“Pá. Pá-pa. Papáááá!” – EU OUVI PAPÁ?!

A psicóloga Cheila Martins aborda, todos os domingos, os mais variados temas no Funchal Noticias.

Cheila Martins*

 Dizem os antigos que no seu tempo não havia dias festivos que assinalassem, num só dia, o que deve ser lembrado em todos os outros. Não lhes tiro a razão, mas isto é mais ou menos como olhar para o copo meio cheio ou meio vazio, depende da nossa escolha e da nossa perspetiva. Regra geral estes dias homenageiam pessoas importantes, e este não podia passar em claro, assim ocorre-me dizer em alto em bom som (mais para os que me leem do que para os que me ouvem):

– Queridos pais, Parabéns!

Parabéns por serem pacientemente O-marido-da-grávida, por aguentarem forte toda a pressão dos 9 meses fora do vosso corpo, quase fora do vosso controlo e num total desconhecido. Por suportarem as inquietações e as hormonas das mães que estão a vibrar com o primeiro pontapé, com o mundo todo na barriga, com a atenção toda nelas e para elas, preocupadas (e ocupadas) por serem fonte de alimento, de desejos, de enjoos, de vómitos, de fome extrema e de sono (alguns destes itens ou todos ao mesmo tempo), à espera do momento de dar vida à Vida!

Eis que ele nasce e, quando consta que vai tudo voltar à normalidade, nem parece que o cordão umbilical foi cortado. O pai está ali nas redondezas, ainda a aprender que posição tomar neste cenário de pessoa que de repente deixa de ser homem para passar a ser Pai. E é mais ou menos neste momento que cai a ficha: Ser pai é um contrato sem termo, é assinar no dia em que lhes pegam pela primeira vez, assim… deliberadamente para sempre. Sem “mas” nem “porquê”, para sempre. Já são outros, novos, desconhecidos, que sonham com o primeiro “Pá. Pápa. Papá!” (e que choram em segredo ao ouvi-lo) que emitem sons estranhos de voz grossa, só para poder falar “a mesma língua”, que sonham com um discurso que vos encha o peito de orgulho, que pode ser qualquer coisa como “Quando for grande quero ser como o meu pai.” E são estes momentos, e outros que tais, que fazem do ser-pai uma foto sem negativo, impossível de reproduzir de forma igual.

E quanto mais voam estes pensamentos, mais se alargam horizontes e mais espaço se cria para a responsabilidade, para a consciência, para o assumir o papel ativo de quase serem mães, com barba. Os novos pais percebem a importância da vinculação, assumem umas tarefas, partilham outras, opinam, são duros, educam, estão lá. E quando olham para trás, percebem que valeu tudo a pena, que ser pai é um legado perpétuo de existirmos depois de nós. Sim, ele disse “papá.”

 *Membro Efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses