Brexit ou Bremain eis a questão

veiga frança

Dentro de poucos dias os cidadãos do Reino Unido irão escolher se pretendem continuar na União Europeia ou se preferem sair dela definitivamente.

Esta é a promessa que o primeiro-ministro inglês fez ao seu eleitorado há cerca de três anos atrás; algum tempo antes, mas quanto a mim tendo em vista recandidatar-se como líder do partido conservador ao Governo do país, reeleição que conseguiu em 2015 com uma vitória e maioria absoluta no parlamento.

Pelo que se vê e se lê, fica-me a impressão de que David Cameron já se terá arrependido da sua promessa de então, apesar de ter sido eventualmente isso mesmo que lhe garantiu essa vitória e passar a governar só sem a coligação que lhe permitiu formar o anterior governo.

Na campanha que abraçou para o Bremain, tentou sempre alertar e até mesmo intimidar os britânicos para as expectáveis consequências socioeconómicas e financeiras para o Reino Unido de uma saída da UE, mas essa campanha parecia estar a surtir efeito oposto para muitos eleitores indecisos. Se há pouco mais de 2 semanas a balança, embora mais ou menos equilibrada, pendia para o Bremain, na última semana o equilíbrio manteve-se, mas com o prato do Brexit em posição mais vantajosa e só agora a cerca de três dias do referendo as sondagens apontam para um empate técnico com a redução dos indecisos para 8% e uma ligeira recuperação do Bremain.

Terá o primeiro-ministro britânico aberto há três anos uma caixa de pandora? Em minha opinião sim, se na próxima quinta-feira 23 vencerem os defensores da saída da União Europeia!

Durante estes tempos de campanha, enquanto os favoráveis à permanência na União repetidamente alertaram para os perigos da saída, aludindo um agravamento de impostos generalizado e uma quebra do desenvolvimento económico e financeiro do país, os defensores da saída apregoam a inaceitabilidade da “arrogância” e poderio de uma Frau Merkel à frente de uma Alemanha inabalável aos protestos que por quase toda a Europa se vão fazendo ouvir contra uma política europeia de austeridade. Deveria, acredita quem se opõe a tal política, pelo menos também fomentar e promover ela própria, nos países que não o conseguem por si, uma política de investimento que ressuscite o crescimento económico da UE e reduza os elevados índices de desemprego nesses países.

Em vez disso, a Alemanha parece não pretender abrir os cordões à sua bolsa, preferindo manter uma Alemanha reinante a acumular, sozinha no seio de uma União a 28, elevados excedentes orçamentais que em 2015 atingiram 0,6% do PIB, o maior após a sua reunificação; isso sem que o país fique sujeito a qualquer sanção comunitária por acumulação de superavits elevados e inércia de ação face a um desenvolvimento económico europeu num ambiente próximo da estagnação! Tão pouco foi sancionada em 2014 quando o seu deficit ultrapassou os 4%, como parece que poderá acontecer agora com os Estados membros cujo deficit orçamental em 2015 ultrapassou o limite fixado de 3%! E de acordo com os valores publicados em abril deste ano, esse superavit alemão será ultrapassado em 2016! Esta postura alemã parece também não agradar aos britânicos, pouco dispostos a continuar a pagar a sua quota-parte da fatura de uma política comunitária com a qual em muito discordam.

Nestes últimos dois meses, todos os cidadãos britânicos com quem mantive contactos, na vasta maioria dos casos analistas económicos ou financeiros, fiscalistas e advogados de negócios, me perguntaram o que pensamos no nosso país sobre o referendo e a eventual saída deles da UE. Por seu lado, as suas opiniões nem sempre convergiam, repartindo-se quase equitativamente entre os apologistas do Brexit e os do Bremain embora todos admitissem que as consequências para o futuro do Reino Unido, como para o da União sem a sua 2ª maior economia, serão pelo menos no princípio seguramente más para todos os britânicos em particular e os europeus em geral. Mas mesmo assim muitos parecem preferir arriscar e abandonar o tratado que nos une.

Recentes estudos da OCDE demonstram que o impacto do Brexit conduzirá a um inevitável aumento de impostos para as famílias do Reino Unido que, traduzidos em números corresponderão, por agregado, a um aumento superior a £ 2.000 nos próximos cinco anos que se agravará para um valor próximo dos £ 4.000 ou £5.000 lá para 2030. Segundo os mesmos analistas, isso corresponderá por volta desse ano a um PIB per capita inferior em 5% ao atual, para além de vir acompanhado de um agravamento das condições financeiras que o país e as suas gentes enfrentarão, a par de um acesso ao crédito bem mais apertado do que agora. Já para não falar nos reflexos eminentes de um aumento das barreiras comerciais entre a União e o país e as restrições que, mais cedo ou mais tarde se imporão à mobilidade entre os trabalhadores de um e outro lado.

E o continente europeu, agora suspenso deste referendo, também sofrerá as consequências da perda da sua segunda maior potência económica e ficará ainda mais dependente da senhora Merkel e das suas imposições, se ganhar o sim pela saída do Reino Unido. O risco extremo é assistirmos uma desintegração gradual de alguns países no seio da União e o fim do sonho europeu.

Outra consequência de contornos imprevisíveis, mas seguramente negativa, prende-se com a defesa e a segurança da própria União Europeia, já que o Reino Unido é uma das maiores potências militares do mundo e certamente também entre as primeiras da Europa.

Especula-se já por terras de Sua Majestade sobre a velada existência de um task-force em cada um dos lados – RU e UE – que no dia seguinte ao 23 de junho porão em marcha um plano de execução de políticas e medidas que visem preparar, num prazo de cerca de 2 anos, a conclusão da saída, mas também um sem número de acordos bilaterais entre o Reino Unido e os diversos Estados membros restantes que permitam designadamente a manutenção das trocas comerciais atuais tão importantes para cada uma das partes.

Quanto a mim acredito nos eleitores ainda indecisos e que, fazendo valer a razão, no momento de colocar a cruzinha adiarão a morte anunciada de uma Europa unida tal como a idealizaram grandes estadistas dos que já não “se fabricam” como o foram os seus mentores e fundadores.

Esperemos que dentro de poucos dias os britânicos votem em consciência e optem por ficar connosco. Necessitamos deles na União Europeia, nem que fosse apenas para evitar a hegemonia alemã.

Dessa posição estaremos todos nós pendentes, cidadãos de uma União Europeia cujo desenvolvimento económico teima em ficar estagnado e cujas expectativas de crescimento do emprego continuam claramente desanimadoras.  A perda de tão importante parceiro em nada nos beneficiará, muito pelo contrário!