Opinião de Violante Matos: “Triste e Indignada”

violanteViolante Saramago Matos

Não fica bem a um político ser emotivo – há que ter a frieza e a lucidez proporcional à dimensão dos acontecimentos. Nem ser politicamente incorrecto – compromissos futuros podem ser postos em causa. E, essencial, deve um político que se preze usar linguagem adequada, conversa redonda, com termos caros e ‘eruditos’– ou seja, embrulhar quem ouve.
Pois! Mas eu tenho sobre eles a enorme vantagem de não ser política, de não ter cargos partidários nem públicos. E depois, nunca tive jeito para essa linguagem de floreados.
É simples: estou triste, estou indignada.
O Funchal fez-me chorar. É triste andar por estas ruas, sentir o cheiro do incêndio, adivinhar o sol por uma espessa cortina de fumo e cinzas, ouvir o crepitar das madeiras ainda a arder, ver as paredes calcinadas dos prédios de onde, às vezes, se escapam suaves colunas de fumo ligeiramente azulado, olhar a montanha e tudo negro. É triste que o homem que fala connosco não consiga conter as lágrimas quando nos diz que o neto lhe pedia para sair de casa porque só tinha um avô. Dói ouvir o que menos queremos ouvir – Lá foi, Violante, fiquei sem casa, sem nada! Amachuca a expressão (choque? espanto?) do senhor que mora perto, a abrir cuidadosamente a caixa do correio – quem sabe se na esperança iludida de que a vida continua na mesma rotina, que não passa de um pesadelo que a sua casa (recuperada de poucos anos e ali mesmo atrás do portão) tenha ardido toda e que ele poderá regressar lá para dentro na companhia da sua mulher. Estou triste, sim, estou muito triste.
Mas estou, sim e também, muito indignada.
Foi com uma revolta sem tamanho que fui assistindo, em especial, ao comportamento do presidente do Governo e da secretária que se julga habilitada e em vantagem na corrida dos candidatos do PSD para as autárquicas no Funchal. E é a essa secretária, sempre ‘de ponto em branco’, a quem pergunto se não sente vergonha em ter consentido na publicação de uma fotografia sua, com chancela oficial, a segurar a máscara de um bombeiro exausto e com dificuldades respiratórias? Quem é que politizou esta desgraça desde o princípio?
É a displicência, quando não mesmo o enfado, do presidente; é a ausência de uma palavra de conforto, de esperança e de orientação para quem se via acossado por labaredas mais altas que casas, sufocado por um fumo intoxicante; é a recusa, politicamente consciente, da ajuda oferecida pelos Açores e por Lisboa; é a competição descarada com o presidente da Câmara do Funchal, como se estivéssemos em qualquer campanha eleitoral – no aluvião de 2010, em guerra com Jardim. Albuquerque enfiou o ‘sempre sem pingo de lama’ colete da protecção civil e fez questão de se mostrar; agora, também limpo e aprumado, de camisa aberta e casaco azul claro, enfia-se num carro e nem se dá ao trabalho de pôr os pés no chão para falar com as pessoas: é mesmo pelo vidro aberto…
É a mentira das 4 da tarde de 3ª feira tudo controlado quando no Funchal já havia fogo e é a da noite de que tudo piorou porque o vento mudou de direcção. É a demagogia dos estudos dos meios aéreos, com que Albuquerque quer fazer esquecer o seu miserável e criminoso comportamento durante esta tragédia.
É o último conselho de governo – chamar tudo a si, ostracizando autarquias e organizações do terreno. E pedir dinheiro a Lisboa para repetir o que fizeram com a Lei de meios, que usaram e abusaram como quiseram, sem resolver um único dos grandes problemas desta cidade.
Nada do que devia ser: uma COMISSÃO competente e idónea para coordenar e acompanhar tudo – do levantamento real da situação à definição das soluções, da gestão dos recursos à dos dinheiros, passando de uma vez por todas, pelo ordenamento do território e da floresta e pela intervenção onde ela é estratégica e decisiva: lá em cima, na montanha.
E é a visita de António Costa! Albuquerque conduz o primeiro ministro em alta velocidade e, pelo que diz a imprensa, por lugares sem ninguém – não vá Costa fazer perguntas indiscretas ou ouvir o que não convém que ouça!