
Parece haver em nós, nos últimos tempos, alguma naturalidade com a violência. Sintoma disso é o modo como nos vamos habituando aos soldados e blindados nas ruas de algumas capitais europeias. Como na Síria, no Iraque, no Líbano, no Afeganistão ou em tantos outros lugares em que o exército se diluiu por entre a multidão e já é parte da paisagem urbana. Em pleno coração da Europa experimentamos uma rotina de vida que nos era, até agora, estranha. Pela primeira vez, a maioria de nós consegue perceber a violência latente.
Não sei como se combate o medo. Sei apenas que não se combate com mais medo. Mais agora que a Síria, o Líbano ou o Mali já não nos parecem assim tão distantes e o medo tomou conta da França e da Bélgica, como num passado recente invadiu Nova Iorque, Madrid e Londres. Agora é aqui ao lado. Agora está demasiado próximo. Não entrámos em pânico, mas não conseguimos esconder a apreensão e a desconfiança. Não é que o medo se tenha instalado. Ainda não. Os peritos nos jornais e nas televisões dizem-nos o que fazer, se fugir ou fingir de morto. E tudo nos parece surreal.
A nossa vida é definida por momentos de partilha que são escolhas livres e nossas. O terrorismo tira-nos esses momentos e substitui-os pelo ódio, pelo medo e pela morte. A 13 de Novembro atacaram-nos precisamente nesses lugares de partilha. É preciso que o temor não nos tolde a razão. É preciso precaver-nos de todo o acto de histerismo que suscite um desejo automático de vingança.
É tempo de colocar o medo de lado e encarar o terrorismo como um problema com o qual temos de lidar. É possível ganhar ao terrorismo. Quando as coisas se começam a desfazer, é aí que temos de ser melhores. Os nossos valores obrigam-nos a escolhas. E é urgente escolhermos ajudar as pessoas, os que estão e os que vêm.
A União Europeia precisa querer e fazer mais do que tem feito. A par com a política comercial e o auxílio económico aos países terceiros, devem estar o respeito pelos direitos e a garantia pelas liberdades fundamentais. A linha que determina a fronteira dos valores humanos deve ser clara e absoluta. Sem descurar a segurança, acredito que é a educação o principal instrumento de prevenção do terrorismo e de combate à radicalização. Temos de fazer valer a educação. Antes que outros a usem contra nós.
É preciso entender que cada ataque terrorista é um novo repto à democracia e à preservação dos nossos princípios e ideais. A única forma de responder à desumanidade é com mais humanidade. É preciso que o indivíduo perdido na anomia social encontre o Outro que o reconheça como homem. Também a cultura é um veículo privilegiado para desenvolver a empatia que nos permite compreender o Outro. Agrada-me muito a ideia de Matteo Renzi de avançar com um programa de combate ao terrorismo que inclui, como medida preventiva, o envolvimento dos jovens com a cultura do país. “Eles imaginam o terror, nós respondemos com cultura”, afirma o Primeiro-Ministro italiano numa espécie de inversão da dispersão a que temos votado os nossos jovens.
A democracia e a liberdade não se ganham com balas e com sangue. A educação e a cultura constituem-se como resposta prévia, colectiva e sólida. Pode parecer um lugar-comum, mas há que insistir: é urgente revitalizar a educação e a cultura, desde a infância até à universidade e ao longo da vida. Essa é a única forma de afastar as condições favoráveis à endoutrinação que mata. Essa é a única forma de continuar a dar voz aos que sofrem e a denunciar os horrores cometidos. A banalização do terrorismo é uma ameaça demasiado séria. Não podemos ceder à passividade e à indiferença.
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