Pedro Guerra – um teste à santa paciência

joao-abel-torres

Recortava jornais na redação do Independente, jogou no Damaiense, foi assessor de Paulo Portas, quase se formava em Direito, foi diretor de conteúdos da Benfica TV, trabalhou na CMTV e foi assessor do Ministério da Defesa quando Portas chegou ao governo de Durão Barroso (o que poderá estar, sabe-se lá, relacionado com o seu sobrenome bélico), com o modestíssimo salário de 4888 euros, fora subsídio de refeição e despesas de representação, o que na altura gerou alguma polémica, se é que um vencimento tão austero possa sequer suscitar qualquer tipo de polémica…
Em janeiro começaram as suas “campanhas militares” em várias frentes. Primeiro pegou-se com Otávio Machado, depois com o também benfiquista Jaime Antunes, dando claras mostras do seu respeito pela grande instituição que representa. Nada como lutas fratricidas para honrar um clube como o Benfica, sobretudo quando a atravessar uma fase tão complicada. Depois foi a vez de Eduardo Barroso, que culminou com a melodramática saída do programa. Finalmente, para compor o ramalhete, envolveu-se numa acesa troca de palavras com o não menos “pacifista”, presidente do Sporting, Bruno de Carvalho. Qual deles a baixar mais o nível…
Que saudades do velhinho Domingo Desportivo, que possibilitava a visualização de golos e resumos de jogos de várias divisões e de outras modalidades! Atualmente quem quiser ver resumos de jogos e golos espere pela semana dos nove dias ou opte pela baratucha pay tv.
Entretanto, no meio do cenário de guerra chamado Prolongamento, surge um cada vez mais abananado e desautorizado Sousa Martins, suposto moderador, e digo suposto porque, depois do carregador de bazucas Pedro Guerra, o jornalista faz frequentemente o triste papel de figura meramente decorativa, chegando mesmo ao ponto de ter sido mimado com os batismos de Guerra de “hipócrita” e “inconsciente”, sendo que, depois de tão graves insultos, Guerra precisou “apenas” de uma celeríssima semana para publicamente apresentar-lhe um mais que devido pedido de desculpas.
A verdade é que os contentores de papelada de que Pedro Guerra se faz acompanhar fazem corar de vergonha os deputados da comissão de inquérito da Assembleia da República ao BPN, ao BES ou mesmo, mal comparado os centenários arquivos da Torre do Tombo.
Acrescentando outros elementos à análise, confesso que ainda cheguei a pôr a hipótese de Pedro Guerra ser uma espécie de alter-ego de Marcelo Rebelo de Sousa, na área futebolística, mas afinal está tudo explicado. Pedro Guerra teve um longo passado de arquivista de recortes, o que faz dele um forte candidato a uma condecoração no 10 de Junho no domínio patriótico do corte e costura.
Há, contudo, uma curiosidade que não resisto a ver satisfeita: em que meio de transporte se deslocará Pedro Guerra para a TVI24?
Suponho que, dado o peso do arsenal documental e arquivístico, não será de descartar a hipótese de um camião TIR, cedido pela empresa de camionagem de Luís Filipe Vieira. Diz que a Marcelo Rebelo de Sousa bastava uma “caterpillar” para o transporte dos seus volumes, nada que se compare.
Mesmo para os benfiquistas mais convictos, estou certo, Pedro Guerra chega a causar indigestão e refluxo esofágico, sendo que alguns até seriam capazes de assinar uma petição para enviá-lo já para os arquivos do Canal (de má) Memória, uma vez que o que melhor que sabe fazer é juntar portistas e sportinguistas e alimentar contra si e contra o clube mais e maiores ódios de estimação.
Porém, para a TVI24, Pedro Guerra é a nova “galinha dos ovos de ouro”, a avaliar pela exponencial subida das audiências depois da saída de Seara, muito provavelmente para compensar os dois ou três espetadores que seguem atentamente o reality show de Teresa Guilherme, contando com a Teresa Guilherme.
Guerra adora ouvir palavras de ordem como “Cale-se”, bem como a repetida variante “Quando é que se cala e me deixa falar?” ou o descabelado ultimato “Ou você se cala já, ou eu não falo mais durante o resto do programa.”, conforme ameaçou uma vez Manuel Serrão, se bem que sem grande resultado.
Pedro Guerra é assim, ocupa-se de tudo e ocupa tudo. Faz lembrar a velha história do eucalipto que seca tudo à sua volta. É claro que não tem a “voz grossa” de Rui Vitória, nem o engenhoso portátil e as tiradas humorísticas e viperinas de José de Pina, nem sequer a capacidade criativa e de dramatização, a roçar muitas vezes números de circo, de Manuel Serrão, mas tem a capacidade de enervar até um Cristo e o inesgotável talento de um verdadeiro incendiário da paciência, mesmo de um Vitor Gaspar.
Fernando Seara (Volta, estás perdoado!) não era menos benfiquista, muito pelo contrário, era um digno representante do benfiquismo equilibrado, sendo muitas vezes vítima do tratamento de choque e da linguagem e gritaria, muitas vezes grosseiras e desrespeitosas, sobretudo de Eduardo Barroso, que não raras vezes se excedia e não por poucochinho. Enfim, Fernando Seara era um benfiquista de mão cheia, um adversário de debate leal e um cavalheiro no trato dos seus companheiros de painel. Tirando Eduardo Barroso, que em muito contribuia para que não se pudesse entrar na linha beatificada de “Deus e os anjos”, o programa, convenhamos, tinha um ar muito mais civilizado.
Pedro Guerra, hoje por hoje, é, sem dúvida, o mais versátil de todos os comentadores de programas futebolísticos, e não pelas melhores razões. Não é apenas comentador, isso seria demasiado redutor para o seu insufladíssimo ego e para a sua ilimitada autoestima. Pedro Guerra já acumula as vezes do moderador e até o substitui nas perguntas a Manuel Serrão, a José de Pina e a si mesmo.
Em suma, a imagem mais próxima que me acode quando Pedro Guerra “solta a matraca” do “seja sério” ou do “seja honesto”, ou ainda “você não percebe nada disto” é a de um martelo pneumático a levantar pedras da calçada, em plena hora de almoço, em frente a um restaurante da moda.
Nada melhor, pois, que as palavras do próprio, a ver se servem de avisado conselho ao próprio: “Não vá por aí, meu caro. Não vá por aí.”


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