Humiles Ad Cunas

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Já se amassou os bolos e as broas, já se marinou a carne de porco, já se apurou o tin-tan-tum. Já armámos a escadinha, já expusemos as searinhas ao orvalho, apanhámos os junquilhos e alindaram-se as jarras com os sapatinhos. As pratas brilham areadas, os cortinados lavados e as camas de fresco. Fomos à missa do parto e corremos de loja em loja na procura da última prenda. Estão a chegar os familiares do continente ou da Venezuela.

A festa está aí! Transborda na alegria colectiva estampada no rosto de cada um, na azáfama de uma época que se quer vivida intensamente. O Natal madeirense é assim: avassalador e até purificador. Sente-se no ar o desejo de concórdia, de tolerância, de felicidade.  É paragem e é tornar folego; é a recolha dos cacos da vida e a limpeza da alma; é a experiência do idílico e o regresso à doçura da infância.

É certo que no centro do Funchal tiraram as motivações iluminadas que nos faziam situar na época; é certo que um excesso de enfeite e de papel colorido deseja abafar a causa desta época; é certo que somos tentados a centrar mais no gosto das papilas do que no sabor do coração. Tudo isso verificamos, mas ainda não nos conseguiram convencer que esse Natal das coisas seja mais importante que o Natal dos momentos, da família e do interior de nós mesmos.

É que o Natal nasce da humildade.

O nosso agradável bulício tem por causa uma surpresa. A experiência do Natal não está apenas na revelação de um Deus humanizado que nos dá a mão. A intensidade da Festa não reside apenas na renovação dessa aliança que Deus concretizou com os homens e que relembramos efusivamente de geração em geração.

O Natal é a surpresa daquele nascimento. Naquele local inóspito, numa época politicamente imprópria, numa família migrada sem tecto, acontece o inesperado. Não foi o parto de um rei aos olhos do Mundo, e muito menos de um anunciado Deus menino. Não houve arautos, nem sinos ou girândolas.

Anos depois, os evangelistas, numa altura em que talvez fosse importante valorizar a natureza superior daquele acontecimento, sentiram a necessidade de o descrever na simplicidade dos sinais e dos gestos. Foi uma jovem simples escolhida para mãe. Foi um casal que aceitou o inaceitável em esposados. Foi uma caminhada na aridez da terra com uma gravidez que se concluía. Foi a aflição da procura de um aposento que testemunhasse a ocasião.

É um nascimento que ocorre na procura dos outros. Não foge aos problemas mundanos e às circunstâncias da vida. Nada em Cristo acontece sem humanidade e sem o próximo, sem esse olhar que dá sentido à vida. Tudo se centra naquela manjedoura, onde o nosso olhar se turva, convergindo. A visita ao presépio exige a humildade dos pastores. Não a sabedoria da racionalidade, nem a riqueza acumulada das pessoas. Só nessa profunda ligação à terra, à nossa natureza, à nossa simplicidade é que se entende o verdadeiro presépio.

Um Deus para todos nasce no cenário mais impróprio. Nasce ensinando que o sentido do homem é isso mesmo: a surpresa da simplicidade, da humildade da nossa existência, cheia de embaraços e de conquistas mas que encontra sentido no serviço ao outro, no amor.

Que este desejo alegre que enviamos para todos, seja essa descoberta de um Natal de entrega e de humildade.

 

 


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