pelas críticas jornalísticas que lhe eram movidas por esse outro homem de esquerda, de uma forma aberta e declarada. Demonstrava singular poder de encaixe, “e falava sempre comigo de forma muito agradável”, demonstrando interesse e preocupação com a família. Baptista-Bastos, em Dezembro de 2014, a propósito dos 90 anos do velho político, escreveu um texto no Jornal de Negócios no qual referia: “Conheço Mário Soares desde os alvoroços da minha participação na vida cívica. Os meus atritos com ele nunca beliscaram o respeito e a amizade mútuos. E, amiúde, os meus artigos no Diário Popular eram extremamente veementes. Tinha, e ainda tenho, uma esperança imaculada na mudança do mundo. Esta crença pertence aos domínios da fé, bem sei, e Soares alimentava outras direcções. Irritei-me, por vezes, com as suas opções, com as suas extravagantes decisões, com as absurdas amizades que cultivava, como aquela, com Carlucci, o todo-poderoso senhor da CIA. Ele não alterava o comportamento e as coisas ficavam como eram”.

Hoje, à distância de poucos anos, a propósito da triste notícia do falecimento, diz-nos que era assim mesmo. Ambos conviveram bastante. Baptista-Bastos recorda os almoços com Soares e a forma como o mesmo era efectivamente uma pessoa culta e de grande interesse literário. A este respeito, nós próprios entrevistámos, em tempos, Mário Soares, que inclusive nos deu contra do grande amor que tinha pelas Letras e admitiu que poderia ter sido um escritor, se tivesse seguido um outro caminho na sua vida. O político e a esposa, Maria Barroso, não faltavam a eventos culturais como os que traziam a Lisboa, por exemplo, Jorge Amado. Entrevistámo-lo uma outra vez quando, em Lisboa, Zélia Gattai, a mulher de Jorge, enveredou ela própria pela escrita e publicou o livro ‘Crónica de Uma Namorada”.

Baptista-Bastos concorda que Soares era, ao contrário de muitos outros políticos do nosso tempo, um homem de bagagem literária e cultural bastante sólida. “Ele era um homem muito lido, que era amigo de muitos jornalistas e escritores, convivia muito com eles, e tinha a suprema vantagem de, ao contrário de muitos outros, não ficar magoado ou ressentido com as críticas que lhe faziam. Por exemplo, no meu caso. Houve alturas em que fui realmente muito crítico com ele. Tenho muita pena que tenha falecido, pois era… como hei-de dizer… o último bandeirante de uma grande geração de políticos”, acentua.

Dele e de Álvaro Cunhal, e mesmo de vários políticos de direita, como Adriano Moreira, recorda que nada tinham a ver com muitos tecnocratas da política de hoje. “O Cunhal e ele tinham uma relação especial. Não se esqueça que o Cunhal foi professor dele no Colégio Moderno. E ele tinha um grande respeito pelo Álvaro Cunhal, que por vezes não era correspondido. De qualquer das formas, o Soares sempre manteve, em relação a Cunhal, uma certa amizade. Aliás, ele não o escondeu. Ele era contra a ideia comunista, claro. Sempre foi toda a vida”.

Soares mantinha tanto relações de amizade e respeito com Cunhal, que foi seu aliado até certo ponto, depois seu adversário político, quer com Frank Carlucci, o embaixador norte-americano em Portugal que acompanhou o Verão Quente de 1975. Essa capacidade de se relacionar com todos os lados é elogiada por Baptista-Bastos, embora houvesse amizades de Soares que lhe desagradavam: “Lembremo-nos de que o país atravessou uma fase muito complicada e exacerbada que poderia ter redundado em guerra civil”. Para evitá-lo, concorreram as habilidades de diálogo daquele que foi primeiro-ministro de Portugal e, mais tarde, presidente da República Portuguesa. O velho leão socialista tem sido vilipendiado nas redes sociais desde a sua morte, numa autêntica catarse de ódio por parte dos seus opositores, que até se mostram abertamente felizes com a sua morte. O fenómeno, que tem merecido a atenção dos media, já foi associado por alguns comentadores a saudosistas do regime fascista, que Soares combateu, e a retornados de África, que culparam Mário Soares pela forma atabalhoada como decorreu a descolonização. O próprio defender-se-ia, mais tarde, pelas circunstâncias e a conjuntura do momento, justificando que era difícil ter agido doutra maneira em relação às ex-colónias; mas houve quem nunca lhe perdoasse e personalizasse nele a situação dramática dos que tiveram de regressar sem nada. Outra ala que se regozija com a morte de Soares é a da extrema-esquerda, cujas ambições tornar Portugal num satélite da União Soviética Soares travou, levando o país para o rumo duma democracia europeia. Baptista-Bastos, que até tem página – muito pouco activa – no facebook, desvaloriza essas atitudes que se verificam nas redes sociais, frequentemente a coberto de anonimato.

“Essas são muitas vezes coisas ditas a coberto da clandestinidade. Não vejo, não leio, não comento”, conclui. Baptista-Bastos continua a considerar Soares, como o fez em 2014 (utilizando uma expressão de Manuel Alegre) “o último leopardo num tempo miserável de chacais e de servidão”. Controverso, sim, mas merecedor de respeito.


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