As “Muralhas de Jericó” do Funchal: Quando o incivismo ao volante tranca a cidade e o socorro

Rui Marote
O Funchal corre o sério risco de se tornar a capital nacional do pilarete, mas a culpa não é apenas de quem governa; é, primeiro que tudo, de quem conduz. Quem caminha hoje pelo centro histórico depara-se com uma paisagem urbana invadida por metal e cimento. O município, numa tentativa desesperada de travar o desrespeito crónico e o estacionamento abusivo de condutores prevaricadores, viu-se obrigado a erguer autênticas “Muralhas de Jericó” modernas. O objetivo é proteger as zonas pedonais, mas a raiz do problema está na total ausência de civismo automóvel.
A verdade é nua e crua: se houvesse respeito pelo código da estrada e pelo espaço do peão, as ruas da nossa cidade não precisariam de ser cercadas a ferro. O egoísmo de quem decide “deixar o carro só dois minutos” em cima do passeio, bloqueando rampas de acessibilidade e faixas de circulação livre, transformou a baixa num campo de batalha urbano. A autarquia limitou-se a reagir à selva em que o trânsito se tornaria se as artérias históricas fossem deixadas ao livre arbítrio da irresponsabilidade de alguns.
O problema é que este remédio contra a falta de civismo gera um efeito secundário perigoso para a segurança de todos. O aviso mais recente ecoou na Rua do Sabão. O incêndio de Setembro de 2026 expôs a fragilidade desta blindagem forçada. Perante as chamas, os bombeiros viram-se confrontados com os mesmíssimos pinos que foram colocados para travar os maus condutores. Para que as viaturas pesadas de socorro avançassem, foi preciso derrubar as barreiras à força. Cada minuto perdido a combater o ferro é um minuto ganho pelo fogo — um preço demasiado alto a pagar para conter a má educação rodoviária.
O cenário repete-se e agrava-se na Rua da Sé, onde assistimos a pilaretes soldados à pressa ou cimentados na nossa calçada portuguesa. Trata-se de monumentos físicos ao nosso próprio fracasso enquanto comunidade cívica. Chegámos ao ponto absurdo de ter de soldar ferro ao chão para que um condutor perceba que uma zona pedonal não é um parque de estacionamento privativo. Esta total rigidez ignora uma regra básica da Proteção Civil: o urbanismo deve ser fluido para quem socorre.
A falta de civismo gerou os pinos, e os pinos agora ameaçam a segurança comum. O Funchal não pode continuar refém de barreiras medievais para resolver problemas de comportamento modernos. É urgente transitar do cimento para a punição severa — com video vigilância ativa, reboques implacáveis e multas pesadas. A cidade não tem de ser blindada porque uma minoria recusa cumprir as regras. Sob pena de, no próximo sinistro, o egoísmo de quem estaciona mal continuar a legitimar as “Muralhas de Jericó” que travam quem nos corre a salvar.
Em muitas cidades europeias, substitui-se o pino fixo por pilaretes retráteis automáticos (que descem através de comando, cartões dos moradores ou sensores de veículos de emergência), o que permite conciliar a exclusão do trânsito civil com o acesso imediato do socorro.
Substituir centenas de pilaretes fixos por modelos retráteis automáticos é financeiramente inviável a curto prazo. O orçamento total da Câmara Municipal do Funchal para 2026 está fixado em 136 milhões de euros. Esse montante precisa cobrir todas as frentes da cidade. Áreas como a reabilitação de estradas já consomem cerca de 5 milhões de euros sozinhos.
Um pilarete retrátil automático com sensores custa milhares de euros. A instalação exige abrir o pavimento e passar cabos elétricos.Multiplicar esse custo por centenas de pilaretes geraria um gasto proibitivo.
Sistemas automáticos ou de cadeado são guardados apenas para entradas principais de eixos históricos selecionados (como zonas ligadas à Rua do Sabão, Rua da Sé e Largo Gil Eanes).
Nas laterais das calçadas, onde o objetivo é apenas evitar o estacionamento selvagem contínuo, mantêm-se os pinos cimentados por serem baratos e sem manutenção.
Uma alternativa intermédia mais barata que algumas cidades usam são os pilaretes flexíveis de alta resistência. Eles impedem os carros normais, mas dobram-se totalmente se um camião de bombeiros passar por cima, sem necessidade de motores ou eletricidade.
Na Rua da Sé existem outras “ratoeiras” nas bermas tanto à direita e à esquerda. Passados nove meses os buracos continuam por tapar, em breve recebem os postos da iluminação natalícia (ver foto). O buraco já está feito até lá vão continuar a malhar no chão…


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