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O recente falecimento de Fidel Castro, no passado dia 25 de Novembro de 2016, tem suscitado uma plêiade de notícias, análises e comentários nos meios de comunicação social, o que prova, à partida a importância histórica desta personalidade que, goste-se ou não, foi uma das figuras marcantes do século XX. Uma parte importante dessas análises e comentários, a que tive acesso, acentuam os aspectos negativos, os erros ou crimes da sua actuação política, rejeitando como inverdades os progressos obtidos no campo da saúde, educação e desporto e numa mais equitativa distribuição dos bens disponíveis. Sou e sempre fui contra a pena de morte, contra a discriminação de qualquer natureza, contra o culto da personalidade e a favor da liberdade de expressão, reunião e associação, dentro dos limites do respeito pela liberdade e defesa do bom nome dos outros. Estou portanto à vontade para criticar os fuzilamentos, a descriminação dos homossexuais, a falta de liberdade de expressão e associação e o culto da personalidade, que se verificou em Cuba, sob o poder de Fidel Castro.
Os analistas e comentaristas da Direita têm acusado a Esquerda de ser demolidora com os ditadores de direita e benevolente e compassiva com os ditadores de Esquerda. Mas a Direita não tem feito o mesmo? Ambos os comportamentos são censuráveis, a meu ver. A leitura do Livro Negro do Comunismo, sob a direcção de Stephan Coutois, publicado em 1997, deve ser completada com a leitura do Livro Negro do Capitalismo, publicado no ano seguinte, sob a direcção de Gilles Perrault. A pena de morte existe ainda hoje em vários países, nomeadamente em alguns Estados dos Estados Unidos da América, apresentado como o farol da democracia, tal como antes de 1989 a União Soviética era apresentada como o farol do socialismo. Assassinar pessoas pela única razão da raça, como o fez o nazismo, é diferente do que assassinar pessoas por razões políticas, como o fizeram Cuba e a União Soviética. E que dizer dos assassinatos políticos disfarçados de acidentes, que ocorreram e ainda ocorrem em vários países? Apenas um exemplo: o imbróglio do assassinato de John Kennedy em 1963 e o “desaparecimento” de várias testemunhas que se decidiram a depor após o encerramento do processo pela Comissão Warren que concluira pelo acto isolado de Lee Harvey Oswald. E que dizer das 638 tentativas de assassinato de Fidel Castro, levadas a cabo pela CIA? Que dizer de invasões a países, perpetrados por potências militares, com o objectivo de defender interesses económicos dessas potências, provocando a morte de tantos inocentes?
Os ideais da Revolução Francesa afinal estão ainda por cumprir e se bem interpretados transpõem para a acção política a mensagem cristã. Como escreveu Francisco Louça, em 1989, na Herança Tricolor, “a igualdade dá um novo conteúdo revolucionário à liberdade, a fraternidade esclarece a igualdade: a herança tricolor conserva ainda hoje toda a sua actualidade” (p. 89). A queda do comunismo soviético, em 1989, não é o fim da História, como quis profetizar Francis Fukuyama. Há alternativa ao sistema comunista soviético, que não era exatamente o mesmo de Cuba. A degenerência do socialismo veio reforçar a arrogância do capitalismo. A recente experiência duma sociedade socialista na Venezuela, fracassada pela corrupção, compadrio, falta de diálogo, culto da personalidade, incompetência e caos económico, a que alguns capitalistas responderam com a sabotagem económica, está a proporcionar condições para o aumento da arrogância e domínio capitalista do mundo. Chavez na Venezuela e Fidel Castro em Cuba foram dois nacionalistas com uma crença muito forte na possibilidade de construção duma sociedade mais justa e que lutaram com força para isso. Nicolás Maduro está destruindo as últimas oportunidades de salvar o que o chavismo tinha de positivo e progressista. Em Cuba, não creio que a situação venha a alterar-se radicalmente com o desaparecimento do Comandante da Revolução. Em ambos os países houve erros políticos importantes. Chavez soube recuar, quando um referendo lhe foi adverso; Fidel Castro reconheceu, numa célebre entrevista a Frei Betto, que a hostilização da Igreja Católica fora um erro (veja-se, Fidel e a Religião, Editorial Caminho,1985).
Mas a alternativa também não está no sistema capitalista, comandado pelos abutres da finança. Como escreveu Boaventura Sousa Santos, há que reinventar a democracia e se conseguimos chegar à Lua, também devemos ser capazes de inventar um sistema económico-social e político mais justo e mais fraterno. Só liberdade política não chega. O problema é velho: como conciliar a liberdade com a igualdade e a fraternidade? A Direita falhou e continua a falhar, privilegiando a liberdade; a Esquerda tradicional falhou também ao privilegiar a igualdade, esquecendo a importância da Liberdade.
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